Em 1983, o baiano Moraes Moreira já cantava:
“agora como é que eu me vingo de toda derrota da vida, se a cada gol do
Flamengo eu me sentia um vencedor”. Na ocasião, ele lamentava a ida de
Zico, o maior ídolo do clube, para a Europa.

Hoje, 42 anos depois, milhões de pessoas esqueceram as mágoas e
frustrações do dia a dia quando o zagueiro Danilo acertou uma cabeçada e marcou o gol do quarto título da Libertadores do Flamengo.
Neste domingo (30), centenas de milhares desses vencedores
retratados por Moraes Moreira se reuniram no Centro do Rio de Janeiro
para, juntos, mostrar ao time o tamanho da importância dessa vitória
para eles.
Do alto de um caminhão aberto do Corpo de Bombeiros, os jogadores
comemoraram com parte da “Nação”, como a torcida do Flamengo se
autointitula, a vitória do sábado (29) no Estádio Monumental de Lima, no
Peru.
A multidão que enfrentou horas de espera sob o sol e lotou a Rua
Primeiro de Março e a Avenida Presidente Antônio Carlos, duas das
principais vias do centro da cidade, é uma expressão do poder de
mobilização pelo futebol.
A Agência Brasil conversou com torcedores sobre a
motivação e coesão forjadas pelo esporte, que fizeram pessoas acordarem
cedo e se deslocarem de longe para acompanhar a celebração no Centro do
Rio, a 5,1 mil quilômetros do local da partida.
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| Em jogo tenso e com poucas chances, o Flamengo venceu o Palmeiras por 1 a 0 em Lima, no Peru, e levantou a Copa Libertadores da América pela quarta vez em sua história - Foto: REUTERS/Sebastian Castaneda/Direitos reservados |
Vitória dupla
O casal Eduardo Ferreira Henrique e Valéria Nunes Domingos
contou que a celebração de um título dentro de campo é também uma forma
de motivação para enfrentar as dores do cotidiano.
No caso deles, que moram no Cosme Velho, bairro da zona sul carioca, o
fim de semana é de comemoração dupla. No dia do jogo, veio uma ótima
notícia.
“Ontem, a gente teve duas vitórias. Minha esposa estava com suspeita
de câncer, deu resultado negativo; e a vitória do Mengão. Foi um dia
maravilhoso, sensacional! Comemoração dupla”, vibrou Eduardo.
Para Valéria, vitórias como a do Flamengo são motivação para manter
um sorriso constante na vida. O casal também exalta a união que o
futebol proporciona.
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| Valéria Nunes Domingos e Eduardo Ferreira Henrique tiveram uma vitória dupla no sábado: a conquista do Flamengo e o resultado negativo de uma suspeita de câncer em Valéria - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil |
“Na hora da euforia, todo mundo se abraça, todo mundo demonstra
felicidade. Esse negócio de violência já foi do passado, agora a galera
toda se une, todo mundo junto”, acredita Eduardo.
Família
Se Eduardo e Valéria saíram de um bairro das redondezas, teve gente
que saiu de bem mais longe. Foi o caso de Andressa Vitória, que mora em
São Gonçalo, município na região metropolitana do Rio, a cerca de 30
quilômetros de distância, quase duas horas de deslocamento.
Andressa foi acompanhada da família e chegou por volta das 9h, mais
de três horas antes de os atletas passarem pelo local. Ao lado da sogra,
Rosane Rodrigues, ela disse à reportagem que a emoção com a vitória da
véspera é um alívio para a vida pessoal.
“Ainda mais para quem tem uma crise de ansiedade”, revela.
Ela também enxerga no futebol uma forma de unir as pessoas ao ponto de, para ela, formarem uma família.
“Se você estiver vendo um jogo no bar, parece que todo mundo se
conhece, começa a trocar assunto sobre isso. Você acaba fazendo uma
amizade porque sempre vê um jogo naquele lugar, acaba se tornando uma
família”, conta.
