domingo, 21 de abril de 2024

Rota do algodão colorido orgânico na Paraíba

ALGODÃO COLORIDO: 24 anos tecendo história, impulsionando empreendedorismo, moda sustentável e transformação social

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Um produto leve, bonito e fofo. Os campos floridos retratam toda uma riqueza que enchem de alegria o coração do produtor. A colheita é sempre abundante e chama a atenção da indústria da moda, impulsionada pelo adicional de maior sustentabilidade. O brilho dos raios solares em uma das regiões mais quentes e secas do Nordeste se reflete com as cores fortes e vibrantes que brotam do solo.

O algodão produzido com o emprego de tecnologia e manejo adequado surge da terra com fibras cada vez mais resistentes para atender a demanda do mercado. A pluma resultante do processo de beneficiamento apresenta alto valor de comercialização. O algodão que já foi considerado como novo ouro branco da região, e que impulsionou toda uma cadeia produtiva, antes de ser dizimado pelo bicudo, já nasce colorido.

Ecologicamente correto e pronto para se transformar em pluma, a principal matéria usada para produzir vestuários e acessórios do mundo da moda ganha destaque nas passarelas e vitrines de renomadas grifes do Brasil e do exterior.

Com forte apelo ecológico, a variedade de algodão colorido desenvolvida há 24 anos pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) tem atraído os olhares dos empreendedores e artesãos por suas vantagens do uso desse tipo de tecido, que não recebe qualquer corante, indicado até para as pessoas alérgicas às tintas aplicadas aos tecidos convencionais.

O portal PB Agora percorreu parte da rota do algodão colorido orgânico na Paraíba, e viu como a indústria da moda tem sido beneficiada com essa cultura que realiza sonhos, muda realidades e gera emprego e renda.

Na Paraíba, o algodão colorido virou patrimônio imaterial, e o seu cultivo tem contribuído para incentivar o surgimento de pequenos negócios e transformar realidades locais. As sementes lançadas do solo viram uma espécie de “joia” lapidada por diversas mãos, que movimenta toda uma engrenagem, eleva o Produto Interno Bruto (PIB) do Estado e faz a economia girar, favorecendo principalmente as comunidades rurais dos mais longínquos lugares.

Uma das percussoras do algodão no estado, a empresária Maysa Gadelha destacou que o produto tem características únicas que favorecem o setor têxtil e impulsiona toda uma cadeia produtiva. Ela acompanhou de perto toda a trajetória do produto no estado desde que a Embrapa fez o melhoramento genético da planta e desenvolveu a primeira cultivare.

“O algodão colorido é um nicho de mercado. E o Brasil foi muito bom para o plantio e uma identificação com o campo. O social e o ambiental no algodão orgânico andam juntos. É um produto de grande valor que tem mudado realidades e estimulado o surgimento de muitos negócios”, observou Maysa Gadelha, percussora do algodão colorido da Paraíba. 

Atualmente o estado tem pelo menos 38 empresas têxtil que trabalham com o algodão colorido orgânico, boa parte delas criadas nos últimos cinco anos. São quatro empresas grandes, quatro médias, oito pequenas e vinte e duas micros empresas, conforme os dados da Federação da Indústria do Estado da Paraíba (FIEP) e da Relação Anual de Informações Sociais, do Ministério do Trabalho e Emprego. Os pequenos negócios dominam o setor e são eles os responsáveis pelas maiores mudanças no campo. Juntas elas empregam mais de 5 mil pessoas e uma infinidade de oportunidades no interior e nos mais longínquos locais do estado. 

De olho nas mudanças de atitude no consumo do mercado da moda sustentável, essas empresas ficam localizadas em Itaporanga, São Bento, Campina Grande e João Pessoa. Um trabalho sustentável com alfaiataria de luxo que supera outros setores e coloca a Paraíba numa posição de destaque em relação a outros estados.

Com certificação de produto orgânico aceito em mais de 80 países, o algodão colorido da Paraíba alavanca a economia e movimenta toda uma cadeia produtiva, tendo se tornado fonte de renda para produtores, agricultores, mulheres rendeiras, empreendedores, estilistas, desenhistas, comerciários e outros profissionais. 

“Antes de conhecer o algodão, a vida na comunidade era bem diferente. A gente mal conseguia produzir o sustento. O algodão surgiu como uma fonte de renda para a gente ganhar um dinheirinho. Sem contar que atraiu as empresas que passaram a acreditar em nosso trabalho. Hoje todos na comunidade vivem felizes e têm uma fonte de renda certa”, garantiu com largo sorriso no rosto e um ar de esperança, o agricultor Everaldo Inácio de Lima, 69 anos, um dos produtores de algodão de Ingá, no agreste do Estado.

