sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Rumo ao Novo Continente

CHILENOS DESCENDENTES DE PALESTINOS: ALMA CHILENA, CORAÇÃO PALESTINO
Estima-se que existem hoje, aproximadamente, de 300 mil palestinos morando no país, formando a maior comunidade palestina fora do mundo árabe


Uma dançarina de dança árabe no famoso restaurante palestino Qatir, em Santiago, no Chile (Foto: Sebastian Silva/EFE)
Após meses de desventuras em mares e oceanos, sobreviver à fome e atravessar os Andes, três jovens palestinos chegaram à cidade de Santiago. Era o final do século XIX e as histórias da época contam que os aventureiros fizeram fortuna.
Após viajar para sua pátria mãe para se casar, os árabes retornaram ao Chile e trouxeram consigo as esposas, os amigos e até os avôs. Hoje, acredita-se que os descendentes dessa geração no Chile superam os 300 mil e são representantes da maior comunidade palestina fora do mundo árabe.
Sua história, como a dos 50 milhões de europeus que nessa mesma época fugiram rumo ao Novo Continente, é um relato de esforço e integração que fez da comunidade um grupo coeso que, atualmente, ostenta posições de poder na sociedade chilena e que conserva muitas das tradições de seu distante território.
Viagem de 13 mil quilômetros
Para a maior parte deles, a aventura começava nas cidades litorâneas de Haifa ou Jafa, onde embarcava a um porto europeu, geralmente Gênova ou Marselha. Por lá, eles podiam passar semanas e até meses até conseguirem comprar as passagens para viajar ao tão sonhado continente americano. Na maioria dos casos, depois de mais de um mês atravessando o Oceano Atlântico, e enfrentando à fome e às doenças, chegavam a Buenos Aires.
Para que os tinham claro que o Chile era seu destino, a Argentina era o início de uma perigosa travessia: atravessar a gigantesca Cordilheira dos Andes.
A façanha começava na cidade argentina de Mendoza, aos pés da cadeia montanhosa, onde no lombo de uma mula empreendiam o caminho desafiando os vertiginosos precipícios e o vento. Quatro dias depois chegavam à cidade dos Andes, em solo chileno, onde cruzavam uma ferrovia que os conduzia até a almejada Santiago.
"Chegamos buscando novos horizontes para nossas famílias e um maior bem-estar econômico e social para nossos filhos", relata à Agência Efe o comerciante chileno Carlos Abusleme, cujos pais se radicaram no Chile após escapar da perseguição dos turcos otomanos no início do século XX.
Dos romanos aos persas, dos turcos seljúcidas às cruzadas cristãs, dos mamelucos aos ingleses passando pelos turcos otomanos, a maioria dos palestinos fugia de uma terra castigada por séculos de dominação, conflitos religiosos e disputas territoriais que projetavam um horizonte não mais brilhante que os desenhados atualmente pelos muros de concreto que atacam suas liberdades.
O comerciante chileno-árabe, Carlos Abusleme, em sua loja de lingerie no bairro Patronato, fundado por imigrantes árabes, em Santiago, no Chile (Foto: Sebastian Silva/EFE)
Uma minoria cristã ortodoxa
Um bom número de palestinos que chegou ao Chile era das mesmas regiões: Beit Jala, Beit Sahour e Belém, três cidades conhecida como na Cisjordânia como repleta de cristãos ortodoxos, cuja tradição também foi levada para o continente americano.
Como naquela época o país sul-americano não conhecia a religião ortodoxa, "a comunidade palestina entrou fortemente na religião católica apostólica romana, cuja doutrina era parecida à sua de um ponto de vista teológico", explica à Efe o acadêmico Eugenio Chahuán, do Centro de Estudos Árabes da Universidade do Chile.
"Foi uma migração em cadeia. Os recém-chegados precisavam de pessoas para ajudar nos trabalhos e começaram a trazer suas famílias, amigos do bairro e do mesmo núcleo familiar", explica o acadêmico, que lembra que na Palestina só existem duas famílias com o sobrenome Chahuán, enquanto no Chile há o registro de mais de 2 mil.
Como outros países jovens da América do Sul, nessa época o Chile precisava de mão de obra para consolidar sua economia e, apesar de os governos preferirem os imigrantes europeus, como alemães e austríacos – para quem eram oferecidas terras e direitos -, os palestinos chegaram sem perguntar e começaram a traçar seu futuro.
Os rumores da riqueza que estavam conquistando na América do Sul chegaram até o outro lado do mundo, onde rapidamente se espalhou a ideia de que no Chile era possível fazer muito dinheiro do que jamais poderiam fazer na Palestina produzindo azeite e cultivando oliveiras.
Nesse período, o modelo da economia chilena, que até o momento se baseava eminentemente na produção agrícola, estava mudando para um sistema de produção capitalista, um contexto que, segundo Chahuán, "ajudou os imigrantes palestinos que aproveitaram a expansão do mundo dos negócios e se dedicaram ao comércio e à produção têxtil".
Além disso, os recém-chegados do Oriente Médio tinham um conhecimento do mundo muito mais amplo que o dos habitantes do Chile, um país isolado ao leste pela gigantesca Cordilheira dos Andes e ao oeste pela imensidade do Oceano Pacífico.
"Além de pertencer a uma minoria religiosa culta, como a cristã, o palestino que chegou ao Chile era muito mais cosmopolita, pois a Cisjordânia foi sempre uma terra de quebra e um território central em muitos dos eventos que ocorreram no início do século XX", recalca o professor da Universidade de Chile.
Cartaz com a bandeira da Palestina e a inscrição “Palestina livre!” pode ser visto no setor comercial do bairro Patronato, fundado por imigrantes árabes, em Santiago, Chile (Foto: Sebastian Silva/EFE)
