Prefeito eleito mais jovem do País é de família que domina cidade com 20 anos
A
série de reportagens apresentando fenômenos eleitorais nas eleições
municipais deste ano na região Nordeste realizada pelo blog do Magno
Martins, de Pernambuco, em parceria com o Portal MaisPB, mostra,
nesta sexta-feira (23), Leonardo Caldas, de apenas 21 anos, 0 prefeito
eleito mais jovem do País, em Milagres do Maranhão, que tem apenas 20
anos de emancipação política.
Desde a sua criação, Milagres é
dominado pelo feudo político da família de Leonardo Caldas. Com nível
médio incompleto, sotaque arrastado e apaixonado por vaquejadas, Léo,
como é mais conhecido, é sobrinho do prefeito Augusto Caldas, que é
irmão do também ex-prefeito Miguel Caldas. Além de curral eleitoral dos
Caldas, a cidade tem a marca do nepotismo. A mãe de Léo, Arlene Caldas,
ocupa a Secretaria de Saúde há 12 anos e deve ser mantida no cargo
porque, como diz o próprio filho, “é poderosa”.
MILAGRES DO MARANHÃO (MA) – Localizado
a 360 km de São Luis, com IDH de 0,563, um dos mais baixos pela
classificação do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o
PNUD, o município de Milagres do Maranhão, que saiu do anonimato na
mídia nacional por ter elegido o prefeito mais jovem do País, tem apenas
20 anos de emancipado e é dominado desde a sua criação pelo feudo
político que emplacou nas urnas o jovem Leonardo Caldas, de apenas 21
anos.
Com nível médio incompleto, sotaque arrastado e apaixonado
por vaquejadas, Léo, como é mais conhecido, é sobrinho do prefeito
Augusto Caldas, que é irmão do também ex-prefeito Miguel Caldas. Além de
curral eleitoral dos Caldas, a cidade tem a marca do nepotismo. A mãe
de Léo, Arlene Caldas, ocupa a Secretaria de Saúde há 12 anos e deve ser
mantida no cargo porque, como diz o próprio filho, “é poderosa”.
Atual
primeira-dama do município, a secretária de Ação Social, Ana Rosa, é
cunhada de Arlene e provavelmente será mantida na função. Outra pasta
importante da gestão municipal, a Educação, é dirigida por outra tia do
prefeito eleito: Aline Caldas. ‘Fui eleito para dar continuidade ao
trabalho da família”, admite Léo, diplomado no último dia 14 ao lado da
namorada, estudante em Parnaíba, no Piauí.
Fundado em 1º de
novembro de 1996, o município não sabe o que é alternância de poder há
exatos 20 anos, sua idade. Filiada ao PCdoB, Claudete Rodrigues, que
polarizou a disputa com Leonardo, tenta tomar o poder dos Caldas há três
eleições seguidas. Nesta última eleição, perdeu por apenas 229 votos,
sinal de que a população deu sinais de cansaço com o poder nas mãos de
uma mesma família. “Eu queria ver minha terra um dia mudar de comando,
votei em Claudete apostando nisso”, diz o comerciante Francisco Raiol,
dono de um pequeno comércio de secos e molhados.
Não é somente ele
que anda de nariz empinado com a situação do município. Residente na
zona rural e beneficiária do programa Bolsa-Família, com rendimentos
mensais de apenas R$ 146, Maria Sebastiana Barros afirma que a cidade é
muito pobre, não tem emprego para os jovens e a família detentora do
poder exibe um belo contraste com a pobreza do município, andando em
carros luxuosos. “Só quem prospera aqui são eles. Os pobres aqui andam a
pé ou de bicicleta”, desabafa.
Claudete, que não estava na cidade
ontem, é professora, tem 43 anos, ensino superior completo e montou uma
coligação que tem tudo a ver com o desejo de mudança acalentado pela
população: União pela libertação, formada pelo PC do B, PDT, PSL, PT,
PP, PT do B e PPL. Obteve 2.218 votos, 47,56% dos votos válidos,
enquanto o prefeito eleito, com 52,44% dos votos válidos, alcançou a
marca de 2.446 votos. De tão pequeno, o município só tem 20 sessões
eleitorais, das quais 32 eleitores votaram em branco e 213 anularam os
seus votos.
Se não comemorou a vitória, Claudete teve a alegria de
sair da sua coligação o vereador mais votado do município, Bernardo
Pupa (PCdoB), com 332 votos. Diante de resultado tão apertado, o
prefeito eleito diz que a responsabilidade aumenta, porque, segundo ele,
a oposição será vigilante. Leonardo ainda reclama dos ataques que
sofreu na campanha. “Minha adversária me chamava de vaqueiro
despreparado e pedia para a população não votar no sobrinho cheirando a
leite”, recorda o prefeito eleito.
O novo prefeito de Milagres do
Maranhão nasceu no dia 5 de julho de 1995. Completou 21 anos faltando
dois meses para encerrar o prazo das convenções partidárias. Pela lei, a
idade mínima para disputar a Prefeitura é 21 anos. Apenas 25 dos 5.506
prefeitos eleitos são jovens, com até 25 anos de idade, segundo o
Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A maioria tem entre 46 e 65 anos –
3.063 eleitos.
Há ainda 2.057 que têm entre 26 e 45 anos. O número
de novos prefeitos que possuem mais de 65 anos é de 361. Leonardo
contou que de início pretendia ser candidato a vereador, mas não demorou
muito a mudar de ideia quando uma pesquisa apontou a preferência da
população pelo nome dele como candidato à Prefeitura. Na campanha,
adotou o slogan “Vote no Menino, que ele é 10”, numa referência ao
número do seu partido e ao mesmo tempo sugerindo ser preparado para o
cargo.
Sobre os desafios que têm pela frente, o republicano disse
que pretende investir em projetos de geração de emprego e renda para a
juventude e na melhoria da qualidade de vida das pessoas que moram na
zona rural do município. “Para dizer a verdade, eu sempre tive vontade
de ser candidato a vereador. Não pensava em ser prefeito assim tão
rápido. Desde pequeno acompanho meu tio José Augusto, que é o atual
prefeito, e sempre gostei do trabalho dele para ajudar as pessoas”,
afirmou.

