Quem seriam os 'presidenciáveis-relâmpago' para o caso de Michel Temer cair
A eleição indireta seria realizada no Congresso e o candidato eleito ficaria no cargo até o término do mandato do atual presidente, 31 de dezembro de 2018
| Presidente da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia é potencial presidenciável; contra ele, pesa seu alinhamento com Michel Temer - (Foto: Reprodução) |
Com a grave crise política deflagrada pela delação
premiada da JBS ameaçando a permanência do presidente Michel Temer no
poder, nos bastidores do mundo político e econômico já há forte
especulação - e articulação - para definir nomes para uma eventual
sucessão por eleição indireta.
Caso Temer venha a renunciar, sofrer impeachment ou ter a chapa de
2014 cassada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) - que julga a ação
no próximo dia 6 -, o caminho previsto pela Constituição Federal prevê a
realização de eleições indiretas dentro de 30 dias, a não ser que a
oposição consiga se mobilizar para aprovar a proposta de emenda
constitucional que permite convocar eleições diretas.
A eleição indireta seria realizada no Congresso e o candidato eleito
ficaria no cargo até o término do mandato do atual presidente, 31 de
dezembro de 2018.
Entre os nomes sendo aventados estão figuras que agradam ao mercado,
como o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles e o presidente da
Petrobras, Pedro Parente; ou que transitam bem entre os partidos, como o
ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), da Defesa e da Justiça
nos governos FHC, Lula e Dilma, Nelson Jobim.
Quem seria elegível ou não é outra questão, que dependerá das regras
definidas para uma eventual eleição indireta, que não tem seus termos
definidos por lei. Outra questão é se aceitariam ser considerados para o
cargo - o próprio Jobim, disse em um evento nesta semana que não
estaria interessado.
As regras de praxe para que um candidato seja elegível a presidente
incluem a necessidade de filiação partidária e o afastamento prévio de
cargos como o de magistrado, governador ou prefeito pelo menos seis
meses antes do pleito.
Tais regras podem ser flexibilizadas para se adaptar ao curto prazo
de uma eleição-relâmpago, diz José Guilherme Berman, professor de
direito da PUC-Rio e advogado do BMA.
"Há uma tremenda incerteza sobre quem poderia de fato concorrer e
sobre quais os requisitos para participar de uma eleição indireta",
considera. "O desafio será encontrar um nome que não desperte
controvérsia, que seja acima de qualquer suspeita, que pudesse guiar o
país até as eleições de 2018."
Para João Augusto de Castro Neves, diretor para América Latina do
Eurasia Group, um eventual candidato teria que apresentar credenciais
anticorrupção, por um lado, e estar comprometido "com alguma versão" das
reformas que vêm sendo propostas pelo governo Temer.
O difícil seria reunir os atributos desejáveis em uma só pessoa:
"Todo nome tem algum probleminha. Estamos numa situação de polarização
muito grande no Brasil. Não temos um unicórnio", diz, referindo-se à
criatura das fábulas.
Conheça os principais nomes que estão sendo aventados para uma eventual eleição-relâmpago no Congresso:
Rodrigo Maia

Rodrigo Maia é visto como uma solução interna da Câmara dos Deputados. Foi eleito para a presidência da Câmara com o afastamento e posterior prisão de Eduardo Cunha, e foi reeleito para um biênio completo em fevereiro deste ano, após forte campanha do governo Temer a seu favor. O deputado do DEM chegou ao cargo aos 46 anos, em seu quinto mandato na casa. Natural do Rio de Janeiro, é filho do ex-prefeito e atual vereador do Rio Cesar Maia.
Em uma eventual queda de Temer, pesariam contra Maia seu alinhamento
com Temer e, sobretudo, o fato de estar sendo investigado. Ele é alvo de
dois inquéritos da Lava Jato. No primeiro, é acusado de receber
propinas da Odebrecht para financiar campanhas do DEM; no segundo, é
acusado de receber propina para aprovar uma medida provisória para
desonerar a matéria-prima usada pela indústria química e beneficiar a
Braskem, controlada pela Odebrecht.
Maia é favorável à reforma previdenciária e comprometido com a agenda
econômica e de reformas do governo Temer. Já se declarou contrário à
legalização da maconha e ao casamento gay (embora não à união civil
entre pessoas de mesmo sexo). Maia é o primeiro na linha sucessória caso
Temer seja afastado, mas tem se mantido fiel ao presidente. Depende
dele aceitar ou não os pedidos de impeachment apresentados contra Temer;
nesta semana, já arquivou parte dos pedidos protocolados para impedir o
presidente.
Tasso Jereissati

