José Dirceu divulga nova carta sobre a vida na cadeia. LEIA AQUI
Em nova carta, José Dirceu conta detalhes de como é a vida na cadeia: a monotonia, a comida, o banho de sol, o que é permitido e o que é proibido. O ex-ministro também discorre acerca do sistema penitenciário brasileiro
Vida de preso, por quem está preso
Por José Dirceu
Espelho é proibido.
Vidro também. Então, pegue um prato grande que reflita sua imagem – e
mantenha ele limpo sempre. Água mineral? Só com receita médica. A
solução é ferver a água ou tomá-la “in natura” da torneira. Eu nunca
tive problemas.
Saúde? É fácil cuidar.
Bebida, cigarro, gordura, ou é proibido ou não existe simplesmente.
Você pode pedir comida hipossódica e evitar excessos na sexta-feira,
quando as famílias de todos os presos podem trazer comida. Embora o peso
seja controlado. Nada que possa virar cachaça – a revista é rigorosa.
O preso deve fazer
exercícios todos os dias. No meu caso, 71 anos, é light. O importante é
manter os músculos lombares fortes. E as pernas. Flexão, abdominal,
pesos, caminhadas. No meu caso, pelo menos 20 minutos diários. É
importante tomar sol ou ingerir vitamina D – para mim, a recomendação é
de 20 minutos diários. O banho de sol é de cinco dias por semana, mas na
média são três por conta de chuva, normas de segurança, etc.
No mais, é ler,
estudar e escrever, um pouco de tudo. Aqui tem biblioteca – e é boa. Em
geral, literatura brasileira e mundial, auto-ajuda, espiritismo,
cristianismo, catolicismo, correntes evangélicas. Nossos clássicos – e
outros atuais — estão à disposição. Há cursos de alfabetização.
Na cadeia, você passa a
dar importância às pequenas coisas. À rotina. À limpeza coletiva em
sistema de rodízio. E, muito, à disciplina.
Preso primeiro chora,
depois chama a mãe e seus santos, e faz remissão. Cada três dias
trabalhados valem um dia de pena cumprida; cada livro lido e resenhado
vale mais quatro dias; cada 12 de estudo, um dia de remissão. Assim, em
12 meses, o preso pode remir seis meses, cinco em geral.
Fora a remissão, o
trabalho, a leitura, o estudo e a escrita transformam a prisão em vida
produtiva e criativa, além de passar o tempo de maneira útil e
agradável.
A luta do preso é para
viver na cadeia “uma vida normal”, de rotina, dormir sem indutor do
sono, as horas necessárias, trabalhar oito horas — e ter horas de lazer,
de convivência comum. Para os jogos – dominó e xadrez –, futebol,
exercícios e caminhadas, agregar “conversa fiada”, contar estórias,
falar da família, da vida, dos processos, dos amores proibidos, da
liberdade … dos filhos e esposas.
Preso tem que manter
cela, corredor e banheiros coletivos limpos, duas vezes por semana; tem
que lavar as cuecas (a roupa é lavada na lavanderia do presídio).
Preso pode receber
material de higiene pessoal e de limpeza – um Sedex com o básico de uma
cesta familiar, observando as questões de segurança. Tudo de que um
preso precisa para sobreviver. Os itens são básicos mesmo, nada de
supérfluos.
A comida é simples,
mas suficiente. No café da manhã, café com leite, pão e manteiga. No
almoço e na janta, feijão (pouco, ou porque azeda ou porque está caro),
muito arroz, carne e legumes. De carne, só frango – peito! – ou carne de
vaca moída ou em tiras. Ninguém pode dizer que a comida não é honesta.
Dá pra sobrevier – e bem. O problema é a mesma comida meses, anos…
Mas a comida que a
família traz, às sextas feiras, dia de visita, resolve a monotonia.
Todas as sextas feiras, das 13 e 30 às 16 horas, preso recebe visita da
família – duas pessoas. Na verdade, é o único momento em que o preso
sente a liberdade, o afeto, o amor e a esperança.