O produto alcançou o status de peças de luxo em feiras internacionais e se tornou uma espécie de mola propulsora do desenvolvimento regional. As coleções Made in Paraíba são exportadas para a França, Itália, Espanha, Alemanha, Japão, Estados Unidos e outros países e exibidas em desfiles de marcas conceituadas do mundo da moda. 

A retomada do algodão como produção industrial se deu graças a empresas como a Natural Cotton Color e Santa Luzia Rede Decorações que tem puxado a onda do desenvolvimento e movimentando toda uma cadeia produtiva. A Natural Cotton Color, criada em 1995 pela empresária Francisca Gomes Vieira, trabalha desde 2004 exclusivamente com o algodão naturalmente colorido 100% orgânico certificado pela Ecocert. A empresa nasceu pequena, mas graças a força do algodão agroecológico se transformou em uma “gigante” do setor. 

O portal PB Agora conversou com a empresária Francisca Gomes Vieira, que deu detalhes do empreendimento e como o algodão foi essencial para a expansão da empresa e disseminação da moda sustentável. Ela contou que quando ainda era MEI – Micro Empreendedor Individual – , chegou a plantar o produto numa área contratada de cerca de 40 hectares, nos municípios de Juarez Távora e Salgado de São Félix, e na Associação dos Produtores do Assentamento Queimadas, no município de Remígio. A desconfiança com o negócio era visível, mas a decisão foi o primeiro passo para mudar a mentalidade dos produtores e atrair outros investidores.

Atualmente a empresa compra algodão cultivado em mais de 15 municípios, via Associação Brasileira da Indústria da Moda Sustentável, direto dos produtores que se organizam em cooperativas, principalmente do Ingá, do Salgado de São Félix e do Assentamento Margarida Alves na cidade de Juarez Távora. 

A empresa tem como base a produção de vestuário e acessórios com o algodão colorido orgânico com inserção do artesanato local em tons marrom e bege, sem uso de aditivos ou corantes. Emprega diretamente mais de 200 pessoas. Sem contar uma infinidade de gente que lucra com o cultivo do produto.

“A Natural Cotton Color trabalha é uma empresa praticamente toda terceirizada. Hoje trabalhamos com mais de 200 pessoas. Só de agricultores na cidade do Ingá, são 90. Tem ainda 40 rendeiras no assentamento e 20 crocheiras em outras” relatou Francisca.

Sertaneja da cidade de Itaporanga-PB, filha de plantador de algodão, a psicóloga Industrial com pós-graduação em Engenharia de Produção, Francisca Gomes Vieira explicou que o cultivo do algodão colorido orgânico é feito por contrato de compra garantida para que seja economicamente viável para o agricultor.

“Pagamos o melhor preço do país por um quilo de pluma”, relata ela.

Na composição das peças criadas pela Natural Cotton Color, as rendas, bordados e crochê, entre outras técnicas artesanais, são tingidas com corantes vegetais extraídas da flora local como cajueiro, urucum, açafrão da terra, barbatimão, entre outras. Os detalhes manuais são realizados por mulheres na zona rural, também na região do semiárido, onde as oportunidades de trabalho são mínimas.

“A Natural Cotton Color fabrica toda a linha do vestuário feminino e há 3 anos lançamos coleções masculinas. Agora também fabricamos blusas, calças, saia, blazer e short do feminino. E do masculino, fabricamos meias, calças, camisas, terno, bermuda e outros assessórios”, contou.

Francisca ressaltou que a Natural Cotton Color se expandiu no mercado com o propósito de oferecer moda a partir de uma cadeia produtiva baseada no tripé da sustentabilidade ambiental, econômica e social. A abordagem é garantir um produto atemporal de design global, mas com a inserção do artesanato, para a preservação da cultura local.

“Essa cadeia produtiva só funciona porque sempre andamos juntos. No campo, o algodão é fruto do trabalho da agricultura familiar, incluindo comunidades quilombolas e assentamentos rurais. Todos têm contrato de compra garantida e recebem cerca de 10% a mais do que os produtores que plantam outras culturas”, explica.

Uma das marcas da Natural Coton Collor é valorizar os profissionais paraibanos. Toda mão de obra é oriunda do estado, desde as artesãs, costureiras, estilistas e desenhistas.

“Procuramos sempre valorizar os profissionais paraibanos. A gente só contrata pessoas de outros estados quando não tem aqui. Nós temos um time respeitado de estilistas, modelistas e diretores criativos. Além desse time que é responsável por fazer a parte criativa, a gente tem a parte mais importante que a questão da pilotagem da modelista que é a alma de uma coleção”, explicou. 