Vida mais leve
O torcedor Eusébio Carlos André mora em Resende, cidade no sul do
estado a 170 quilômetros do Rio. Otimista, ele tinha se programado para
estar na capital fluminense neste fim de semana e participar de uma
então eventual comemoração.
Para ele, as alegrias no futebol ajudam a deixar a vida mais leve. “O
Flamengo ganhando deixa o pai de família feliz, todo mundo feliz. O
cara feliz no trabalho, feliz no amor, feliz com o filho”, diz.
Ele ressalta também o que considera ser o lado democrático do futebol, em todas as torcidas, independentemente de clube.
“Todas as torcidas conseguem reunir o pobre com o rico, o cara que
ganha R$ 50 mil junto com o que ganha R$ 80 por dia. O futebol une tudo,
todas as raças e etnias”, declara.
Fenômeno de massa
As paixões e a coesão social causadas pelo futebol já foram tema de
inúmeros estudos acadêmicos. Um deles é o do professor aposentado
Mauricio Murad, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
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| Eusébio Carlos André Vicente foi para a capital do estado com antecedência, já pensando na festa da vitória - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil |
No artigo Futebol no Brasil: reflexões sociológicas,
o também doutor em sociologia do esporte pela Universidade do Porto, de
Portugal, afirma que o futebol é um dos maiores eventos da cultura da
massa no Brasil.
“Mobiliza paixões coletivas, expressa os fundamentos antropológicos
de nossa formação e representa o nosso sistema simbólico, como poucos
acontecimentos da estrutura social”, escreve.
Murad considera que “a materialidade maior do futebol, não se
restringe ao esporte profissional”. Para ele, o valor simbólico do
futebol transborda para toda a vida social.
“O futebol é o mais significativo fenômeno da cultura das multidões
no Brasil, estimulando corações e mentes, em regiões diversas, em
classes sociais distintas, em diferentes faixas etárias, níveis de
escolaridade e relações de gênero”.
O professor ressalta que esse efeito supera até o carnaval, por se
espalhar por todo o país e se manifestar o ano interior. “Costuma se
dizer que o reinado do Rei Momo dura quatro dias e que o reinado do Rei
Pelé dura o ano todo”.
Paixão como herança
O casal Maurício Braz e Flávia Torres saiu de Magé, município da
região metropolitana, para acompanhar a comemoração. Eles levaram para
festa um dos rubro-negros mais novos por lá: João Vicente, de apenas 9
meses.
Com o bebê do colo, o pai explicou com orgulho como a tradição de
torcer para o clube passa de geração em geração. “É algo que passa de
pai para filho. Igual aqui, essa camisa eu guardo desde novembro de
1995”, diz ele enquanto aponta para a blusa vermelha e preta no corpo do
bebê flamenguista.
“Estou passando para ele aqui hoje com o tetra da Libertadores”, completa.
A geração pode até passar de família em família, mas para Hélio
Marcos Ferreira Chaves, a festa deste domingo foi um pouco mais
desacompanhada do que as de 2019 e 2022, quando o Flamengo também foi
campeão.
“Em 2019 e em 2022, eu estava com os meus filhos. Agora estou sem
eles”, brinca, ao justificar que um deles estava trabalhando e não pôde
comparecer.
“Mas quarta-feira ele estará comigo”, prometeu para quarta-feira (3),
quando o time enfrenta o Ceará pelo Campeonato Brasileiro. O jogo pode
dar ao clube mais um título de campeão.
O célebre sambista João Nogueira já dizia: “quando o Mengo perde eu
não quero almoçar, eu não quero jantar”. Mas neste fim de semana, a
Nação almoçou, jantou e dormiu feliz.
Blog JURU EM DESTAQUE com Agência Brasil - Bruno de Freitas Moura e Marcelo Brandão (Repórteres da Agência Brasil)