Senador pelo Ceará, Tasso Jereissati, 68 anos, foi governador do Estado durante três mandatos e acaba de assumir interinamente a presidência do PSDB, após o afastamento do senador Aécio Neves, com as denúncias de recebimento de propina feitas por executivos da JBS. Natural de Fortaleza, Jereissati nasceu em uma família com tradição no ramo político e empresarial, filho do senador e industrial Carlos Jereissati.
Enveredou pelos negócios e tornou-se pioneiro no ramo de shopping
centers no Brasil, ao lado do irmão, Carlos Francisco Jereissati. Mais
tarde, mergulhou na política, e ao longo das últimas décadas concilia as
duas atividades - atuando como um "gestor no governo", segundo um
perfil da revista Forbes que descreve sua trajetória como "vitoriosa".
Alguns tucanos certamente gostariam de vê-lo eleito. Entretanto, um
figurão do mesmo PSDB que saiu derrotado em 2014, e que foi um dos
braços direitos durante a campanha do senador Aécio Neves, encontraria
forte resistência de partidos de esquerda.
Enquanto se espera uma decisão do PSDB sobre se retira ou não o apoio
ao combalido governo Temer, Jereissati mostra sua disposição em brigar
pela aprovação da reforma trabalhista.
"Nós não devemos deixar o país degringolar em função da crise do
governo", afirmou na segunda-feira. "Temos que ter responsabilidade com o
nosso trabalho no dia a dia para não parar o Brasil e dar sinalização
de que a anarquia está montada."
Henrique Meirelles

Henrique Meirelles foi presidente do Banco Central durante todo o governo Lula (2003-2010) e voltou ao governo no ano passado, apontado ministro da Fazenda do governo de Michel Temer. Seu nome seria bem visto pelo mercado, associado à manutenção da política econômica e à continuidade no rumo das reformas que vêm sendo realizadas pelo governo Temer. Meirelles também tem como trunfo um bom trânsito com o PT, o PMDB e o PSDB.
Mas Meirelles está estreitamente ligado ao mesmo grupo JBS cuja
delação agora ameaça derrubar Temer. Foi presidente do conselho de
administração da J&F entre 2012 e 2016, grupo controlador da JBS. Há
temores, ainda, de que possa vir a ser citado em eventuais delações
premiadas do deputado cassado Eduardo Cunha e do doleiro Lúcio Funaro -
cujo silêncio o executivo Joesley Batista indicou estar comprando na
conversa que gravou secretamente com o presidente Michel Temer.
E o fato de seu nome já ter sido cotado para presidência sugerem que
ele poderia querer buscar uma reeleição em 2018, não se contentando
apenas em fazer a transição até lá.
Nelson Jobim

