Foto: Reprodução/Polêmica Paraíba
Foto: Reprodução/Polêmica Paraíba

Na política paraibana, alguns sobrenomes atravessam décadas e continuam presentes de uma geração para outra. Pais que abriram caminho na vida pública tiveram filhos que seguiram a mesma trajetória, enquanto irmãos, primos e outros parentes também passaram a ocupar espaços na política.

Esse movimento ajudou a construir a história política da Paraíba e fez com que determinados sobrenomes se tornassem conhecidos por diferentes gerações de eleitores. Em meio a mudanças de partidos, disputas eleitorais e novas lideranças, algumas famílias conseguiram manter influência e presença no cenário político estadual.

Entre os grupos familiares que fazem parte dessa trajetória estão os Cunha Lima, Ribeiro, Vital do Rêgo, Motta, Gadelha, Lucena e Bezerra.

A presença de famílias tradicionais na política não é um fenômeno recente. Para o historiador Vanderley de Brito, as raízes desse modelo estão ligadas à própria formação das estruturas de poder no início do século XX, quando lideranças locais exerciam forte influência sobre a população, principalmente em cidades do interior.

Naquele período, uma das práticas utilizadas para controlar o eleitorado era o chamado voto de cabresto. De acordo com Vanderley, pessoas que dependiam economicamente dos chamados “coronéis” poderiam ser pressionadas a votar nos candidatos apoiados por essas lideranças. “No começo, lá no início do século XX, as famílias poderosas tinham o chamado ‘voto de cabresto’”, explica o historiador.

Segundo ele, a influência política também era reproduzida dentro das próprias famílias, com lideranças locais mobilizando parentes e pessoas ligadas aos seus grupos para apoiar determinados candidatos. “Os patriarcas de cada família humilde fazia campanha no seu seio familiar, praticamente obrigando que seus filhos, genros e agregados a votarem no político para o qual ele tinha vínculo empregatício”, afirma.

Com o passar das décadas, as regras eleitorais e as relações sociais se modificaram. O modelo de controle do voto existente naquele período deixou de fazer parte da dinâmica eleitoral da mesma maneira. Para Vanderley, porém, a tradição política construída por essas antigas estruturas não desapareceu completamente.

“Hoje não existe mais o voto de cabresto como antigamente, a política mudou com os novos regimentos eleitorais, mas ficou a cultura impregnada no povo, que inconscientemente continua votando e apoiando as tradicionais famílias políticas”, avalia.

Essa permanência, na visão do historiador, ajuda a explicar por que determinados sobrenomes continuam sendo reconhecidos e associados ao poder político mesmo depois de várias gerações.

O peso de um sobrenome

Se no passado a influência das famílias estava relacionada a estruturas de poder locais, atualmente o sobrenome pode funcionar de outra maneira: como um patrimônio político construído ao longo de décadas.

Para o cientista político Ítalo Fittipaldi, essa característica não é exclusiva da Paraíba. Segundo ele, famílias que permanecem por gerações na política podem ser encontradas em diferentes estados brasileiros e também em outros países.

“Isso não é só uma característica da Paraíba. Na verdade, existem em outros lugares do mundo também; em outros estados aqui no Brasil também acontece isso: você ter verdadeiras dinastias políticas”, afirma.

Na avaliação do cientista político, a existência dessas famílias não representa, por si só, um problema. A principal questão está nos resultados que esses grupos conseguem entregar para as regiões onde concentram seus votos. “O fato de você ter dinastias políticas, por si só, não me parece ser um problema. O problema é qual é o retorno que essas dinastias políticas dão para os seus redutos eleitorais”, explica.

É nesse ponto que entra uma das principais vantagens apontadas por Ítalo para quem nasce em uma família com tradição política: o acesso a um capital eleitoral que já foi construído por gerações anteriores.

Um candidato que está entrando na política pela primeira vez precisa construir sua própria rede de apoiadores, tornar-se conhecido e conquistar a confiança dos eleitores. Já um herdeiro político pode começar esse processo tendo ao seu lado um sobrenome conhecido e uma base que já possui vínculos com a família.

“Os seus antepassados já chegaram ao poder, já se beneficiaram do fato de terem chegado ao poder, já têm um certo capital eleitoral, e agora estão transferindo esse capital eleitoral para os seus descendentes”, afirma Ítalo.

Essa transferência, segundo ele, coloca os chamados herdeiros políticos em uma posição de vantagem diante de quem começa uma trajetória eleitoral sem o respaldo de uma família tradicional.

Isso, porém, não significa que a eleição esteja garantida. Ítalo ressalta que o sobrenome pode favorecer um candidato, mas não substitui a necessidade de conquistar votos. “Isso não quer dizer que todos eles vão estar eleitos simplesmente por causa do sobrenome. (…) Mas que é uma vantagem, é uma vantagem”, pontua.

Herança não é garantia de voto

A força acumulada por essas famílias também interfere na discussão sobre renovação política. Para Ítalo Fittipaldi, a presença de várias gerações de um mesmo grupo em cargos públicos não pode ser confundida com estabilidade.

