Seis cidades trocam de prefeitos na Paraíba
Cassações, impeachment, morte, renúncia e licença provocaram mudanças dos comandos das prefeituras.
Josusmar Barbosa
Pelo menos seis municípios da Paraíba estão
sendo administrados hoje por prefeitos que não foram escolhidos pela
população nas eleições de outubro de 2012. Cassações, impeachment,
morte, renúncia e licença provocaram mudanças dos comandos das
prefeituras, provocando insegurança jurídica, instabilidade e
descontinuidade na prestação de serviços à sociedade.
Para o juiz Aluizio Bezerra Filho, que coordena o mutirão da
improbidade administrativa no âmbito do Tribunal de Justiça do Estado
(TJPB), os princípios da legalidade e moralidade estão acima de qualquer
interesse, enquanto o historiador e professor da Universidade Federal
da Paraíba, Jaldes Menezes, ressalta que as alterações no Poder
Executivo municipal são prejudiciais, mas o maior problema das gestões é
a falta de técnicos capacitados e de políticas públicas permanentes.
Nos últimos quatro dias, dois novos prefeitos assumiram de forma
efetiva a chefia do Executivo. Na terça-feira, foi empossado Pedro da
Silva Neves na prefeitura de Caraúbas, no Cariri paraibano. Ele
substituiu o prefeito Severino Virgínio da Silva, que faleceu no
domingo.
Na sexta-feira, a Câmara Municipal de Santa Rita cassou o mandato do
prefeito da cidade, Reginaldo Pereira (PRP). Todos os 18 vereadores
presentes votaram pela impeachment.
Reginaldo é acusado de contratar 20 parentes, o que configura
nepotismo; de alugar imóveis de familiares para a prefeitura; e também
de contratação indevida de servidores. Ele foi afastado pela primeira
vez do cargo no dia 20 de março.
O afastamento seria por 90 dias, tempo considerado suficiente para que fossem apuradas as denúncias que pesam contra ele.
Durante o tempo de afastamento, ele conseguiu várias decisões judiciais
que o autorizavam a retornar ao cargo, mas essa situação acabou sendo
revertida pelo jurídico da Câmara. Na quarta-feira, dia 23, o Superior
Tribunal de Justiça (STJ) negou o pedido do prefeito para reassumir o
posto.
Com o afastamento definitivo de Reginaldo, foi efetivado na Chefia do
Executivo o vice-prefeito Severino Alves (PR), o Netinho, que já vinha
exercendo o cargo interinamente. O troca-troca provocou um clima de
instabilidade na cidade, prejudicando os serviços públicos.
CASSAÇÕES: SOLEDADE E BOA VENTURA
Em setembro de 2011, o então prefeito de Soledade, no Agreste, José
Ivanildo Barros , foi cassado. Com o afastamento, assumiu o vice José
Bento Leite. Em outubro de 2012, José Bento, na condição de prefeito,
concorreu à reeleição e ganhou o pleito, tendo como vice Fabiana
Barrosa. Eles iniciaram o novo mandato em janeiro de 2015. Seis meses
depois, foram cassados e o Tribunal Regional Eleitoral marcou novas
eleições para setembro do mesmo ano.
Durante quase quatro meses, a cidade foi administrada pelo presidente
da Câmara Municipal, Lourival Delfino (PTB). Abertas as urnas em
setembro, Flávio Aureliano foi eleito novo prefeito e Beto de Manoca,
vice. As sucessivas trocas de comandos acirraram os ânimos dos
correligionários da oposição de situação com manifestações em praças
públicas, interdição de ruas e paralisação de servidores.
Seis meses após a posse, o prefeito Flávio Aureliano disse que não
conseguiu ainda "arrumar totalmente a casa" e enfrenta problemas de
relacionamento com a Câmara Municipal, onde sua base é minoria.
BOA VENTURA
No Sertão, a população de Boa Ventura elegeu, em outubro de 2012,
Miguel Estanislau Filho para prefeito. A oposição entrou com uma ação
na Justiça Eleitoral, pedindo a impugnação do registro dele com base na
Lei Ficha Limpa. Estanislau teve o registro negado até no Tribunal
Superior Eleitoral e teve que deixar o cargo em outubro de 2013. Com a
cassação, assumiu a prefeitura a segunda coloca da, Maria Leonice Lopes
Vital, que promoveu uma reforma administrativa e nos projetos da
cidade.
No Litoral, o vice-prefeito Leto Viana assumiu a chefia do Executivo
em função da renúncia do prefeito Luceninha. Em Juazeirinho, Carleusa
Marques tirou uma licença de seis meses e o vice Jonilton Fernandes
assumiu.
MORALIDADE ESTÁ ACIMA DE GESTÃO
Ao falar sobre as mudanças nos comandos das prefeituras motivadas
por cassações de mandatos, o juiz Aluizio Bezerra Filho, que coordena o
mutirão da improbidade administrativa no âmbito do Judiciário
estadual, reconhece que existe a instabilidade jurídica e
administrativa, o que pode prejudicar de imediato problemas na
prestação de serviços à população. Todavia, o magistrado pondera que
não se pode abrir mão da legalidade e moralidade pública.
“A administração pública é regida pelos princípios da legalidade e
moralidade que estão acima de qualquer outro interesse. Vale ressaltar
que o interesse da administração é primar pela melhor aplicação dos
bons recursos públicos de forma que atenda ao interesse efetivo da
coletividade”, ressaltou Aluizio Bezerra.
O magistrado acrescentou que, quando há um desvio de conduta, “cabe
ao Judiciário usar dos mecanismos que dispõem provocado pelo Ministério
Público ou pelas entidades públicas no sentido de reprovar, reprimir
qualquer atitude que venha de encontro a estes princípios”.
Para Aluizio Bezerra, a Justiça deve ser implacável no combate à
corrupção. Na última sexta-feira, em Campina Grande, ele chegou a dizer
as prefeituras e as Câmaras Municipais, em sua grande maioria, são
condôminos de maus feitores.
"Se você verificar semanalmente as decisões do Tribunal de Contas do
Estado e da União, quantos recursos são desviados e da educação. Ai tem
um conluio das Câmara Municipais. Estas também têm gastos excessivos
com festas. Isso é improbidade, é uso do dinheiro público”, afirmou
Aluizio Bezerra, durante reunião com os juízes que integram a comissão
de improbidade administrativa
POLÍTICA PÚBLICA
Para o historiador e professor da UFPB, Jaldes Menezes, o problema
não reside apenas em "trocar" os prefeitos corruptos, embora seja
necessário.
"A mudança de prefeitos no meio da gestão causa transtornos e
instabilidade e um exemplo é Santa Rita. Entretanto, o que falta é um
corpo técnico na prefeitura capacitado para elaborar e implementar
políticas públicas de longo prazo", explicou Jaldes.
Na sua visão, se estas políticas públicas forem implementadas de
forma efetiva durante décadas, uma eventual troca de comando em um
município não provocaria uma grande descontinuidade administrativa.

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