Nas passarelas de Milão

Na efervescente capital mundial da moda e do luxo, um toque de inovação e criatividade mostrou para o mundo a beleza e riqueza do algodão colorido da Paraíba. Desfilar em Milão, cidade italiana que é símbolo de luxo e vanguarda, pareceu um sonho. A Natural Cotton Color transpôs as fronteiras paraibanas e ousadamente colocou seus modelos e marcas nas passarelas de um dos desfiles mais concorridos do mundo.

A empresa que nasceu pequena e cresceu graças a produção do algodão colorido orgânico da Paraíba, expôs parte da coleção “Ipês do Brasil”, idealizada por Francisca Vieira, que também é estilista. O ensaio do desfile foi feito na cidade de Ingá, visto que todas as peças foram feitas com algodão cultivado por agricultores da região.

“Foi um sonho e mostrou como o nosso algodão colorido tem contribuído para mudar realidades e transformar vidas de pessoas simples. Levar a nossa marca para a Itália foi uma experiência gratificante e inesquecível que mostra que a moda paraibana, sustentável e em algodão orgânico colorido, é uma realidade. No passado ninguém acreditava. Hoje nós estamos em uma das principais passarelas do mundo que é a Semana de Moda de Milão. Isso faz com que a marca seja respeitada tanto fora quanto aqui no Brasil”, relatou orgulhosa a empreendedora.

Bons criadores, inovação, talento e boas parcerias. Francisca atribui a esse conjunto de fatores o êxito das empresas paraibanas que trabalham com a moda sustentável. Entre tantos parceiros que contribuem para alavancar o setor, a empresária destaca o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-PB), que segundo ela, tem sido um parceiro fundamental para o sucesso do algodão colorido no Estado e o surgimento de novos negócios. O órgão tem incentivado os produtores e empreendedores com consultorias, treinamentos e cursos.

“Parceria é fundamental em qualquer negócio. E o Sebrae tem realizado um grande papel em nosso estado” contou. 

Os fios de esperança que transformam sonhos

Os fios de esperança tecem história, mantém a tradição, geram negócios, transformam realidades e realizam sonhos. A exemplo da Natural Cotton Color, em torno da Santa Luzia Redes e Decoração, um mundo gira. Localizada em São Bento, no Sertão paraibano, a Santa Luzia Redes e Decoração cultiva desde 2006 o algodão colorido natural e orgânico certificado. A empresa nasceu pequena, mas desde que passou a usar o algodão colorido orgânico cresceu numa velocidade impressionante e se tornou uma das gigantes da Paraíba na indústria têxtil.

O diretor da Santa Luzia, Armando Dantas, garantiu ao portal PB Agora, que uma das decisões mais acertadas da empresa foi investir no cultivo do produto, visto que descobriu um horizonte de oportunidades que pode impactar positivamente na vida de muitos agricultores. A empresa segundo ele, sempre procurou aliar a sustentabilidade ambiental com inovação por meio de suas produções baseadas na reciclagem de fios e na cultura do algodão colorido. A matéria-prima alimenta a fábrica que produz artigos têxteis de decoração como redes de descanso, mantas, entre outros, para abastecer o mercado nacional e internacional. 

Hoje a empresa é fonte de renda e de sobrevivência diretamente para 120 colaboradores e mais de 600 indiretos que são os artesãos e produtores da agricultura familiar, com previsão de aumento neste ano devido à expansão do plantio do algodão.

Somente no ano passado o grupo Santa Luzia Redes e Decoração contratou a produção de cerca de 60 hectares com expectativa de chegar a 100 hectares na safra deste ano. No começo cultivou 20 hectares em sistema de agricultura familiar, em municípios no entorno da fábrica.

Com a demanda crescente, a empresa decidiu ampliar a produção em 300% para atender tecelagens do mercado interno e externo.

“Nosso interesse em aumentar a produção é comercializar a pluma de algodão e futuramente o fio de algodão por que a procura tem crescido e nós vimos uma oportunidade de oferecer a outras empresas do mercado interno e externo que desejem utilizar o algodão colorido na sua produção”, contou Armando Dantas.

Entre os fatores que levaram a esse aumento está a adesão da empresa a um acordo internacional para que seus produtos sejam de algodão 100% sustentável até 2025.

“O algodão colorido tem sido muito importante para nossa empresa. Nós hoje estamos presentes em 20 países. E isso tudo se deve ao algodão colorido orgânico. Apesar de o mercado ainda não querer pagar tanto, porque tem um valor diferenciado, mas a riqueza deste produto, é a inclusão social, a inovação e a sustentabilidade” destacou Armando Dantas.