Santiago: a pequena Palestina chilena
Seu conhecimento de mundo e as habilidades para os negócios permitiram que eles se instalassem na classe média da sociedade, uma situação que, somada à conjuntura econômica da região, os transformou em uma minoria relevante do ponto de vista econômico, político e cultural.
Desde sua chegada, a principal ocupação dos palestinos que se assentaram em Santiago foi abrir estabelecimentos na área conhecida atualmente como bairro Patronato, famoso entre os turistas para fazer compras baratas e de qualidade, principalmente de roupas. Outros começaram a fabricar tecidos de algodão e seda que substituíram as caras importações europeias com as quais os chilenos se abasteciam.
Este impulso comercial é visto hoje em distintas multinacionais chilenas como o Banco de Crédito e Inversiones (BCI) e a imobiliária Parque Arauco, que administra shoppings e tem presença no Peru e na Colômbia.
Estas empresas se somam a outras instituições como o Club Social Palestino, que se encarrega de dinamizar a atividade cultural e social da comunidade, e o Club Deportivo Palestino, fundado em 1920 por membros das famílias palestinas na cidade de Osorno.
A equipe, que tem as cores da bandeira palestina no escudo e na camisa, joga na primeira divisão chilena e conta com um estádio com capacidade para 12 mil torcedores.
"Ao contrário da Europa xenófoba, a sociedade mestiça americana acolheu muito melhor os imigrantes palestinos, daí que hoje esta minoria está representada no país tanto no mundo universitário quanto no cultural, judicial e político: no Chile aconteceu uma integração transversal", destaca Chahuán.
A força das raízes
A adaptação à vida e costumes chilenos não lhes fez perder a identidade palestina. Eles trataram de salvar na memória suas tradições e seus vínculos com a terra das oliveiras e os artesãos. Ainda hoje, por exemplo, é muito comum os descendentes palestinos servirem em suas casas folhas de parreira, hummus e batatas recheadas.
Segundo uma pesquisa sobre a população de origem árabe realizada em 2001, mais de 60% dos descendentes entrevistado se definem como "chileno/árabe" e fazem suas ambas as pátrias, tanto a herdada quanto a de nascimento.
"Minha alma é chilena, mas meu coração é palestino", diz Patricia Eltit, da primeira geração no Chile e proprietária do restaurante de comida palestina Qatir, que fica em um dos bairros nobres da capital.
Até bem pouco tempo atrás, ela ainda não tinha ido visitar a Palestina. Quando foi, garante que colocar os pés na terra de seus antepassados sentiu um forte magnetismo por conta das paisagens e do povo.
"Não nos entendíamos com palavras, mas muitas vezes não era necessário falar porque seus gestos e olhares eram traduzidos perfeitamente", relata a cozinheira enquanto enrola folhas de parreira com uma destreza ímpar.
O êxito de seu acolhedor restaurante de comida árabe, considerado um dos melhores da capital, é uma mostra que o interesse pela cultura palestina ultrapassa à comunidade, pois são muitos os chilenos que se aproximam ao local a degustar os sabores e receitas de Oriente.
A língua se perde, a música perdura
Apesar desta bem-sucedida adaptação e integração, o processo de assimilação de elementos culturais da sociedade chilena também acarretou o consequente desaparecimento de alguns sinais próprios. Um dos mais evidentes foi a perda idiomática, pois calcula-se que apenas 2 mil membros da comunidade continuem dominando o árabe.
O desconhecimento da língua, no entanto, não impediu que alguns jovens de ascendência palestina tenham se sentido atraídos pela música árabe, o que lhes levou a criar grupos e orquestras de música tradicional para interpretar canções conhecidas de sua terra, cujas letras eles são incapazes de decifrar.
"Por mais estranho que pareça, os músicos chilenos que tocam e cantam canções palestinas não falam o árabe", diz à Efe o músico Kamal Cumsille, membro de uma orquestra especializada em canções tradicionais do Oriente Médio.
A fascinação de grupos como o de Cumsille por este tipo de música é produto da reprodução "natural" de gostos e sensações que se seguem transmitindo com força de pai para filho, e que continuam fazendo vibrar às gerações de chileno-palestinos nascidos no extremo oposto do planeta.
"O que se reproduz é um certo modo de ser e, portanto, como as sensações e o gosto pela música perduram, os músicos, apesar de não conhecerem a língua, são capazes de interioriza-la e interpretar", defende Cumsille, que afirma que não ter qualquer vontade política de reavivar as tradições.
"A música está viva e seguirá viva sempre", sentencia.
Embora muitos tenham perdido o idioma e boa parte de suas tradições, a distância entre ambos os povos e o tempo que passou não impediram que as raízes dos chilenos, que hoje em dia seguem se descrevendo como árabes, permaneçam latentes e solidamente ancoradas nos dois Estados.
Alguns dizem que atualmente em Beit Jala, Beit Sahour e Belém as pessoas têm mais conhecimentos sobre o Chile do que um chileno comum conhece de todo Oriente Médio. Outros contam que no Chile as conversas entre descendentes desses primeiros aventureiros estão cheias de gestos e reflexos dos distantes paisagens que um dia seus avôs deixaram para trás.
Palavras, olhares e pensamentos que encurtam a distância e lembram que, por mais que os anos passem, Chile e Palestina compartilham presente e tradição, alma e coração.
Época Negócios

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