Zé Dirceu critica política econômica de Dilma: “Vai na contramão do mundo”

Podem taxá-lo de mensaleiro, petralha e tudo mais, mas que o
ex-ministro José Dirceu entende de política e economia, isso ele
entende! Dirceu escreveu há poucos dias um artigo onde critica a
política econômica de austeridade implantada pela ala conservadora do
governo Dilma.
Confira:
Nosso ministro da Fazenda, Joaquim Levy, disse textualmente na cidade
de Nova York que estava encerrada no Brasil a fase de política
anticíclica. Falou exatamente no mesmo momento que o FED – Federal
Reserve System (o banco central dos Estados Unidos) deixa claro que não
subirá os juros para não prejudicar a recuperação da economia
norte-americana.
Seu anúncio solene, feito em NY, coincide com o momento, também, em
que a Europa inicia a operação-derrama pela qual vai despejar mais de 1
trilhão de euros nos mercados para evitar a deflação e revalorizar, de
novo, os ativos. E mais: nosso ministro anuncia essa política quando a
própria China reduz juros e compulsórios e o Japão persiste na política
de estímulos monetários de todo tipo para tirar o país da deflação.
Como vemos estamos na contramão do mundo desenvolvido e a mercê das
agências de risco – as mesmas que manipularam e fraudaram avaliações e
foram cúmplices do sistema bancário e financeiro dos EEUU na crise dos
derivativos, a partir de setembro de 2008, e que estende seus efeitos
sobre o mundo até hoje.
Ficamos a mercê das agências de risco
Não seria o caso de abrir um diálogo nacional sobre nossa crise e
sobre como sair dela? Por que apresentar como única saída a austeridade,
que não surtiu efeito em nenhum outro país – principalmente na Europa –
onde foi adotada? No nosso caso, não haveria outras saídas, com
reformas como a tributária? Não é o caso de se aproveitar a
desvalorização cambial para reformar toda nossa política de comércio
exterior fazendo avançar as exportações e a recuperação da indústria?
Adotando e seguindo essa rota, estaríamos minorando a recessão e
criando as condições para a volta do crescimento via retomada das
concessões na infraestrutura, priorização do nosso mercado interno e
investimentos em petróleo, gás e energia. O estabelecimento de um
diálogo nacional, dentre outros efeitos benéficos, colocaria em marcha
uma revolução científica, tecnológica e educacional.
Criaria, também, as condições para se fazer uma reforma do nosso
sistema bancário e financeiro, uma reforma capaz de enfrentar essa
esfinge dos juros altos reais; de um spread de 32%; de uma dívida
interna que custa 6% do PIB; além de estabelecer a forma para financiar
nosso desenvolvimento e definir o papel dos bancos públicos.
Vamos ficar paralisados quando outros governos desvalorizam suas moedas?
Na abertura do diálogo, no entendimento e na negociação, chegaremos à
fórmula para retomar o crescimento e avançar nas conquistas sem
retroceder no caminho da distribuição de renda e do Estado de bem estar
social.
Nunca é demais insistir na pergunta: vamos ficar paralisados frente a
ação dos governos desvalorizando suas moedas – como já o fazem a Europa
o Japão e o Canadá – ou seremos capazes de aproveitar a desvalorização
do real e sustentar uma política de exportações e de reorganização de
nossa indústria frente ao novo cenário internacional?
Nenhum comentário:
Postar um comentário