A produção de algodão orgânico do grupo Santa Luzia se concentra nos municípios de Itabaiana, Brejo do Cruz, Belém do Brejo do Cruz, São Bento, Catolé do Rocha, e São José do Brejo do Cruz, cultivados em sua maioria por comunidades quilombolas, em sistema de agricultura familiar, com uma produtividade média de 1.200 quilos de algodão por hectare. Segundo o empresário, cerca de 180 pessoas estão envolvidas na produção. 

No ano passado o grupo resolveu ampliar os negócios, com o plantio do algodão em Itatuba no Agreste do Estado, beneficiando produtores atingidos com o rompimento da barragem de Camará. A ideia foi contribuir para reconstrução de histórias e vidas gerando esperança e perspectiva de dias melhores. O Projeto Agrovila Águas de Acauã estimula o cultivo de forma orgânica o que garante segurança alimentar e renda com a comercialização de parte da produção. 

O diretor executivo da empresa contou que a presença da empresa na vida dos agricultores reflete a interseção entre moda e decoração, especialmente no contexto do estilo de vida contemporâneo. Na passarela alguns itens como mantas de sofá serão ressignificados como xales para o corpo. 

“Hoje nós somos reconhecidos pelas grandes lojas do país. E estamos percebendo um interesse cada vez maior do mercado por esse produto, tanto o branco como o colorido que hoje faz sucesso em Milão com outras empresas paraibanas que trabalham com a moda. E nós graças a Deus conseguimos conquistar um lugar na decoração. Trata-se de um estilo de vida’, disse. 

A Santa Luzia Redes e Decoração exporta para cerca de 23 países de todos os continentes. De acordo com Armando Dantas, o Sebrae na Paraíba esteve presente na ajuda dessa evolução e até hoje proporciona esse relacionamento internacional com a participação em eventos pelo mundo todo. 

Armando Dantas enfatizou que a Santa Luzia tem tido toda uma preocupação em agregar valores e melhorar a vida dos produtores, gerando uma revolução no campo.

“O que vale nesse momento é a gente preparar esses produtores para ampliar a produção e exportamos o nosso algodão, porque se for em quantidade pequena essas grandes lojas nem conversa com a gente. Por isso precisamos ampliar o cultivo”, observou.

Este ano, o corte de terra já foi realizado. Os tratores rasgaram a terra no começo de abril e em breve, todo o campo estará devidamente semeado. A floração é sempre um espetáculo aguardado por todos.

“Esse algodão é muito importante porque ele gera renda; traz segurança alimentar e ajuda o homem do campo” , enfatizou o coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o produtor rural Osvaldo Bernardo de Sousa.

O algodão reconstruindo vidas

Vidas marcadas por uma tragédia. Sonhos interrompidos, mas reconstruídos. O algodão colorido se tornou a principal fonte para a reconstrução da vida de dezenas de famílias de Itatuba, impactadas pela barragem Argemiro de Figueiredo, conhecida como a Barragem de Acauã, que estourou em 1999 na cidade de Alagoa Nova e causou estragos e destruição.

O Projeto Agrovila Águas de Acauã, foi lançado no ano passado, e a primeira experiência de semeadura com essa cultura, surpreendeu. O projeto se tornou um marco para a Santa Luzia Redes e Decoração, visto que o resgate da cultura da plantação de algodão na região tem transformado a vida das famílias. Do corte da terra, ao plantio, até a colheita, os agricultores têm celebrado cada momento, que se tornou uma espécie de reparação histórica às famílias.

“Graças a Deus o projeto vem nos surpreendendo, na região do Curimataú. Muitos produtores da agricultura familiar aderiram ao nosso projeto. Para a safra 2024, já temos cadastrado mais de 30 famílias” revelou com empolgação perceptível, Armando Dantas.

A grande surpresa deste ano, conforme frisou o empresário Armando Dantas, é que 15 agricultoras motivaram-se e se cadastraram para o plantio do algodão da safra 2024.

“Este ano nós vamos preparar uma terra para 15 mulheres de Itatuba plantar. Esse é um projeto que tem mudado toda a realidade e despertado cada vez mais o interesse dos agricultores. Estamos planejando fazer seus roçados separados como forma de dar autonomia financeira para elas “, frisou.

O projeto começou com 5 hectares e 10 famílias, e atualmente conta com mais de 30 famílias que vão produzir em mais de 20 hectares. Ao final da colheita de toda a produção, a renda é repartida igualmente entre todos. Somente no ano passado, o primeiro ano da experiência, o algodão agroecológico rendeu quase 5 toneladas do produto que injetou uma renda de R$ 22 mil reais distribuídos entre as 10 famílias.