Juventude nem sempre é renovação política
O
próprio prefeito eleito não esconde que o atual prefeito, o seu tio
Augusto Caldas, terá papel importante e destacado em sua gestão. “Ele é a
nossa principal liderança e não posso dispensar a sua experiência.
Tenho que aprender muito com ele”, afirmou. Leonardo contou que nunca
esperava ter sido escolhido candidato a prefeito e tomou um susto quando
foi informado pelo chefe que seria ele.
“Tio Augusto me chamou na
Prefeitura e disse que o candidato seria eu porque a pesquisa
indicava”, contou. Leonardo não é o primeiro nem será o último. Nas
eleições de 2012, o prefeito mais jovem saiu de Chaval, no Ceará. Paulo
Sérgio de Almeida Pacheco, também com 21 anos, é filho do ex-prefeito,
condenado a cinco anos de prisão sob acusação de desvio de verbas
públicas.
No caso de Milagres, o prefeito e tio do eleito não foi à
reeleição porque já está no segundo mandato, mas também é acusado de
irregularidades, entre elas licitações viciadas. Para recuperar
estradas, fez um contrato de R$ 1.471.911,17 com a empresa Cristal
Empreendimentos Ltda, que a oposição denunciou na campanha como um
grande escândalo. ‘“Fingindo obedecer a normas de licitação e as
tipologias dos projetos padrão, o prefeito agraciou a empresa Firma
Cristal com um montante exorbitante”, diz um vereador da oposição.
O
resultado das eleições municipais trouxe uma expressiva mudança no mapa
político do Maranhão. O governador Flavio Dino (PCdoB), que derrotou a
poderosa família Sarney, avalia que a mudança confirma o fim da
hegemonia da família e do grupo político do ex-presidente no Estado.
Para o governador, o grupo de partidos que faz oposição ao PMDB
maranhense conquistou a prefeitura de 150 dos 217 municípios do Estado
no primeiro turno.

MaisPB


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