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Qualquer que seja a duração de seu mandato, de quatro ou oito anos, Ricardo Coutinho deixará o Palácio da Redenção com um recorde quase imbatível. Dificilmente alguém o superará nas seguidas tentativas de intimidação do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, da Imprensa, dos servidores públicos e de todos os que, de alguma forma, cruzarem seus caminhos.
A invasão do prédio da Ordem dos Advogados do Brasil, onde a Assembleia Legislativa realizaria audiência pública para debater as contas do Governo do Estado, foi apenas um capítulo a mais na sucessão de truculências contra todos os que não jurem vassalagem ao governador do Estado. Aos olhos de Ricardo Coutinho, a Assembleia cometeu a ousadia indefensável de querer discutir publicamente sua prestação de contas, mesmo que isso seja não apenas um direito mas até uma obrigação constitucional do Poder Legislativo. A orientação, então, foi acabar com a audiência.
Os métodos utilizados são tão reprováveis quanto a intolerância do governador, que está na base de tudo. Ele mobilizou uma claque formada por funcionários comissionados, alguns sem o cuidado sequer de tirar a farda de seus órgãos de origem, e pessoas trazidas em ônibus especiais de bairros distantes ou de cidades vizinhas. O que faria na audiência pública da Assembleia a diretora de Emergência do Hospital do Trauma, por exemplo? O que fariam comissionados de todos os níveis, numa ação tão afrontosa que o filho do próprio governador postou nas redes sociais sua contrariedade com os métodos do seu papai?
O próprio presidente do PSB municipal, de megafone em punho, comandava a claque do lado de fora do prédio, gritando ofensas aos deputados oposicionistas que chegavam. E no auditório da OAB, a ex-secretária de Comunicação Estelizabel Bezerra parecia chefe de torcida organizada, gritando palavras de ordens e incitando desavisados, como nos piores momentos dessas claques. O objetivo era um só: impedir que alguém falasse. Se falasse, não fosse ouvido. Se ouvido, não fosse entendido.
Não se sabe o que, afinal, foi mais deprimente. Se a invasão comandada pelo PSB ou a postura de deputados como Adriano Galdino que, já depois de suspensa a audiência, incitava a claque a invadir o prédio da própria Assembleia. Faz tempos o Legislativo paraibano não testemunhava agachamento tão constrangedor.
A inviabilização da audiência não respsonde responde a perguntas claramente postas e que nãop serão silenciadas. Por que o Governo não transferiu à UEPB R$ 42 milhões devidos em 2.011? Por que não aplicou em Educação o mínimo de 25% constitucionais? Por que o fechamento de quase 200 escolas? Por que a redução de mais de cem mil matrículas na rede estadual? Será que os paraibanos não merecem uma resposta sequer a tais perguntas? E os deputados não terão o direito de fazê-las?
O absurdo é a versão oficial, disfarçadamente plantada em alguns portais, de que a Assembleia havia despertado a militância girassol, até então desarticulada e desmobilizada. Que militância? Os invasores do edifício da OAB eram, na maioria, servidores públicos dispensados de suas repartições para fazer claque para o governador. Eram pessoas simples de municípios vizinhos “premiadas” com um passeio a João Pessoa. Sem o cargo e suas imensas possibilidades, Ricardo Coutinho continuaria brigando como sempre brigou, mas só. Sua ” militância” estaria em casa.
Depois da inevitável suspensão da audiência, o trabalho do governo continuou em outras frentes, na intimidação de jornalistas. A SECOM nunca trabalhou tanto, cortando notícias, escrevendo textos, “persuadindo”, ou intimidando, como quiser, radialistas e blogueiros a desconvidar deputados para falar sobre o assunto, pressionando-os a ouvir e ecoar apenas a versão governista. Se alguém mostrava resistência, era confrontado com o que tinha a receber e com o que podia faturar da publicidade institucional.
Dias antes, na mesma linha de intimidação, o próprio governador confrontava a decisão judicial que determianva a reabertura das delegacias de polícia, fechadas a partir das 18 horas. “Por que o juiz não manda abrir os fóruns à noite e nos fins de semana?”, provocou o governador. Em nota, a Associação dos Magistrados lembra que, no Estado de Direito, as decisões judiciais têm que ser cumpridas ou revogadas em instâncias superiores, mas jamais ironizadas. Num Estado em que o governador desconheceu uma liminar de ministro do próprio Supremo Tribunal Federal, que valor teria um despacho liminar de juiz de primeira instância?
Esses fatos somados ajudam a entender melhor a fala da ex-secretária Estelizabel Bezerra, convocando seus corrreligionários para o que ela chamava de defesa da “era nova” em implantação na Paraíba. O Brasil já viveu períodos muito sombrios de sua história, também distinguidos com esse mesmo adjetivo. Um dos mais aterradores foi o Estado Novo– a ditadura comandada por Getúlio Vargas.
Queira a ex-secretária ou não, há uma insuperável diferença entre o Estado Novo de Getúlio e a Era Nova que Ricardo Coutinho pretende implantar na Paraíba: mesmo comandante de uma ditadura escancarada, em comparação com o governador da Paraíba, Getúlio era um conciliador.
Por Fabiano Gomes