Quem manda?
Mandela dizia que a
pessoa mais importante na vida do preso é o carcereiro. Ele tinha toda a
razão. Manter uma relação respeitosa e civilizada com a direção do
presídio e com os agentes é questão básica, direitos e deveres, como
tudo na vida. No caso dos presos, direitos e deveres regulados pela Lei
de Execuções Penais e pela direção do presídio.
Presídio é, no Brasil,
por definição, um lugar de alta periculosidade e insalubridade, onde
falta tudo. Na verdade, não há recursos orçamentários para manutenção e
reforma, mesmo tendo mão de obra de graça, a dos presos. Os recursos não
dão para o custeio. E isso com educação e saúde sendo obrigações do
Estado.
A escola e o posto de
saúde são ligados à estrutura administrativa do estado na região – no
nosso caso, a escola é o “Faraco” e o centro médico, o CMP- Complexo
Médico Penal?
O mais grave problema,
inclusive aqui, no Paraná, mesmo no CMP – hoje um misto de “cadeião” e
hospital – é a falta de trabalho, de colônias agrícolas e industriais, e
de escolas. O trabalho e o estudo devem ser obrigatórios para o preso,
insumo básico para a ressocialização e a qualificação, além de suas
repercussões na remissão da pena.
Sem trabalho, sem
estudo, amontoados em celas superlotadas, os 650 mil presos do país são
presas fáceis para o crime organizado. Pior, vivem numa situação
degradante e violenta que os transformam em cidadãos violentos, quando
não em criminosos violentos.
Uma combinação mortal –
aumento das penas, crimes hediondos e criminalização do usuário de
droga – fez explodir a população carcerária em regime fechado. Com
progressão só com 25% da pena cumprida, e sem indulto.
O mais grave é a
incapacidade do Judiciário-MPF e dos juízes frente a um quadro de
injustiça e ilegalidade único – 40% dos presos são provisórios, não
julgados. A tudo isso, soma-se a superlotação e degradação dos
presídios. Fora a corrupção ou mesmo o controle dos presídios pelo crime
organizado.
Quem são os
responsáveis por esse estado de coisas? Os juízes das Varas de Execuções
Penal responsáveis pelas penitenciárias e os conselhos e secretários de
Segurança e/ou Justiça. Na realidade, agentes do Estado, omissos e
responsáveis pela situação que estamos vivendo.
Situações paliativas,
como recorrer aos famosos “mutirões” para tirar da cadeia os presos que
ali estão sem condenação em Segunda Instância, não resolvem. Só
postergam o problema. Também não é saída o recurso à reclusão de
segurança máxima, recomendada em casos determinados.
O que pode abre a luz
no fim do túnel é uma mudança radical da política penal e penitenciária.
Trabalho e estudo, qualificação do preso, separá-lo pelo tipo de crime e
pena. Mudar radicalmente o sistema pena: progressão da pena, penas
menores para crimes não violentos, semi-aberto domiciliar com controle
eletrônico, penas de multa e pecuniárias, trabalho comunitário, perda de
patrimônio e função pública.
O preso produtivo,
além de manutenção e reforma dos presídios, pode produzir móveis,
material esportivo, equipamentos em geral, roupas, trabalhar em obras,
infraestrutura pública etc. E os contratos, entre o Estado e empresas,
quando for o caso, podem ser administrados por entidades sem fins
lucrativos.
Decisão política
Falta vontade política e decisão de mudar radicalmente a política penal e penitenciária.
Quando você convive
com a dedicação dos professores, o profissionalismo dos agentes e
profissionais de saúde, em condições especiais da profissão (estamos
falando de uma cadeia); com presos que trabalham e estudam, no caso do
semi-aberto; a conclusão, simples, é que é, sim, possível mudar o
sistema. E reintegrar os presos.
O horizonte está no
aprisionamento com progressão da pena. Desde que cumpridas as exigências
da lei, o tempo de prisão e a remissão por trabalho-estudo.
FONTE: Pragmatismo Político
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