Vício em jogos expõe dívidas, conflitos familiares e desafia saúde pública na Paraíba

Perdas financeiras, destruição de relações familiares e amizades, mentiras, endividamento, depressão, dificuldades em inserir-se no mercado de trabalho e ansiedade estão entre algumas das situações relacionadas a ludopatia (vício em jogos de azar), uma doença mental reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Ou seja, não é mais um simples entretenimento, mas um problema de saúde pública que provoca prejuízos a saúde e vida social devido a dependência.
“São perdas de confiança, segurança, além de bens materiais perdidos nas apostas. A família e as pessoas queridas se afastam porque a pessoa adoecida vai ficando mais ausente do convívio social e isso vai piorando cada vez mais o transtorno. Portanto, além do isolamento pessoal, existe também o isolamento social, que dificulta o diálogo, a vida cotidiana e a saúde mental”, explica a gerente de Saúde mental, Álcool e outras drogas da Prefeitura Municipal de João Pessoa, Alessandra Cruz.
Na maioria das vezes, o vício em jogo não é reconhecido pela pessoa, mas sim pela sua rede de apoio: familiares, amigos ou colegas. E essa dificuldade em se enxergar dependente é um dos fatores que mais dificultam o tratamento. Outro fator está ligado aos algoritmos das plataformas de jogos de azar online, desenvolvidos para viciar e gerar mais ansiedade a cada perda financeira, sem o jogador perceber.
“Muitas vezes a pessoa não enxerga que está doente, mas sim quem convive com ela. O vício no jogo é algo muito silencioso: geralmente, os jogos digitais estão presentes no computador, no celular e as pessoas nem se dão conta que já estão no processo de perdas financeiras”, completou a profissional.
O estigma e a vergonha também são barreiras para o tratamento, já que o prazer do jogo se tornou incontrolável e mesmo com as perdas econômicas, o jogador apenas procura ajuda médica para tratar outras questões, sem admitir que o problema real está na incapacidade de parar de jogar e na sua dependência tecnológica. Segundo a gerente, o vício está intrínseco em diferentes sintomas que apenas são percebidos nas consultas profissionais.
Ela lembra que o paciente com essa dependência não tem apenas dificuldade em controlar os seus impulsos, mas muitas vezes cria uma barreira para compreender o adoecimento, o que é agravado pelo preconceito ligado não apenas ao vício em jogos, mas comum na rotina de qualquer pessoa que sofre algum transtorno mental, em suas várias categorias. Por essas razões, geralmente não é o paciente que vai buscar o tratamento, mas o primeiro contato acontece através de familiares e amigos que indicam e às vezes até levam o apostador para uma avaliação pelo psicólogo.
“Qualquer situação do adoecimento mental se torna uma questão de saúde pública, mas entender o adoecimento não é fácil. Geralmente, as pessoas buscam ajuda por quadros de ansiedade, medo ou a família leva porque acha que o parente está com depressão. Durante o acompanhamento terapêutico, descobrimos que a ansiedade não é o fator principal, mas um sintoma, pois o que está por trás da ansiedade é o fato de não conseguir ficar longe da tela e das apostas”, ressalta.
Regulamentação
O crescente número de casos de dependência em jogos virtuais e apostas online (bets) no Brasil se tornou pauta política, pois hoje diversas iniciativas legislativas estão voltadas a debater sobre o fenômeno, além dos seus custos sociais e mentais. São projetos de lei (PLs) federais, estaduais e municipais que junto aos especialistas tentam combater o vício, regularizar a atividade e proteger seus jogadores.
Uma regulamentação já sancionada é a Lei 14.790/2023 que regula as apostas de quota fixa e determina que o Ministério da Fazenda exija medidas de “jogo responsável”. Mas, alguns projetos seguem em tramitação no Congresso Nacional, como o PL 2365/2025, apresentado pelo senador Hiran (PP-RR), que propõe destinar 1% da arrecadação de jogos de azar para ações de prevenção, controle e mitigação de danos sociais causados pelo vício. Outra proposta é o PL 2598/2022, que institui o dia 10 de outubro como o “Dia Nacional de Combate à Ludopatia”, focando em conscientização. Foi criada ainda na Câmara dos Deputados a Frente Parlamentar de Combate à Ludopatia reunindo parlamentares para debater o combate do vício em apostas e a proteção de crianças e adolescentes.
Entre as iniciativas paraibanas, destaca-se o Projeto de Lei 4583/24, de autoria do deputado federal Ruy Carneiro (Podemos), que propõe a criação do Programa Nacional de Assistência Integral às Pessoas com Ludopatia. A proposta visa combater o vício em apostas esportivas (bets) e jogos de azar, utilizando as estruturas do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Sistema Único de Assistência Social (Suas) para atendimento integral, acolhimento, prevenção, conscientização e apoio às famílias.