Nelson Jobim é visto como um nome forte para uma eventual eleição indireta por ter boa aceitação entre PMDB, PSDB e PT, tendo sido deputado pelo PMDB e ministro dos governos FHC, Lula e Dilma. Natural de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, Jobim foi deputado da Assembleia Constituinte, atuando na elaboração da Constituição Federal de 1988.
Depois de ser ministro da Justiça de FHC, foi indicado pelo tucano ao
STF, onde atuou como ministro entre 1997 e 2006, e depois foi ministro
da Defesa (governos Lula e Dilma).
O traquejo ganho na atuação nos três poderes e o bom trânsito entre
partidos poderia dar a Jobim simpatia de parlamentares da direita e da
esquerda - e favorecer a potencial aceitação de seu nome para uma
"sucessão controlada" até 2018.
Contra Jobim, entretanto, pesa o fato de ter atuado na defesa de
acusados na Lava Jato e o fato de que uma das marcas da sua gestão, a
negociação da compra de submarinos da França, estar sendo investigada.
Além disso, Jobim é associado ao BTG Pactual, banco de investimentos que
foi alvo da Lava Jato - no ano passado, tornou-se sócio do banco e
membro de seu conselho de administração.
Pedro Parente

Atual presidente da Petrobras, Pedro Parente teve a imagem de bom gestor confirmada pelo desempenho desde que assumiu a empresa no fim de maio do ano passado. As ações da empresa subiram 60% no período, depois de terem despencado no auge da crise com as revelações da Lava Jato.
Ao longo da carreira, transitou entre o setor público e privado,
atuando tanto em empresas como no Banco do Brasil, no Banco Central e no
governo FHC, no qual foi ministro da Casa Civil e coordenou a equipe de
transição para o governo Lula.
É abertamente a favor das privatizações e à abertura do mercado
brasileiro à concorrência estrangeira. Seu nome seria bem aceito pelo
mercado e agradaria aos grupos que anseiam pela aprovação das reformas
que vêm sendo implementadas por Temer, mas causaria polêmica entre
grupos de esquerda.
Cármen Lúcia

A magistrada, natural de Montes Claros, Minas Gerais, tem 63 anos e assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal em 2016, atuando também como presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e professora e coordenadora do Núcleo de Direito Constitucional na PUC-MG.
Cármen Lúcia foi indicada ao STF pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, em 2006, ocupando a vaga do ex-ministro Nelson Jobim e
tornando-se a segunda mulher a integrar a corte. Foi a primeira mulher a
presidir o TSE, entre 2012 e 2013.
Magistrados não podem ter filiação partidária e só podem se
candidatar se se afastarem de suas funções seis meses antes. Ministros
do STF como Cármen Lúcia ou Gilmar Mendes só poderiam se candidatar se
essas regras fossem flexibilizadas.
Semana passada, Cármen Lúcia negou a repórteres os rumores de que
poderia assumir a presidência, afirmando pretender continuar cumprindo a
função de juíza "até o último dia". A seu favor, Cármen Lúcia tem a
trajetória respeitada e sem alinhamentos partidários. Já a postura de
linha dura contra a corrupção poderia ser vista com ressalvas por
integrantes do Congresso que estejam sendo investigados.
Gilmar Mendes

Natural de Diamantino, no Mato Grosso, o magistrado de 61 anos é presidente do TSE e ministro do STF - talvez o integrante mais controverso da corte. Depois de exercer uma série de cargos públicos, foi advogado-geral da União do governo de Fernando Henrique Cardoso - que o indicou ao STF em 2002. A indicação provocou polêmica pela ligação de Mendes ao PSDB. O alinhamento ideológico com a sigla e os inúmeros embates com os governos petistas consolidaram a imagem de uma postura partidária. Assim, seu nome dificilmente seria aceito pela oposição e pelo PT.
Jurista respeitado, é autor de livros de referência e um dos
fundadores do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), escola
privada que oferece cursos de graduação e pós-graduação em Brasília. Nos
meses recentes, Mendes causou polêmica por declarações relativizando o
pagamento de caixa 2 no financiamento de campanhas eleitorais e por
críticas à operação Lava Jato - o que pode lhe render simpatia de parte
do Congresso desejosa de salvar sua pele, e ao mesmo tempo antipatia de
grandes segmentos da sociedade.
Por BBC
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