RELIGIÃO: Grupo de bispos católicos lança carta contra ‘conservadorismo autoritário’ que ‘alimenta ódio’

Um grupo de bispos católicos decidiu denunciar o que classifica como “conservadorismo autoritário” dentro e fora da Igreja. Segundo os religiosos, discursos agressivos e superficiais nas redes sociais têm atacado fiéis que atuam em defesa dos pobres, da democracia e do meio ambiente.
O movimento, chamado Bispos do Diálogo pelo Reino, divulgou na última sexta-feira (21) uma carta na qual líderes de orientação progressista defendem uma atuação cristã voltada ao enfrentamento de “estruturas opressoras” e de problemas sociais e ambientais.
Dezenas de bispos assinam o documento, mas os nomes não foram divulgados. Um dos integrantes afirmou que a decisão de manter as assinaturas em conjunto busca proteger os religiosos diante do histórico de perseguições e ataques virtuais sofridos pelo grupo.
A carta também critica o uso das redes digitais para disseminar discursos de ódio, inclusive por canais ligados ao catolicismo. Os bispos afirmam estar preocupados com “mentalidades fechadas num conservadorismo autoritário” que, segundo eles, promovem “devocionismos, discursos superficiais e violentos” contra pessoas que testemunham a fé entre os pobres, defendem a democracia e atuam em pautas ambientais.
O documento cita ainda uma encíclica atribuída ao papa Leão 14, que alerta para os efeitos da digitalização acelerada, da inteligência artificial e da robótica. O texto também faz referência aos riscos da “idolatria do lucro” e de uma uniformidade que, na avaliação dos religiosos, pode apagar diferenças.
Entre as pautas defendidas pelos bispos estão o combate à mineração predatória, ao agronegócio considerado sem critérios e às violências contra mulheres, povos originários, afrodescendentes e a população LGBTQIAPN+.
Não é a primeira manifestação pública do grupo. Em 2022, durante a campanha presidencial, os Bispos do Diálogo pelo Reino também divulgaram uma carta sobre a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Na ocasião, afirmaram que não havia espaço para neutralidade diante da escolha entre dois projetos de país, que classificaram como democrático e autoritário.
Leia a íntegra da carta:
NÃO DEIXEMOS CAIR A PROFECIA
“Enviou-nos para evangelizar os pobres” (Lc 4,18)
Nós bispos, do diálogo pelo reino, iluminados pela palavra de Deus, atentos aos desafios da realidade atual e em comunhão com as recentes orientações do magistério da Igreja, vimos a público manifestar o que segue:
As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, para o sexênio de 2026 a 2032, aprovadas pelos bispos, na 62ª Assembleia Geral da CNBB, reafirmaram categoricamente que a missão da Igreja é evangelizar ela existe para isso! sabendo que evangelizar é tornar o reino de Deus presente no mundo. Nada se deve antepor a essa missão (n. 62). A evangelização parte do encontro pessoal com Cristo, passa pela vida de comunidade e amplia, necessariamente, o seu horizonte para a ação sociotransformadora da sociedade e da casa comum (n. 65).
O magistério recente, do papa Francisco e do papa Leão 14, nos convida a ser uma Igreja sinodal, a caminhar juntos no caminho do Reino, inaugurado por aquele que seguimos, Jesus Cristo. O seu reino é de justiça e paz, de fraternidade e inclusão, de perdão e vida nova, de misericórdia e salvação. Por isso, ser cristão é assumir as opções evangélicas em cada época de nossa história. Na presente época, defender os mais pobres e sofredores e cuidar da criação é missão central da espiritualidade para aqueles que vivem em Cristo, especialmente para nós, bispos.
Considerando o contexto da grave crise social e ecológica, iluminados pela palavra de Deus e pela Doutrina Social da Igreja, somos convocados a refletir, a agir e educar a sociedade para a defesa de uma civilização do bem viver. Alegramo-nos por tantas lideranças e Comunidades Eclesiais que anunciam o Evangelho da vida e denunciam estruturas opressoras, causadoras de feridas na terra e no coração da humanidade. Alegramo-nos também pelas inúmeras pastorais sociais, juntamente com vários movimentos populares pelo exemplo dado no enfrentamento da mineração predatória, do agronegócio sem critério, de situações diversas no mundo do trabalho, das violências contra: as mulheres, os povos originários, os afrodescendentes, a população LGBTQIAPN+, entre outros.
