Campanha eleitoral no Nordeste acende alerta para o presidente Lula e o PT - Por Nonato Guedes

Uma reportagem na revista “Veja”, assinada por Pedro Jordão, radiografa os fatores que estão abalando a hegemonia do Partido dos Trabalhadores (PT) no Nordeste, podendo afetar o projeto de reeleição do presidente Lula e abrir espaço para outras siglas. Pesquisas recentes apontam provável guinada em direção à direita e ao centro político num eleitorado que representa 27% do total do país. Não há propriamente um enfraquecimento de Lula, que continua sendo um grande cabo eleitoral na região, sobretudo na captura de votos para si, não propriamente na transferência de votos para candidatos em disputas regionais. “Mas a fortaleza de outrora pode deixar de ser o local eleitoralmente seguro de outros anos”, resume a matéria da “Veja”.
A reportagem descreve que a partir da ascensão o pernambucano de Garanhuns Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República em 2003, o cenário político na região mudou. Até a virada dos anos 2000, o eleitorado nordestino era mais plural e repartia seus votos entre diferentes forças políticas. Com a chegada de Lula, a combinação de um ciclo de crescimento econômico com novos programas sociais como o Bolsa Família impactou a preferência política do nordestino e transformou a área em um bastião da esquerda – tanto Lula em 2022 quanto Fernando Haddad em 2018 venceram em seus nove Estados, com votações que superaram os 70%. Hoje, a retração em seu maior reduto eleitoral preocupa o PT. 0 partido conta com quatro governadores, todos eles na região: Jerônimo Rodrigues, na Bahia, Elmano de Freitas no Ceará, Rafael Fonteles no Piauí e Fátima Bezerra, no Rio Grande do Norte. Para as eleições de outubro, a sigla lançou nomes em cinco Estados, mas só lidera com Fonteles no Piauí e com Cadú Xavier no Rio Grande do Norte, onde a governadora Fátima Bezerra desistiu de concorrer à reeleição por divergências locais.
Na Bahia e no Ceará, os governadores terão dificuldades para renovar seus mandatos. E o PSB, aliado histórico do PT e também forte na região, que governa a Paraíba e o Maranhão, perderá espaços de poder. O candidato apoiado pelo ex-governador paraibano João Azevêdo, do PSB, é Lucas Ribeiro, do PP, que o sucedeu no cargo. Em todas as possibilidades de revés da esquerda, o nome a ocupar o espaço vem de siglas do Centrão (União Brasil e PP), o PSD e até do PSDB, que lidera em Alagoas, com o ex-prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, o JHC, e no Ceará, com o ex-governador Ciro Gomes. Entre os fatores associados ao provável refluxo da esquerda está a fadiga natural com os sucessivos governos desse campo. Na Bahia, por exemplo, o PT está no poder há vinte anos e quer o sexto mandato. O mau desempenho em áreas sensíveis, como segurança pública, tema central ao eleitor, também cria dificuldades ao petismo. Bahia e Ceará, há anos, estão no topo do ranking nacional das estatísticas de violência.
“Veja” revela que também tem sido decisivo o fato de os programas sociais não terem o mesmo impacto, o que foi admitido em entrevista pelo ex-governador do Ceará, Camilo Santana, um dos caciques petistas da região. O cientista Murilo Medeiros, da UnB, afirma que a emergência de uma nova classe média urbana alterou o comportamento eleitoral. “O povo é muito sensível à inflação, ao custo de vida, à mobilidade urbana, à sensação de segurança, e cobra resultados concretos, não apenas políticas distributivistas. O nordestino quer ir além do mínimo oferecido pelo Estado”. Esse avanço das forças mais à direita não ocorre graças ao enfraquecimento de Lula, que ainda tem prestígio no Nordeste, tanto assim que em vários Estados os candidatos mais competitivos procuram associar sua imagem ao petista. Para Priscila Lapa, cientista política da UFPE, apesar de haver polarização no âmbito nacional entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), o voto regional pragmático tem ganhado mais peso nos Estados porque há um descolamento do eleitor.
– Na cabeça do eleitor coerente, é possível ter um projeto nacional ao qual ele se filia e, ao mesmo tempo, outro projeto local, que ele entende ser melhor para a sua região – define Priscila. Um dos Estados que mais bem ilustram essa complexidade é Pernambuco, terra natal de Lula. Ex-prefeita de Caruaru, a governadora Raquel Lyra, do PSD, tirou o PSB do poder em 2022 com um discurso de neutralidade em relação à polarização nacional. Agora, ela tenta se valer da mesma estratégia para derrotar o ex-prefeito do Recife João Campos, herdeiro político dos ex-governadores Miguel Arraes e Eduardo Campos, seu bisavô e seu pai, que tenta levar o PSB de volta ao poder. Enquanto Campos se define como “soldado de Lula” e tem a vantagem de ter o PT em sua coligação, Raquel explora a boa relação com o presidente e as parcerias que firmou com o governo federal, mesmo que para “projetos de direita” como a privatização do metrô do Recife. A estratégia surte efeito e ela virou sobre o rival – 48% a 43% no primeiro turno. A retração da esquerda, conforme “Veja”, não traduz um avanço da direita bolsonarista. Mas a involução petista no Nordeste provoca uma reviravolta nos meios políticos regionais, com reflexos no plano nacional.
Blog JURU EM DESTAQUE com Polêmica Paraíba - Juliana Cavalcanti
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