Indígena escolhida por Bolsonaro para integrar comitiva na ONU alega que queimadas são feitas por tribos: ‘É nossa culpa mesmo!’ – VEJA VÍDEO
A
comitiva que acompanha Jair Bolsonaro em sua presença na
Assembleia-Geral da ONU, que teve início nesta terça-feira 24 com o
discurso do presidente brasileiro, incluiu de última hora a youtuber e
indígena Ysani Kalapalo na lista de acompanhantes.
Homenageada
como a contraposição do Cacique Raoni em relação às questões indígenas
no País, Ysani é figura conhecida do governo: ela alega “fake news” em
relação às políticas ambientais de Bolsonaro na região amazônica, e,
também, é rejeitada por lideranças indígenas do Brasil como uma voz
representativa da demanda dos movimentos.
Uma carta de repúdio
assinada por 16 líderes de povos indígenas do Xingu, onde fica a aldeia
de Ysani, foi divulgada no sábado 21 após os rumores da presença de
Ysani se confirmarem. Em nota, a Associação Terra Indígena Xingu (ATIX)
diz que o governo brasileiro “ofende” ao ignorar as representações
escolhidas pelos povos em conjunto e, ao invés disso, dar destaque à
convidada. O primeiro a assinar a carta é o cacique Tafukuma Kalapalo,
do mesmo povo de Ysani.
Ysani é da aldeia Tehuhungu, no Parque
Indígena do Xingu, Mato Grosso, e tem um canal no Youtube com cerca de
273 mil inscritos. Nos vídeos, conta sobre a cultura de sua etnia em
relação a assuntos diversos – como gravidez nas tribos e porque virou
uma ‘indígena de direita’. Nos últimos tempos, tem se dedicado a postar
declarações de apoio à política ambiental de Jair Bolsonaro e críticas
às “fake news” relacionadas às notícias veiculadas na mídia.
Um de
seus vídeos chegou a ser compartilhado pelo canal do Ministério das
Relações Exteriores. Nele, Ysani defende que as queimadas na Amazônia
“não são culpa do governo” Bolsonaro, mas sim de práticas de colocar
fogo em roças para limpar o terreno de plantio nas tribos.
“Se
não queimar, não tem como limpar. Só que muitas vezes, o pouco do fogo
que resta, o vento leva para outros lugares e acaba pegando fogo. Pois
é, muitas aí falam “Ah, é por conta do governo Bolsonaro”, não sabem
nada da nossa realidade. É muita fake news. Muitas das vezes é por nossa
culpa mesmo”, diz a indígena em outro vídeo no qual aparece apagando
focos do fogo.
Ysani
já vinha apoiando Bolsonaro desde 2018, quando chegou a visitar o já
eleito presidente no Rio de Janeiro. Na ocasião, as entidades indígenas
também se manifestaram contra as falas da youtuber na ocasião, alegando
que ela levava um “falso apoio dos índios” ao governo que viria.
Criticando
redes de TV e a grande mídia aos moldes do ministro do meio ambiente,
Ricardo Salles, e do presidente da República, a youtuber não contesta a
extensa quantidade de dados e de fontes que apontam uma das maiores
crises ambientais da última década na região amazônica.
Em agosto,
a Amazônia Legal registrou o dobro dos focos de incêndio em relação ao
mesmo período de 2018, de acordo com o Inpe (Instituto de Pesquisas
Espaciais), quebrando um recorde de nove anos. Apesar de tradições
relacionadas à queimadas de pastagens serem comuns, a indígena também
não comenta sobre a queda no número de operações dos órgãos
fiscalizadores: de acordo com o Observatório do Clima, as multas
aplicadas pelo ICMBio caíram mais de 30% entre janeiro e maio.
Também
não existem manifestações de Ysani em relação aos ataques do presidente
Jair Bolsonaro às reservas indígenas – tanto as existentes, como as que
estavam a ser determinadas – uma “verdadeira psicose de demarcações”,
afirmou em reunião com os governadores da Amazônia Legal. No discurso
proferido na ONU, esse foi um dos principais focos do presidente
brasileiro.
A
pesquisadora Fiona Watson, da organização Survival International,
afirmou em nota que é “profundamente lamentável que a delegação
brasileira não tenha consultado o movimento indígena do Brasil sobre
quem convidar para a ONU, uma postura que, para ela, apenas tem a
intenção de reforçar a retórica do governo e minar as possibilidades de
diálogo.
“Sem
dúvida, como temos visto desde janeiro, essa escolha faz parte da
estratégia do governo de dividir o movimento indígena brasileiro,
selecionando para os representar apenas aqueles que concordam com sua
política genocida. Não é por acaso que o número de invasões a terras
indígenas e de ataques contra as comunidades aumentou drasticamente
durante este período.”, declarou.
Veja vídeo:
Fonte: Carta Capital - Publicado por: Amara Alcântara

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