O Papa Leão 14, na carta encíclica Magnifica Humanitas, diz que em “cada época paira o risco de se construir um mundo desumano e mais injusto” (n.1). Segundo ele, “nos últimos anos, tornou-se cada vez mais evidente o quão rápida e profundamente a digitalização, a inteligência artificial (IA) e a robótica estão transformando o nosso mundo” (n.4). Ele pede que “evitemos a síndrome de Babel: a idolatria do lucro, que sacrifica os fracos; a uniformidade que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única mesmo digitaldedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o mistério da pessoa” (n.10).
Essa realidade, descrita pelo papa, encontra eco no coração de pessoas com mentalidades fechadas num conservadorismo autoritário que, lamentavelmente, através das redes e alguns dos meios de comunicação de inspiração católica, incluindo alguns membros dos ministérios ordenados, religiosos e leigos, promovem devocionismos, discursos superficiais e violentos contra pessoas que testemunham a fé no meio dos pobres, na defesa da democracia e das pautas ambientais. Elas são indiferentes e rejeitam as orientações do magistério da Igreja, alimentando bolhas alienadas e alienantes no ambiente socio-eclesial, se alimentam do ódio e alimentam o ódio contra aqueles e aquelas que têm uma vivência de Igreja comprometida com a transformação social e com o cuidado da criação, elas revelam uma agressividade que fere as pessoas, rompe a comunhão e enfraquece o profetismo eclesial.
Por isso, não são raros os ataques dirigidos a irmãos do episcopado, mas também a presbíteros, a diáconos, religiosas e religiosos, consagrados e a tantos outros cristãos leigos e leigas. Tentam desqualificar, silenciar, intimidar e mesmo calar a voz profética da Igreja.
Na mesma encíclica, o papa Leão 14 nos orienta acerca dos princípios da Doutrina Social da Igreja: o bem-comum, a destinação universal dos bens, s Subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social (nº 65-81). A Doutrina Social da Igreja tem seu fundamento na dignidade da pessoa humana, entendida como reflexo de cada ser criado à imagem e semelhança de Deus. Ela é ancorada na revelação divina (Sagradas Escrituras) e na grande tradição da Igreja orientando o agir cristão diante dos problemas da sociedade.
Em sintonia com a Mensagem ao Povo Brasileiro, aprovada e publicada durante a 62ª Assembleia Geral da CNBB, em 24 de abril de 2026, afirmamos:
Em tempo de eleições, tais situações tendem a aumentar. Sendo assim, renovamos nosso pacto pela vida, pela democracia, pela soberania e pela defesa da casa comum. O tempo atual exige de todos nós cristãos e da sociedade brasileira, muita coragem para gestar um projeto de país que não pactue com a grave injustiça social que sempre nos acompanhou.
Em tempo de eleições, reafirmamos que não temos partido, mas que estamos do lado dos pobres, de quem os respeita e defende; de quem defende a democracia e a soberania do país; de quem é contra qualquer postura fascista; de quem é contra a manipulação política da religião; de quem é contra a avalanche de mentiras e disseminação do ódio pelas avenidas digitais, Por isso incentivamos cada cidadão a fazer uma escolha consciente e lúcida de candidatas e candidatos comprometidos com as causas populares, com o bem comum e com a proteção de nossa casa comum. O Evangelho de Jesus Cristo não nos permite ter outra posição.
Que Maria, profetiza da libertação, continue entoando o seu Magnificat e nos ensine também a cantá-lo, não apenas com os lábios, mas com escolhas, atitudes e compromissos que façam florescer a justiça, a fraternidade e a esperança.
Bispos do Diálogo pelo Reino
Blog JURU EM DESTAQUE com Polêmica Paraíba - Gerlane Neto
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