Estados Unidos decidem na quarta-feira (15) sobre tarifaço ao Brasil; governo Lula aguarda 'dimensão da decisão' para calibrar reação
Governo brasileiro acredita que Estados Unidos vão confirmar novas tarifas, mas podem aumentar lista de exceções. Para negociadores do Brasil, adiamento é pouco provável, a menos que seja por motivação política.
Por Isabella Calzolari, G1 — Brasília
| Os presidentes Trump e Lula — Foto: Montagem com fotos da Bloomberg |
O governo brasileiro vai aguardar a dimensão da decisão dos Estados Unidos sobre aplicação de novas tarifas de 25% e 12,5% nas exportações de produtos brasileiros para calibrar a reação ao governo de Donald Trump.
Termina na quarta-feira (15) o prazo para a Casa Branca decidir se coloca em prática ou não a nova ofensiva contra o Brasil.
🔎Em 1º de junho, Trump propôs tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras, após uma investigação sobre diferentes temas, como desmatamento ilegal, pirataria e PIX.
🔎No dia seguinte, ele anunciou taxas adicionais de 12,5% para 60 países por falhas no combate ao trabalho forçado, incluindo o Brasil. Em ambos os casos, uma longa lista de exceções foi apresentada para evitar uma alta de preços no mercado americano.
| Lula na cúpula do G7 — Foto: Jornal Nacional/Reprodução |
A equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) trabalha como cenário mais provável a confirmação das novas tarifas.
No entanto, negociadores brasileiros avaliam que, neste cenário, existe a possibilidade de o Departamento de Estado norte-americano incluir um anexo modificado na decisão sobre os 25%, aumentando a lista de exceções ao tarifaço, por exemplo.
O governo brasileiro também aguarda ser chamado para uma última reunião virtual até quarta-feira (15) com Jamieson Greer. A expectativa é que haja uma prévia da decisão nessa reunião.
Os cenários foram discutidos com o presidente Lula em reunião na última sexta-feira (10) com os ministros Mauro Vieira e Márcio Elias Rosa, no Palácio do Planalto. Segundo relatos, Lula reafirmou aos seus auxiliares que o Brasil tem obrigação de manter a negociação até o último momento, mas seguirá na posição de entender que as tarifas não têm justificativa.
Reação do governo
Até mesmo empresas americanas que dependem de importações brasileiras passaram a pressionar Washington para retirar alguns produtos do Brasil da lista de sobretaxas.
O Ministério das Relações Exteriores mapeou 43 empresas e associações comerciais americanas que pedem que produtos brasileiros não sejam tarifados. Os pedidos foram apresentados sob o argumento de que não há substitutos produzidos no mercado doméstico para esses produtos.
Caso haja a confirmação da taxação, interlocutores do presidente Lula afirmam que a reação imediata do governo brasileiro deverá ser manifestar oficialmente "indignação" sobre a decisão da Casa Branca.
A declaração deve seguir a mesma linha de discursos públicos do petista e das respostas oficiais assinadas pelo Ministério das Relações Exteriores à investigação dos Estados Unidos — que, no caso dos 25%, afirmam que a taxação não se justifica porque "a estrutura tarifária aplicada pelo Brasil já é altamente favorável às exportações norte-americanas".
O governo brasileiro deve reforçar também o entendimento de classificar uma nova taxação ao país como "inaceitável".
As equipes técnicas e de alto nível do Brasil também devem se debruçar por alguns dias sobre a decisão para examinar a lista e avaliar os próximos passos — desde avaliar se há margem para tentar seguir nas negociações ou até a possibilidade de acionar a Lei de Reciprocidade.
🔎A Lei de Reciprocidade foi aprovada no Congresso Nacional em abril do ano passado e regulamentada pelo presidente Lula três meses depois, uma semana após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar tarifas de 50% sobre produtos brasileiros. A lei permite que o Estado possa retaliar países ou blocos que imponham barreiras contra o Brasil.
A diplomacia brasileira acredita que o presidente Lula não deve fazer nenhum movimento neste momento para tentar negociar diretamente com Donald Trump alguma outra saída.
Pedido de adiamento
O governo de Lula acredita ser pouco provável o adiamento do tarifaço ao Brasil. O entendimento entre interlocutores é que a política industrial americana é feita com base em tarifas e até agora os EUA não fizeram concessões a nenhum país.
Nas reuniões com os EUA, os norte-americanos sinalizaram também que o prazo para a conclusão da investigação em 15 de julho era “imexível”.
Caso os EUA mudem de ideia e decidam adiar, a avaliação é que a decisão deverá vir com uma justificativa — o que evitaria, inclusive, uma guerra de narrativas sobre o que levou à decisão.
O Brasil não chegou a pedir o adiamento da medida por entender que as tarifas não são justas, mas acredita que a prorrogação do prazo seria bem-vinda, ainda mais se motivada por questões econômicas ou pelo entendimento de que é necessário seguir com0 as negociações.
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| Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — Foto: Reprodução |
Flávio pediu pelo adiamento das tarifas
O pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro, tem defendido o adiamento da medida. No início do mês, ele enviou uma manifestação ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sugerindo que a decisão sobre as taxas ficasse para depois das eleições.
Em audiência pública nos Estados Unidos na semana passada, Flávio Bolsonaro reforçou o pedido e disse que este momento é o "pior possível" para novas tarifas e que elas beneficiariam Lula.
🔎 A participação nas audiências públicas promovidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) é aberta aos interessados que se inscreverem — foi assim que Flávio Bolsonaro ganhou o espaço para falar no evento. A atuação dele é independente e não tem relação com o Itamaraty.
Em caráter reservado, um auxiliar da diplomacia brasileira cita que a ala ideológica do governo norte-americano, formada por nomes como Marco Rubio, secretário de Estado, e Darren Beattie, assessor de Trump para políticas relacionadas ao Brasil, pode tentar interferir nas eleições do Brasil mesmo que custe a credibilidade do Departamento de Estado.
Um adiamento também pode vir como sinalização política para Flávio Bolsonaro, na busca de dar munição para o pré-candidato do PL usar em sua campanha.
Seria um gesto político do presidente Donald Trump a favor do senador do PL. Trump, que havia se aproximado de Lula, acabou fazendo acenos para Flávio Bolsonaro ao recebê-lo na Casa Branca em maio, dias depois de também receber Lula.
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Senador Flávio Bolsonaro em audiência dos EUA contra tarifas — Foto: Divulgação |
Um ano de tarifaço
Há um ano, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou uma carta endereçada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na qual anunciou que o governo americano iria impor uma tarifa adicional aos produtos brasileiros vendidos no mercado do país.
Na mesma carta, Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros exportados ao mercado americano. O documento marcou uma escalada nas tensões comerciais entre os dois países.
Um ano depois, o governo brasileiro tenta evitar que novas tarifas propostas pelos EUA entrem em vigor. Ao longo dos últimos 12 meses, algumas das tarifas foram revistas, outras mantidas e novas cobranças foram anunciadas pelo governo americano.
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| Trump manda carta a Lula e anuncia tarifa de 50% sobre produtos brasileiros — Foto: Reprodução |
Blog JURU EM DESTAQUE com G1
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