BRASILEIROS COM CURSO SUPERIOR VIRAM PINTOR OU GARÇOM NOS EUA
Economia americana, mesmo que longe de números robustos, vive seus melhores momentos desde a crise de 2008
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Com o índice de desemprego voltando a
patamares elevados, brasileiros com nível superior também encontram
dificuldade para conseguir uma vaga - e agora estão mais dispostos a
sair do país em busca de oportunidades.
Os Estados Unidos aparecem como um destino atrativo, já que a economia
americana, mesmo que longe de números robustos, vive seus melhores
momentos desde a crise de 2008. Mesmo que o "sonho americano" na verdade
ofereça vagas como pintor, garçom ou mecânico, os salários mais
atrativos têm cativado os brasileiros.
Além de atrair brasileiros para trabalhos sem qualificação , os Estados
Unidos também viraram destino de um contingente maior de estudantes do
Brasil.
De um ano para cá, o número de estudantes brasileiros nos EUA cresceu
78,2% - a maior alta observada no relatório anual "Open Doors", do
Instituto de Educação Internacional.
Segundo o relatório, o programa federal Ciências sem Fronteiras foi um
dos principais motores para a ascensão do Brasil do 14.º para o 6.º
lugar no ranking de países que mais enviam estudantes. Segundo o
Itamaraty, dos brasileiros que vivem no exterior, entre 35% e 40% estão
nos EUA.
'Cinco anos de atraso'
O piloto comercial Wesley Morais não foi a Massachusetts no início do
ano para estudar Aeronáutica no renomado Massachusetts Institute of
Technology (MIT), mas para lavar pratos, pintar cercas e consertar
caminhões. Ele é um dos brasileiros que, a fim de escapar da crise,
abriram mão de suas profissões e de seu país em busca de emprego.
"Meus clientes não estavam tendo dinheiro para me pagar", conta o
piloto de 24 anos, que voava para um advogado. "Depois das eleições,
veio a devastação." Os pequenos empresários, afirma, logo cortaram
custos, e os voos minguaram. Assim que chegou aos EUA, Wesley, formado
pela PUC-GO havia um ano e meio, conseguiu um emprego na cozinha de um
restaurante, lavando louças: 30 dias por mês, 12 horas por dia.
Porém, o jovem de Minaçu (GO) ficou aliviado ao perceber que poderia se
manter em Boston e ainda pagar o que resta do financiamento de seu
curso superior, já que o bacharelado em Ciências Aeronáuticas foi 100%
bancado pelo Financiamento Estudantil (Fies). "Sem exigência de
qualificação, já estava ganhando praticamente o que eu ganhava aí no
Brasil formado", afirma Morais sobre o primeiro trabalho nos EUA.
Em cerca de seis meses, Wesley viu seu salário engordar bastante.
Agora, quase um ano depois, trabalha em uma oficina que personaliza
caminhões clássicos. Ele também encontra tempo para um curso técnico de
carpintaria. O piloto comercial, que envia dinheiro para a família todo
mês, almeja um emprego na construção civil. Sem folgas, não reclama de
cansaço: "São cinco anos de atraso", afirma, referindo-se ao período em
que ficou estudando e fazendo cursos. "Não dá para descansar, mas não
pode ficar parado. Ninguém espera por ninguém aqui."
'Meu sonho era ser juiz'
Luís Fernando Azevedo, de 25 anos, é um dos formados da turma de
Direito da PUC-GO do segundo semestre de 2014. Completou um ano de
graduado do seu "curso dos sonhos". Mas já desistiu de seguir carreira.
"Meu sonho mesmo era ser juiz, mas as coisas não fluíram para isso",
conta o advogado, que morava em Goiânia e chegou aos EUA em 12 de
agosto. Luís já conhecia o piloto Wesley Morais, que havia trocado Goiás
pelos EUA. E foi Wesley que foi dando informações a ele de como estava o
"sonho americano".
Seis meses depois de Wesley, Luís saiu de Goiânia e desembarcou em
Boston. "Ele me falou: aqui é tranquilo, tem trabalho, não precisa se
preocupar. O ruim é só a neve", lembra o advogado, que já trabalhou na
Procuradoria Geral do Estado de Goiás.Nos primeiros três meses, já mudou
de cidade três vezes - sempre no Estado de Massachusetts. Lavou pratos e
pintou casas, mas agora, no inverno, limpa colégios e entrega pizzas.
"O que eu ganho em uma semana aqui eu ganhava em um mês no Brasil",
afirma. "Pelas circunstâncias em que o Brasil está hoje, é impossível, é
fora de cogitação você continuar batendo na mesma tecla, tentando viver
em um país que não te faz crescer, que não te dá abertura. Depois desse
escarcéu de um ano para cá, o Brasil está ficando para trás".
Luís não faz ideia de quando voltará ao país. Enquanto isso, junta
dinheiro da limpeza de escolas e das entregas de pizza e manda parte dos
rendimentos para a família regularmente. Ele reconhece também as
dificuldades: conta que penou para receber salários de um patrão
brasileiro. Mas ele diz não se abalar. "Tem hora que bate um aperto de
lembrar que deixei tudo para trás e estou aqui hoje. Mas é impossível
voltar agora", conta o advogado.
'Não podia mais perder tempo'
Matheus Seicenti é formado em Ciências Aeronáuticas há três anos.
Trabalhou durante três meses. Cansado de esperar sua carreira decolar,
pegou um avião para os EUA no dia 6 de outubro.
Graduado pela Universidade de Uberaba (Uniube), o piloto comercial,
natural de Monções (SP), estava sem trabalho desde agosto. Na maior
parte do tempo, voava de graça para pegar horas de voo, principalmente
por São José do Rio Preto (SP), Goiânia (GO) e Palmas (TO). "Eu já tinha
cansado de esperar por um emprego que desse certo. E como vou fazer 26
anos em janeiro, vi que não podia perder mais tempo e que precisava
ganhar dinheiro logo", conta Matheus.
Nas eleições de 2014, o piloto trabalhou em Palmas para um deputado
federal - que saiu derrotado das urnas, vendeu o avião e ainda deve
salários a Matheus. Ele ainda voou para uma empresa de energia elétrica
em Macapá, mas os voos eram esporádicos. Matheus trabalhou somente com
avião monomotor, ganhando R$ 250 por hora de voo. Em bimotor, voou
somente para acumular horas. "Desde que me formei, me falavam assim: No
próximo ano, a aviação vai voltar a melhorar".
Quando chegou a Brighton, em Massachusetts, trabalhou pintando casas,
instalando revestimentos de madeira do lado de fora de residências e,
por causa do tempo frio, está empregado em um restaurante, preparando
hambúrgueres. Ele já ganha mais do que o dobro do salário no Brasil,
onde pilotos começam ganhando cerca de R$ 2 mil por mês.
O paulista pretende ficar nos Estados Unidos até a economia do Brasil
melhorar, ou até juntar uma boa quantia em dinheiro. "Previsão de anos,
de quanto tempo eu vou ficar, eu não tenho muito não. Vai depender",
conta.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo

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