sexta-feira, 30 de maio de 2014

Cássio & Veneziano

Natural de João Pessoa, Luis Alberto Guedes é Bacharel em Jornalismo pela UFPB. Atualmente é acadêmico da faculdade de Direito é pós-graduado em Gestão Pública na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo. Aluno Marista por nove anos, conheceu política no Pio X, onde foi eleito por três vezes presidente do Grêmio Estudantil. É conhecedor de Marketing e Consultoria política. Passou pelo Jornal A União e pelo Portal PB Agora. Atualmente é editor do MaisPB e apresentador do programa ´Tribuna do Povo´, dá Rádio Sanhauá.

A chapa com Cássio e Veneziano



Em resposta a meus leitores e companheiros de debates, que há dias me questionam sobre as especulações de um pacto entre Cássio Cunha Lima e o PMDB de Veneziano, dedico essa minha análise de hoje.
Quando achava que a ideia absurda havia morrido e que as fofocas sem sentido haviam cessado, eis que sou procurado por um “admirador” (como simpaticamente se apresentou) buscando ter de mim uma opinião antecipada do assunto. Segundo o médico (muito conceituado no sociedade paraibana, inclusive), corre pelos restaurantes requintados da Capital o boato que está quase fechada a chapa encabeçada por Cássio, tendo com seu vice o prefeito Veneziano. Boquiaberto com tão criativo cenário, questionei-o se não havia algum equívoco em suas palavras e se a presença de Veneziano na chapa não seria ao menos como senador (já que tal absurdo havia escutado semanas antes). Sem pestanejar, sacramentou o doutor: “Ele será vice de Cássio, Luis. Em poucas semanas vai ser anunciado”.
Tentando livrá-lo dessa ‘certeza’ que o afasta da realidade (ou da lógica), questionei em quais fatos estaria ancorado para propagar tal delírio. Novamente sem titubeios, em cima da bucha, disparou: “Não soube do jantar entre Maranhão e Cássio?”. Antes de debulhar meu rosário de contra-argumentos, consegui fazê-lo engolir no seco: “Não lembra que Maranhão também rezou ao lado do caixão de Ronaldo Cunha Lima? Que mal haveria então encontrar Cássio para um bate papo cordial, principalmente em meio a uma nova disputa eleitoral?”. Diante do atônito amigo, aproveitei o silêncio que se seguiu para apresentar minha leitura do grotesco cenário por ele desenhado, sedento a por fim a essa tese de pacto entre dois tão ferrenhos rivais: o meninão e o cabeludo.
Já no início de minhas ponderações, destaquei que o atual clima da relação política de ambos não permitiria qualquer aproximação nesse sentido. Mesmo assim, caso insistisse em acontecer, não seria digerido de forma alguma pelo eleitorado, principalmente o de Campina Grande (tão apaixonado), que se sentiria traído por ambos. Lembrariam os campinenses o quanto se digladiaram pelos interesses de cada um deles, em uma disputa municipal que resultou tanto na vitória do cassista Romero Rodrigues, como na execração do cabeludo por parte dos tucanos, que o tatuaram a alcunha de “o homem do lixo”.
Contudo, se a ideia que fundamenta tal parceria (colocando para debaixo do tapete tanta rinha) seria o de unir a oposição contra Ricardo Coutinho (como, para destronar Zé, fez Cássio em 2010) em nada favoreceria a moral de Vené diante da opinião pública, tendo em vista que há semanas tenta imprimir nos eleitores paraibanos a certeza que apenas ele representa a oposição verdadeira. Unindo-se a Cássio, sabotaria seu maior argumento e a si mesmo, ao admitir (implicitamente) que o ex-governador Cunha Lima sempre esteve do lado oposicionista. A Paraíba engoliria de que forma uma contradição dessa do cabeludo?
Com cara de quem agora parecia confuso, meu leitor permaneceu calado, me dando chance de continuar minhas reflexões. Destaquei que mais um motivo impediria Veneziano fechar acordo com Cássio: sua lógica. Para Vené, nada está perdido. E por que se render a um adversário que ainda pode ser abatido? Há semanas (buscando driblar a imprensa do “a preço de hoje”) Vené tenta rememorar no eleitorado cenários vividos no passado, mas relegadas ao esquecimento. Lembra ele que, historicamente, chegam invariavelmente ao segundo turno dois grupos: o da situação (ou quem a ele está próximo ou comungou de sua gestão – segundo o cabeludo, seria Cássio esse personagem) e o da oposição, representada unicamente por ele. Daí sua certeza que estará no segundo turno. Reforça ainda sua crença a aposta em seu crescimento gradativo com o passar das semanas, já que, na sua leitura, seu discurso será mais fácil que o de Cássio para combater Ricardo ou mesmo pela apropriação da estigma do “o novo”, que o coloca em vantagem sobre os dois.
