GENERAL JÁ ALERTA SOBRE POSSÍVEL INTERVENÇÃO MILITAR
“Se o clamor popular alcançar relevância, as Forças Armadas poderão ser chamadas a intervir, inclusive em defesa do Estado e das instituições. Elas serão a última trincheira defensiva desta temível e indesejável ‘ida para o brejo’. Não é apologia ou invencionice. Por isso, repito: alertar é preciso”, diz o general Rômulo Bini Pereira, em artigo publicado no Estado de S. Paulo
Por Rômulo Bini Pereira
A renomada escritora e jornalista Cora
Rónai, em lúcido artigo, fez um alerta: “(…) um país vai para o brejo
aos poucos construindo uma desgraça ponto por ponto (…)”. Felizes
palavras em face do momento crítico pelo qual passa a Nação brasileira.
Em cima de um conhecido ditado popular, ao citar o termo brejo, fez uma
sutil alusão a indicar para onde caminha o Brasil.
A inesperada e incorreta invasão
promovida recentemente na Câmara dos Deputados por um grupo de
manifestantes é uma dessas “desgraças”. Membros do governo, lideranças
políticas e a imprensa expressaram seu desacordo e sua indignação quanto
à invasão e enquadraram o grupo de manifestantes como representantes da
“direita” e, até para alguns, da “extrema direita”. Esse enquadramento
teve como origem a utilização de palavras de ordem que exigiam
intervenção militar. O ministro da Defesa declarou que os militares não
aprovaram o ato e permanecem em observância dos preceitos
constitucionais, atitude que as Forças Armadas vêm adotando desde 1985.
A invasão suscita, entretanto, algumas
considerações em razão do cenário político não só do País como do mundo.
Os adeptos da adoção de uma intervenção militar vêm crescendo
visivelmente. Não se tem conhecimento se são adeptos de uma ação
direta manu militari ou de um apoio total e participativo num novo
governo não eleito pelo voto popular. São cidadãos de meia-idade que
conviveram com o regime militar e consideram o período de proveito para a
sociedade brasileira. Por terem a mesma visão, a eles se juntam jovens
revoltados e sem esperanças de melhoras na crise que o País vive. Já não
se intimidam com o patrulhamento e com o “politicamente correto” tão
apregoado no Brasil. Alegam que as Forças Armadas cultuam princípios e
valores que não veem em outras instituições e que elas seriam a única
solução para a crise atual.
No cenário mundial, dois fatos políticos
recentes suscitam também observações válidas: as eleições presidenciais
nos Estados Unidos e o plebiscito que definiu a saída do Reino Unido da
União Europeia (Brexit). As análises feitas por institutos de pesquisa
mostram que a principal causa dos surpreendentes resultados é creditada
aos governos centrais e suas instituições, que se afastaram das opiniões
e dos interesses de suas respectivas populações. Acrescentam que houve
uma verdadeira desaprovação, por parte dos eleitores, dos defensores do
“politicamente correto”, isto é, votaram contra opiniões e pareceres dos
intelectuais, de segmentos do mundo artístico e cultural e, ainda, da
mídia em geral. Todos davam como certa a vitória das propostas
derrotadas. Uma discordância dos que se arvoram a ditar e impor
propostas e ações afastadas da realidade de seus povos.
Em 8 de novembro de 2015, este jornal
publicou artigo intitulado Alertar é preciso, no qual questionei se as
instituições maiores estavam consolidadas e funcionando corretamente.
Passado um ano, reafirmo o meu questionamento com uma agravante. O
segundo artigo da Constituição está em vigor ou é um princípio
fundamental inócuo?
No Legislativo, sabemos agora que a
Câmara dos Deputados não é um cartório, e sim que três centenas de
deputados fizeram “emendas à meia-noite” a desvirtuar as medidas
anticorrupção propostas pelo povo brasileiro. O presidente do Senado,
considerado réu pelo STF por acusação de peculato, confrontou e
desobedeceu a uma decisão monocrática de juiz da Suprema Corte, fato que
fere qualquer sistema dito democrático. E para agravamento do quadro
político, é grande o número de parlamentares envolvidos em processos
judiciais. Uma “desgraça” sem precedentes.
No Judiciário os brasileiros ainda
depositam esperança, graças ao corajoso desempenho dos juízes de
primeira instância. Nas instâncias superiores o quadro é diferente. O
esdrúxulo direito de foro privilegiado acarreta uma sobrecarga de
processos no STF, o que lhe dá uma pauta extensa e criticada e
indesejável morosidade. Com a transmissão de suas sessões pela TV,
constata-se que são graves as divergências pessoais entre alguns de seus
membros. E a presença da política partidária faz-se notar. A divulgação
de altos salários no Judiciário – ditos legais, mas imorais –, o
“fatiamento” de artigo da Constituição aprovado pelo ex-presidente da
Corte no processo de impeachment e o desgastante e inédito processo
envolvendo o presidente do Senado afetaram a imagem e a credibilidade da
instituição.
No Executivo, a situação econômica
indefinida, o possível envolvimento da equipe governamental em atos de
corrupção, o desgastante processo das tratativas parlamentares para a
aprovação de propostas úteis para o País e uma oposição agressiva são
aspectos que, gradativamente, fragilizam e deixam acuado o governo. Já
se fala em novas eleições e até mesmo em deposição. A atual oposição
esqueceu-se de que foi a única responsável pela calamidade que tomou
conta do País. Governou durante 13 anos, deixou-o na bancarrota e
instituiu uma imoralidade sistêmica. Está em pleno processo de
“vitimização” e já defende, histericamente, as manifestações radicais de
rua com ações e depredações. É o mesmo modus operandi de passado
recente.
É nesse cenário de “desgraças” que as
instituições maiores e seus integrantes deverão ter a noção, a
consciência e a sensibilidade de que o País poderá ingressar numa
situação de ingovernabilidade, que não atenderá mais aos anseios e às
expectativas da sociedade, tornando inexequível o regime democrático
vigente. O aludido brejo é significativo. É um caso, portanto, a se
pensar.
Desse modo, se o clamor popular alcançar
relevância, as Forças Armadas poderão ser chamadas a intervir,
inclusive em defesa do Estado e das instituições. Elas serão a última
trincheira defensiva desta temível e indesejável “ida para o brejo”. Não é
apologia ou invencionice. Por isso, repito: alertar é preciso.
*General de exército, foi chefe do Estado-Maior do Ministério da Defesa
Fonte: Jornal do País com www.brasil247.com

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