Entre os principais pontos do PL estão ações médicas, psicológicas, psiquiátricas, sociais e familiares para ludopatas, a utilização da rede pública para diagnóstico precoce e tratamento contínuo, além de campanhas educativas e capacitação de profissionais para identificar e lidar com a dependência bem como o acompanhamento voltado aos familiares das vítimas do vício. A proposta avançou na Câmara dos Deputados e teve seu parecer aprovado na Comissão de Saúde (CSAUDE) no início de março. Atualmente, aguarda designação de relator(a) na Comissão de Finanças e Tributação (CFT).
A responsabilidade dos influenciadores digitais na divulgação dessas plataformas também é uma das respostas do poder legislativo federal a esse problema de saúde pública, já que visa proibir a publicidade enganosa sobre ganhos fáceis e a remuneração variável baseada nas perdas dos apostadores.
Onde buscar ajuda
O tratamento do vício em jogo depende do nível em que a doença se encontra e da aceitação do apostador. Já existem opções gratuitas disponíveis através do Sistema Único de Saúde (SUS) como o aplicativo Meu SUS Digital, que desde o dia 3 de março, conta com ferramentas de autoteste e teleatendimento específico para vício em jogos dentro da plataforma. Para utilizar o serviço, é preciso baixar o aplicativo, que está disponível de forma gratuita nas lojas Android, IOS ou na versão web, fazer login com a conta gov.br, clicar em “Miniapps” na página inicial e selecionar a opção “Problemas com jogos de apostas?”
Na Paraíba, tanto o Governo do Estado como as Prefeituras municipais possuem instrumentos para esse cuidado. A Secretaria de Estado da Saúde (SES-PB), por exemplo conta com o Ambulatório Gutemberg Botelho que faz parte do Complexo Psiquiátrico Juliano Moreira, no bairro da Torre. O serviço oferece atendimento de psiquiatria, psicologia e serviço social. Caso seja detectado o transtorno de jogo, o paciente será encaminhado para o tratamento medicamentoso associado a psicoterapia.
Na Prefeitura de João Pessoa, por sua vez, a porta de entrada para as pessoas que apresentam vício em jogos são as Unidades da Saúde da Família (USFs) de referência, onde os psicólogos fazem o primeiro atendimento. A partir desse acolhimento inicial e conforme a avaliação da equipe, o paciente poder ser encaminhado para um dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou outro serviço da rede que disponha de atendimento especializado no cuidado em saúde mental, inclusive para casos relacionados a dependências e comportamentos compulsivos. Dependendo do caso, a pessoa pode ser direcionada para o tratamento nas policlínicas para consultas com psicólogo e se necessário, com o psiquiatra.
Segundo a gerente de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas, Alexandra Cruz, os CAPS são destinados as situações de urgência ligadas a essa dependência e são espaços que hoje lidam com uma grande quantidade de atendimentos por transtornos de ansiedade e depressão ligados a perdas de dinheiro em jogos. Estes centros oferecem atendimento gratuito e especializado em saúde mental, incluindo transtornos mentais graves e dependência de álcool e outras drogas. As unidades atendem por demanda espontânea ( do paciente ou da família) ou por encaminhamento de USF.
Outras opções são os grupos de apoio como os Jogadores Anônimos (JA) que realiza reuniões presenciais em João Pessoa, oferecendo suporte às pessoas que desejam parar com o jogo compulsivo. O espaço funciona na Rua Almeida Barreto, nº 222, Sala 23, no Centro da Capital. Outras informações podem ser adquiridas pelo contato (83) 98872-6572 ou através do site.
Existe ainda a possibilidade de acessar a plataforma de autoexclusão, sistema desenvolvido pelo Governo Federal que permite bloquear o acesso a todas as casas de apostas federais autorizadas por um período mínimo de um mês. A plataforma possui acesso a partir da conta Gov e pode ser acessada pelo site.
CAPS em João Pessoa
– CAPS Gutemberg Botelho (Transtornos Mentais): Av. Minas Gerais, 409 – Bairro dos Estados. Atendimento 24h.
– CAPS Caminhar (Transtornos Mentais e dependência): Rua Paulino dos Santos Coelho, Jardim Cidade Universitária. Funciona de segunda a sexta-feira das 8h às 17h.
– CAPS AD III David Capistrano (Álcool e Drogas): Rua Prof. Álvaro de Carvalho, 262 – Tambauzinho. Atendimento 24 horas, incluindo leitos de acolhimento noturno.
– CAPS Infantojuvenil Cirandar (crianças e adolescentes de 3 a 17 anos): Av. Gouvêia Nóbrega – Roger. Segunda a sexta-feira – 7h às 11h | 13h às 17h.
Blog JURU EM DESTAQU8E com Polêmica Paraíba - Por Juliana Cavalcanti









