Paraibanas desconhecem direitos e sofrem com violência obstétrica
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| (Foto: reprodução) |
O
primeiro momento da mulher grávida é a descoberta, e ao passar dos
meses, as surpresas aumentam. O sexo do bebê, o primeiro chute, as
roupinhas compradas. No fim da gestação, as expectativas vão além de
conhecer o novo integrante da família. A hora do parto é decisiva, mas
nem sempre é valorizada. Uma em cada quatro brasileiras sofre violência
obstétrica.
Os dados são de um estudo feito pelo projeto ‘Nascer
no Brasil’. É considerada violência obstétrica toda e qualquer
intervenção desnecessária, não-autorizada ou violenta na hora do parto,
ou até durante a gestação. A violência pode ser dada em técnicas para
induzir o nascimento, xingamentos, negativa de atendimento.
J, de
22 anos só entendeu que havia sido vítima de violência obstétrica depois
de um tempo. Durante o parto, 16 estudantes de medicina entraram na
sala sem seu consentimento. A médica responsável sequer comunicou à
vítima. Constrangida, mas sentindo dores de contração, a paciente não
teve condições de protestar.
Enquanto sentia fortes cólicas, J.
também notou que a obstetra utilizava o cotovelo para pressionar sua
barriga e forçar a saída do bebê, enquanto atendia uma ligação no
celular. “Eu achava que era normal, achei até que ela estava tentando
ajudar no parto”, conta ao Portal MaisPB.
A única
coisa que a paciente pode perceber de imediatamente, foi que sua mãe,
que deveria ser sua acompanhante, não estava na sala. Ela foi expulsa
quando, sem saber que era proibido, atendeu uma ligação. Desacompanhada,
J teve de lidar sozinha com as dores, o constrangimento de ser
assistida por desconhecidos, e o descaso médico.
“Minha mãe ficou
chorando do lado de fora, dizendo que por conta de um celular não a
deixaram assistir o nascimento do neto”, lembra J. A auxiliar de
serviços gerais teve seu atendimento em uma unidade pública de saúde, em
João Pessoa.
Dois anos depois, o segundo filho nasceu, onde ela
define o parto como ‘tranquilo’. Agora, a auxiliar está à espera do
terceiro, e torce para que o nascimento deste seja uma experiência
agradável, diferente das lembranças do primeiro parto.
Doulas e parto humanizado
Diante
dos relatos de práticas abusivas, dados que asseguram esta realidade, o
parto humanizado tem recebido maior destaque. Este modelo de parto é,
na verdade, uma maneira de conduzir o nascimento do bebê. Nele, é
priorizada a vontade da mulher, e o respeito à sua saúde física e
emocional. Neste contexto, a doula tem um papel importante.
A
doula é uma pessoa treinada para prestar cuidados às mulheres no momento
do parto, mas também pode acontecer desde a descoberta da gravidez. Não
é necessário ter formação médica, e ela ajuda principalmente no apoio
emocional e afetivo da mulher.

Há casos onde a vontade da mãe não pode ser
feita, por situações extremas que podem comprometer a saúde da mulher e
da criança. Em todos os outros, o desejo e bem-estar da mulher, que já
se encontra vulnerável no momento do parto, deve ser levado em conta, e
priorizado. “Humanizar é respeitar”, diz a doula.
De acordo com a
promotora de Saúde do Ministério Público da Paraíba (MPPB), Jovana
Tabosa, existem pelo menos 15 irregularidades que podem ser consideradas
como violência obstétrica. Ações como proibir que a gestante tenha
acompanhante, tratar a mãe de forma agressiva, impedir a presença de
doulas no momento do parto são algumas das atitudes que caracterizam a
violência.
O abuso pode ser cometido por médicos, enfermeiros e
técnicos em enfermagem, anestesistas, e recepcionistas do Hospital.
Segundo Jovana, o MPPB é um dos órgãos em que a mulher pode fazer a
denúncia. Uma vez denunciado, o ato é investigado e o MP prossegue com
as medidas necessárias.
Caroline Queiroz – MaisPB

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