Nesse instante do papo, sou interrompido por meu atento leitor com o questionamento: “Mas Luís, e por qual motivo Cássio foi procurar o PMDB?”. A resposta veio rápida de minha parte. Expliquei que o tucano agiu como qualquer bom estrategista agiria: primeiro, podia sair do jantar mais do que satisfeito com a boa comida, mas com um acordo (mesmo ciente das chances remotas); segundo (e mais importante) para sabiamente desestabilizar o adversário que mais o ameaça no momento: o governador Ricardo Coutinho. Construir (mesmo que virtualmente) esse acordo com o PMDB prejudica frontalmente o projeto ricardista, pois cria uma impressão incontestável: “Estando juntos Veneziano, Maranhão e Cássio, Ricardo não vencerá nunca!”. E qual o resultado prático disso? A proliferação da incerteza de sucesso de Coutinho na mente das lideranças pelo Estado, que hesitariam em fechar com o ‘já derrotado’ (por antecipação) governador. Prova que a intenção seria essa – expliquei ao perspicaz doutor – foi a rápida reação da comunicação governista, que não demorou para emplacar a manchete: “Mais um prefeito do PMDB adere a Ricardo Coutinho”.
“Mas e qual foi a intenção de Maranhão com esse jantar, Luis, já que só favoreceria a Cássio?”. Muito simples. Maranhão, por outro lado, estaria quebrando a suposta estratégia cassista/ricardista, revelada por ele na semana anterior. Segundo o ex-governador Zé, as propagadas ‘troca de farpas’ dos ex-aliados seriam uma forma de polarizara a disputa entre eles, deixando Veneziano relegado ao esquecimento (o que enfraqueceria a empolgação de sua militância e de possíveis novos apoiadores). Sentar com Cássio inverteria o jogo, pondo novamente o projeto Veneziano em evidência diante do eleitorado, quebrando a hegemonia de apenas dois nomes na imprensa.
Antes de apresentar o maior dos argumentos contra a (insisto) grotesca tese, expliquei que a situação política em âmbito nacional também impede a comunhão entre Cássio e Vené, ou melhor dizendo, entre o PSDB e o PMDB. Agir assim seria encarado como uma violenta punhalada nas costas do aliado PT por parte dos peemedebistas, que há poucos dias recorreram à cúpula nacional trabalhista para que transformasse o favoritismo de Lucélio Cartaxo em presença efetiva como senador na chapa de Veneziano. Assim feito, qual sentido teria um membro importante do partido do vice-presidente Michel Temer; o irmão de Vitalzinho (peça fundamental no projeto petista no âmbito Federal) agora dar as costas a Dilma, deixando-a órfã de palanque na Paraíba? Pior: pedindo voto no palanque de quem quer eleger como presidente alguém que tiraria do próprio PMDB a vice-presidência da República?
Mesmo parecendo já ter convencido meu novo amigo, decidi ir até o fim com minha tese, tirando-o de uma vez dessa névoa que o cegava a razão. De início, lancei o questionamento: “Uma coisa é certa, amigo: um ou outro vai perder a eleição, ou mesmo os dois. Com a vitória de um, qual será o futuro do derrotado?”. Como a resposta dele não veio, decidi então responder por ele: “Cássio voltará ao Senado e Veneziano tentará arrancar das mãos de Romero (e dos Cunha Lima) a prefeitura de Campina”. Sendo assim, não te parece um suicídio político para Veneziano aceitar ser um coadjuvante do poder de Cássio, no mesmo instante em que perderá todo o discurso oposicionista quando focar suas forças na briga para voltar ao Paço Municipal campinense? O que dirá Veneziano aos eleitores da Rainha da Borborema em seu discurso ‘oposicionista’, depois de dar as mãos e dividir sorrisos com Cássio?
“Doutor, no máximo Cássio e Maranhão concordaram em deixar portas abertas para um novo diálogo quando chegar o segundo turno. Nem mais, nem menos”, confortei-o.
Em silêncio, mas agora com um sorriso no canto da boca, o médico se levanta, me estende a mão, aperta a minha com força e conclui: “Você está certo, meu caro, não passa de fofoca sem sentido. Só uma coisa tenho certeza agora: será a mais épica batalha eleitoral já vista nesta Paraíba”. Respondo o fim do agradável bate-papo com um sorriso, satisfeito pela “missão cumprida”.
Ele se despede, vira as costas e vai... Alguns passos depois, já distante, volta-se novamente pra mim e com quase um grito, não se contém: “Mas no segundo turno, Luis, será que Veneziano e Cássio se juntam?”.
Hehehehe... Essa minha Paraíba é mesma incansável. Eita povo inquieto! Deus preserve...  

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