Mulher acorda pensando que é '17 anos mais jovem'
Em um belo dia, há sete anos, a
britânica Naomi Jacobs, de 32 anos, acordou acreditando que tinha apenas
15. Na época, os médicos concluíram que ela estava sofrendo de um tipo
muito raro de amnésia causada por estresse, a amnésia global
transitória.
Essa amnésia foi provocada pelo “fechamento” de uma parte do cérebro
da britânica, fazendo com que ela perdesse, temporariamente, os últimos
17 anos de sua vida. Ela, que acabou se recuperando com o passar do
tempo, escreveu um livro sobre a experiência, Forgotten Girl (Mulher
esquecida, em tradução livre). Em entrevista à BBC, ela contou como foi
sua reação ao acordar com a memória de quando tinha 15 anos – e tendo de
lidar com a “nova” realidade de mãe solteira vivendo no “futuro”.
“Inicialmente, não reconheci o cômodo, o quarto onde eu tinha
acordado, a cama onde eu tinha acordado. Saltei da cama em choque”,
conta Naomi sobre o primeiro dia de sua amnésia.
Naomi lembra que sua voz também soava diferente, não soava como a voz de uma adolescente.
“Esta foi a primeira coisa [que notei]. Primeiramente soava estranho,
pois eu falava alto e minha voz estava mais grave e rouca. Pensei que
ainda estava sonhando quando vi meu rosto no espelho do banheiro.”
E este foi apenas o começo da manhã na qual ela acordou pensando que tinha 15 anos de idade.
“Minha última memória foi de pegar no sono no meu beliche, que
dividia com minha irmã, pensando nas provas de GCSE [primeira avaliação
importante realizada no ensino secundário britânico]”, afirmou.
‘Mamãe’
Mas os sustos continuariam. Um dos maiores foi quando um menino pequeno correu na direção de Naomi, dizendo: “Mamãe, mamãe”.
“Fiquei totalmente chocada. [Senti] Tudo: de medo a alegria, ver esta
criança que eu não lembrava ter dado à luz e saber que, sem dúvida, ele
era meu filho, pois se parecia muito comigo, até o terror de ter
responsabilidade por esta criança pequena.”
“Nas primeiras 24 horas eu estava completamente em choque, convencida
de que eu iria dormir naquela noite e acordar de volta em 1992, o que
estava acontecendo, para mim, não era real.”
Outro problema para Naomi era a tecnologia do século 21. Ela não se lembrava de smartphones, por exemplo.
“A última vez em que vi um telefone celular, era do tamanho de um
tijolo, aquela coisa grande e cinza com a antena preta. Então: telefones
celulares, televisões digitais pareciam saídas de um desenho animado,
meus olhos estavam acostumados com as [TVs] analógicas. Análise de
códigos [de mercadorias], câmeras de segurança… Tudo era tão alienígena
para mim!”
Parte da memória de Naomi dos últimos 17 anos tinha desaparecido. Mas
outra parte ainda funcionava. Por exemplo: ela conseguia dirigir e
ainda se lembrava de senhas de banco recentes.
“Foi muito bizarro ‘ter 15 anos’ e realmente saber como dirigir. Fiquei com muito medo, não queria estar atrás do volante.”
“Eu lembrava números de telefone. Também havia um número, quatro
dígitos, em minha mente, que eram os números [da senha] do meu cartão de
débito. Coisas que eram repetidas, memória automática, eu ainda
mantinha estas memórias.”
No entanto, Naomi perdeu a memória de “tudo o que tinha a ver com
eventos da minha vida, tudo o que tinha alguma conexão emocional, como o
nascimento do meu filho, mortes, casamentos…”.
Em 2008, na época do episódio da amnésia, a britânica estava
estudando psicologia. Mas sua perda foi tão profunda, que ela precisou
da ajuda da irmã e da melhor amiga para lidar com o celular e seu
e-mails.
Nova perspectiva
Os médicos afirmaram que, na maioria dos casos de amnésia parecidos
com os de Naomi, o paciente recupera as memórias poucas horas depois.
Mas a britânica precisou de meses para se recuperar.
Neste intervalo, os médicos recomendaram que ela não forçasse sua
memória ou mesmo lesse jornais, para evitar situações de estresse.
“Nos primeiros meses eu tentava desesperadamente entender minha vida.
Durante a noite que ficava acordada e chorava, desejando estar de volta
à escola, aos tempos em que minhas únicas preocupações eram os meninos
de que eu gostava ou ser flagrada bebendo no parque”, disse.
Com a ajuda da família, Naomi começou a se recuperar lentamente. Aos
poucos, ela voltou a sair de casa. Familiares e amigos lhe explicaram o
que aconteceu no mundo, como os ataques de 11 de setembro de 2001 ou as
mudanças políticas e sociais no Reino Unido.
“Facebook, Google e YouTube soavam como se fossem totalmente
inventados, e a primeira vez que vi meu filho, Leo, jogando com o XBox e
interagindo com a TV, fiquei tão chocada que até cuspi meu chá.”
Naomi mantinha diários e, lendo estas páginas ela começou a
reconstruir a própria personalidade, o relacionamento com o filho e até a
questionar algumas de suas decisões.
“Com o passar do tempo, flashes de memória voltaram – apenas por
alguns segundos, mas estavam lá. As memórias mais recentes voltaram
primeiro, então vieram as mais velhas, até minha memória completa
voltar.”
Apesar de todos os sustos e o choque de não reconhecer nem o próprio
filho, a britânica reconhece que teve uma chance incrível de ver o mundo
através dos olhos de uma adolescente.
“Viver tudo de novo através dos meus olhos de 15 anos me deu uma nova
perspectiva e me permitiu fazer mudanças, melhorar minha qualidade de
vida, para ter certeza de que isso não vai acontecer de novo.”
Uol
Nenhum comentário:
Postar um comentário