Segundo ele, a estabilidade política depende do funcionamento das instituições e do respeito às regras eleitorais, e não simplesmente da permanência de determinados sobrenomes no poder. “O que gera estabilidade na política não é a a descendência de um determinado político estar sendo eleito. Afinal de contas, não é monarquia. Então a estabilidade não é por aí”, afirma.

Na avaliação do cientista político, o eleitor é parte fundamental desse processo. A continuidade de uma família depende da capacidade de seus integrantes de manter a confiança conquistada ao longo do tempo.

Por isso, mesmo famílias com forte tradição podem perder espaço quando deixam de apresentar resultados considerados satisfatórios pelos eleitores. “Algumas dinastias começam a desaparecer ao longo do tempo, porque, de repente, não conseguem agregar um conjunto de políticas públicas que poderiam beneficiar o seu eleitorado”, explica.

Vanderley de Brito também considera que a permanência dessas famílias está relacionada à capacidade de manter redes de influência. Na avaliação dele, a ocupação de diferentes cargos públicos amplia o alcance dos grupos políticos e permite que suas bases eleitorais sejam preservadas.

A diferença é que, se antes essa influência estava diretamente associada às antigas relações de dependência entre chefes políticos e eleitores, hoje ela se manifesta por meio de estruturas partidárias, alianças, cargos, redes de apoio e pelo próprio reconhecimento que o sobrenome acumulou ao longo das décadas.

Quando uma família passa a fazer parte da política

A permanência de um sobrenome, portanto, não acontece apenas pela sucessão direta de pai para filho. Em alguns casos, diferentes parentes entram na disputa eleitoral; em outros, integrantes da mesma família ocupam cargos em municípios distintos ou estabelecem alianças com outros grupos políticos.

Para Vanderley, essa rede também pode ser fortalecida por relações entre famílias tradicionais. “Os casamentos de políticos com famílias de outros políticos legitimam ainda mais esse tradicionalismo familiar na política”, afirma.

O resultado é uma estrutura que pode atravessar diferentes períodos históricos, adaptar-se às mudanças eleitorais e continuar presente mesmo quando seus integrantes deixam determinados cargos ou enfrentam derrotas nas urnas.

Para Ítalo, no entanto, o sobrenome sozinho não explica a permanência de uma família. É preciso considerar a relação construída com o eleitorado e a capacidade de transformar o capital político herdado em resultados. “A grande questão é: o que é que essas dinastias políticas têm gerado de desenvolvimento para os seus redutos eleitorais?”, questiona.

Na Paraíba, essa história pode ser observada em diferentes sobrenomes e gerações. São trajetórias que começaram em momentos distintos, passaram por diferentes cargos e partidos e chegaram aos dias atuais com novos integrantes disputando espaço na política.

Veja abaixo os sobrenomes das famílias que fazem parte da política paraibana:

Família Cunha Lima

A trajetória da família Cunha Lima na política de Campina Grande se estende por diferentes gerações e inclui passagens pela prefeitura, pelo Governo da Paraíba, pelo Congresso Nacional e por outros cargos públicos.

O primeiro integrante da família a comandar a Prefeitura de Campina Grande foi Ronaldo Cunha Lima. Ele assumiu o cargo pela primeira vez em 1969 e voltou à gestão municipal em 1989, permanecendo por quatro anos. Ao longo da carreira, também foi governador da Paraíba, deputado federal e senador.

Anos depois, seu filho, Cássio Cunha Lima, deu continuidade à trajetória política da família. Ele foi prefeito de Campina Grande entre 1997 e 2002, quando deixou o cargo para disputar o Governo da Paraíba. Eleito naquele ano, Cássio passou a comandar o estado. Antes e depois disso, também exerceu mandatos como deputado federal e senador.

A presença do grupo político ligado aos Cunha Lima no Executivo de Campina Grande voltou a ocorrer em 2013, quando Romero Rodrigues assumiu a prefeitura. Ele foi reeleito em 2016 e permaneceu no cargo até 2020.

Naquele mesmo ano, Bruno Cunha Lima chegou à Prefeitura de Campina Grande. O resultado manteve o sobrenome Cunha Lima no comando do município e marcou a chegada de uma nova geração ao Executivo campinense. Bruno foi reeleito em 2024.

A influência política do grupo, no entanto, não se limita aos prefeitos. Pedro Cunha Lima, filho de Cássio, exerceu mandato de deputado federal pela Paraíba entre 2015 e 2023. Ronaldo Cunha Lima Filho, irmão de Cássio, também teve participação na vida pública e foi vice-prefeito de Campina Grande.

O sobrenome ainda aparece em uma geração mais recente com Diogo Cunha Lima, filho de Cássio, que disputa, em 2026, o cargo de vice-governador da Paraíba na chapa encabeçada por Cícero Lucena. Ronaldo Cunha Lima Neto também teve atuação na administração municipal de Campina Grande.

Blog JURU EM DESTAQUE com Polêmica Paraíba - Beatriz Paulino