EXCLUSIVO: Mulher de Eduardo Cunha pode ser presa a qualquer momento
Sem os privilégios de outrora, como
gastos de luxo no exterior, contas na Suíça e o foro privilegiado, o
ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), cassado pela esmagadora
maioria de seus pares, concentra agora suas preocupações em Curitiba.
Os principais inquéritos contra ele no Supremo Tribunal Federal (STF)
devem se juntar às investigações sobre sua mulher, Cláudia Cruz, e sua
filha mais velha, Danielle Dytz da Cunha Doctorovich, que já correm sob a
tutela do juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba.
Informações obtidas com exclusividade
por ISTOÉ sobre as investigações contra a família Cunha mostram que ele
tem motivos de sobra para perder o sono. Conforme apurou ISTOÉ, os
procuradores já estudam tomar novas medidas contra Cláudia Cruz. Em 26
de agosto, dias depois que a defesa de Cláudia solicitou acesso à
investigação criminal contra ela, a força-tarefa da Lava Jato em
Curitiba deu um despacho afirmando que estão em andamento diligências
investigativas sigilosas “que podem resultar na postulação de medidas
cautelares”. O ofício apavorou Cunha. A preocupação se justifica.
Cláudia, até então, havia sido alvo de diversas medidas cautelares, como
busca e apreensão, quebras de sigilo e até bloqueio de bens. Em tese,
restam poucas opções de medidas cautelares. Dentre elas a mais grave de
todas, a prisão. Daí o desespero do ex-presidente da Câmara. Outro temor
diz respeito à filha Danielle. Não por acaso, nos últimos dias, sua
defesa protocolou um pedido à força-tarefa da Lava Jato para que Cunha,
em depoimento, possa “prestar esclarecimentos acerca do modo como a vida
financeira da filha foi por ele administrada nos últimos anos”. Com
isso, os advogados buscam o arquivamento da investigação contra ela, sob
argumento de que tudo seria de responsabilidade do pai, apesar de ela
ter um cartão de crédito vinculado a uma das contas na Suíça.
A MORTE POLÍTICA
O peemedebista tem enfrentado uma quadra
amarga. Na Câmara, prevaleceu a máxima de que na política só se é
solidário na vitória. Em menos de dois anos, Eduardo Cunha despencou do
cargo de maior prestígio da Casa, para o qual fora eleito com
irrefutável maioria, para ser cassado na segunda-feira 12 com o voto de
450 deputados contra dez derradeiros aliados. Ao longo da noite que
culminou com a derrota do peemedebista, seu fiel escudeiro Carlos Marun
(PMDB-MS) repetia incansavelmente aos colegas: “Esta cassação
significará a morte política do Eduardo.” Nem o tom sentenciador de
Marun, nem as lágrimas de Cunha conseguiram reverter votos suficientes.
Apenas dez votaram contra a cassação:
além do próprio Marun, André Abdon (PP-AL), Carlos Andrade (PHS-RR),
Dâmina Pereira (PSL-MG), João Carlos Bacelar (PR-BA), Jozi Araújo
(PTN-AP), Júlia Marinho (PSC-PA), Marco Feliciano (PSC-SP), Paulinho da
Força (SDD-SP) e Wellington Roberto (PR-PB). Outros nove se abstiveram e
42 faltaram à sessão, dentre eles o relator do impeachment, Jovair
Arantes (PTB-GO), o líder do governo na Casa, André Moura (PSC-SE), Hugo
Motta (PMDB-PB), ex-presidente da CPI da Petrobras, e Fernando
Francischini (SDD-PR), delegado da PF e integrante de destaque da tropa
de choque do peemedebista. Como justificativa, ele afirmou que seu filho
estava com problemas de saúde.

Livre do deputado, a Casa respirava uma
mistura de alívio com ressaca no dia seguinte. A sequência de
pautas-bomba e a agenda conservadora liderada por Cunha para angariar
apoio entre a bancada evangélica e a bancada da bala, que incluiu, por
exemplo, o Estatuto da Família e a redução da maioridade penal, deve
agora ficar em segundo plano. Na avaliação de deputados da base e
oposicionistas, essa agenda dará lugar às reformas trabalhista e
previdenciária, bem como projetos voltados para o ajuste fiscal, como a
PEC que limita os gastos públicos e o projeto de lei que acaba com a
obrigatoriedade da Petrobras participar da partilha do pré-sal.
Cláudia Cruz já teve as contas bloqueadas e o passaporte apreendido, o que a impede de deixar o País
No Palácio do Planalto, a preocupação do
presidente Michel Temer agora é sobre como manter o controle do círculo
de influência de Cunha na Câmara, notadamente o chamado Centrão, uma
vez que o afastamento do deputado é definitivo e que as tensões com o
PSDB e o DEM têm se acirrado. Nos últimos dias, congressistas fizeram
chegar ao presidente o recado de que esperam uma liberação rápida de
emendas, além da nomeação de mais cargos em troca de apoio, antes mesmo
das eleições. Além disso, a própria base já sinalizou que dificilmente
será aprovado o prazo de 20 anos para congelamento dos gastos previsto
na PEC 241 e negocia uma emenda que reduziria o tempo para 7 anos. O
desafio será encontrar o equilíbrio entre as demandas urgentes do
empresariado e da sociedade e as reivindicações paroquiais dos
deputados.
Diário do País
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