26 ANOS DE BOLERO NO JACARÉ: como Jurandy do Sax transformou obra desprezada de Ravel em patrimônio imaterial da Paraíba

O clássico orquestral Bolero, do compositor e pianista francês Maurice Ravel, teve sua estreia na Ópera de Paris em 20 de novembro de 1928. Apesar de ser uma das obras mais famosas do artista, Ravel considerava a composição algo trivial, chegando a descrevê-la como “uma peça para orquestra sem música”.
Para José Jurandy Félix, ou Jurandy do Sax, como ficou conhecido, intérprete da obra há quase vinte e seis anos, a composição é o que de melhor lhe aconteceu e o que deu sentido à sua existência. Em 2025, a obra foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado da Paraíba. E quem ouve o músico tocar o clássico Bolero em um barquinho na praia do Jacaré, em Cabedelo, concorda que o espetáculo é uma experiência visual e sonora única e imperdível.
Jurandy, natural de Princesa Isabel, no sertão da Paraíba, relembrou, em entrevista à Folha de S.Paulo, em 2011, como começou sua história tocando a obra orquestral de Ravel.
Em 1993, o músico gravou um disco como saxofonista. O local escolhido para o lançamento foi um restaurante chamado Jacaré Bar, na praia de Cabedelo. Seis anos depois, em 1999, ao entardecer, o artista passou a retornar frequentemente ao restaurante para tocar a música no local. Até que, no ano seguinte, teve um vislumbre de si mesmo no píer, tocando em um barquinho, dentro do rio, e disse a si: “Vou tocar o ‘Bolero’ de Ravel dentro do rio”.
A partir desse dia, Jurandy passou a contar, de forma ritualística, todas as apresentações desde a primeira vez em que tocou naquele entardecer. Em 2026, em sua apresentação de número 9.491, até o momento desta matéria, o músico comentou, em um vídeo publicado nas redes sociais, a convicção de ter feito a escolha certa ao decidir entrar em um barquinho, com apenas um grande desejo e seu saxofone.
“Hoje é um daqueles dias em que você se pergunta: será que estou no lugar certo, fazendo o que devo fazer há tantos anos? Não tenho dúvidas. São mais de 26 anos. Hoje estarei fazendo a apresentação do Bolero de Ravel de número 9.491 e, até hoje, só sinto alegria, emoção, felicidade e a certeza de que estou fazendo o que vim fazer neste mundo”, declarou.
O pôr do sol e o bolero de Ravel na Paraíba
O tradicional pôr do sol na praia do Jacaré tornou-se um dos cartões-postais da Paraíba, estado onde o sol nasce primeiro nas Américas, e atrai multidões de todo o Brasil e do mundo para ouvir Jurandy interpretar o Bolero de Ravel às margens do Rio Paraíba.
A história do homem que toca todas as tardes na praia do Jacaré ajudou a impulsionar a economia local e a atrair a atenção da imprensa nacional. Hoje, quem visita a cidade encontra lojas, restaurantes, atrações musicais e artesanato que antecedem o grande espetáculo da tarde, considerado um dos produtos turísticos mais famosos da região.
Reconhecimento internacional e a emoção de Jurandy
Em 2005, a repercussão chegou ao governo francês, e Jurandy do Sax foi convidado a conhecer a terra de Maurice Ravel e as origens da composição que mudaria sua vida. Na ocasião, o músico teve a oportunidade de tocar o tradicional Bolero nas águas do rio Sena, na Torre Eiffel e no túmulo de Ravel. Ele destaca que foi “uma das maiores emoções” que já sentiu.
José Jurandy Félix começou a tocar aos oito anos de idade, na cidade de Livramento, no sertão do Cariri paraibano, para onde se mudou aos cinco anos. Iniciou sua trajetória no clarinete, em uma banda local; na adolescência, passou a integrar bandas de baile. Após deixar o município e se mudar para João Pessoa, conheceu o saxofone e a música instrumental.
O talento e a dedicação de Jurandy do Sax colocaram a Paraíba em destaque nacional como símbolo cultural e econômico das riquezas que o estado é capaz de oferecer a todos que o visitam.
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