Os fardos de algodão colhidos no campo mostram a riqueza. A colheita foi farta. Os agricultores exibiram os sacos cheios do produto com orgulho indisfarçável. O algodão foi transportado em carros e até em motos. Depois de beneficiado, foi transformado em fios e tecidos que se tornaram redes, mantas, almofadas, entre outros produtos têxteis decorativos da Santa Luzia.

Para este ano, a perspectiva é que a área destinada para o plantio seja ampliada, visto que mais produtores se interessaram pelo projeto. A projeção é que este ano o plantio seja feito no começo de maio e a previsão de colheita de mais de 10 toneladas de algodão entre os meses de agosto e setembro.

Segundo o coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o produtor rural Osvaldo Bernardo de Sousa, o plantio coletivo foi de fundamental importância porque contou com participação de vários parceiros, como também tem a compra garantida do algodão pela empresa Redes Santa Luzia, que paga R$ 5,00 pelo quilo da rama, além de fornecer a semente e a sacaria.

As famílias atendidas foram desalojadas pela barragem Acauã, que atingiu seis comunidades rurais, sendo elas, Pedro Velho, Riachão, Cajá, Costa e Melancia, todas no município de Itatuba.

O gerente regional da Empaer Itabaiana-PB, Paulo Emílio Souza, disse que o algodão foi a melhor opção para a reconstrução da vida dos agricultores atingidos com o estouro da barragem. Isso porque além de ser agroecológico, essência da comunidade, o cultivo tem gerado segurança alimentar para as famílias e realizado sonhos.

Ele enfatizou que a retomada do algodão agroecológico foi muito importante, principalmente para a região de Itabaiana, onde os municípios de Ingá, Itatuba, Salgado de São Félix, Mogeiro e Gurinhém, se plantava muito algodão nas décadas de 60 e 70, mas foi exterminado pelo bicudo.

“Essa volta do algodão tem gerado renda para os agricultores e gerado novas perspectivas no campo. Além do alimento consorciado, como o milho, o feijão e a fava, eles têm a renda do algodão, o que movimenta a economia. É mais uma alternativa de renda para garantir segurança alimentar e manter o agricultor no campo “, frisou Paulo Emílio. 

Um projeto transformador

Sonhos, lutas e realizações. Definitivamente o desejo de empreender está no sangue e no DNA do paraibano. E toda engrenagem funciona bem quando as parcerias dão certo. Buscar parceiros, investir em tecnologia e realizar capacitações, foi o caminho traçado por alguns empreendedores paraibanos para fortalecer a prática sustentável do algodão e acelerar a indústria têxtil, principalmente os pequenos negócios e garantir emprego e renda para centenas de agricultores. 

Plantado com práticas de sustentabilidade, sem irrigação e sem aditivos corantes, numa área de baixo índice pluviométrico, o algodão agregou valores, atraiu diversos empreendedores, impulsionou a indústria têxtil, e proporcionou um novo boom econômico na região. 

As sementes lançadas no solo e que deixaram os campos floridos, ganharam força por meio do Projeto Algodão Paraíba. O projeto é um exemplo de como boas parcerias podem proporcionar bons negócios e transformar realidades. As pequenas empresas que usam o algodão colorido na produção de suas roupas foram essenciais para melhorar a vida no campo de pessoas simples que nunca haviam assistidos presencialmente a um desfile de moda de grifes renomadas. 

Desenvolvido por nove empresas para atender à demanda crescente de insumos têxteis para a moda sustentável, o projeto tem como base o plantio do algodão colorido com contrato de compra garantida. Atualmente integram o projeto, a Natural Cotton Color de João Pessoa, a Santa Luzia Redes, Decoração de São Bento no Sertão do estado, Ecosimple, Texpar do grupo Unitêxtil, D’Cotton, Dona Chica, Makano, Trópicca, Vert Veja Natural, além das empresas têxteis de fora, Companhia Industrial Cataguases e Dalila Têxtil, além da indústria Textil Norfil S/A que compra parte da produção. 

“Essas são algumas das empresas que compram na Paraíba, entre outras. Essas são as que têm mais áreas de produção. Muitas outras empresas estão surgindo em várias regiões do estado, graças à retomada da cultura do algodão” observou Paulo Emílio Souza, gerente regional da Empaer Itabaiana-PB.

A maioria delas, que corresponde a 80%, são consideradas microempreendedores individuais (MEIs), microempresas (MEs) e empresas de pequeno porte (EPPs), sendo que as duas grandes, nasceram MEI e encontraram no algodão, a força para se tornarem “gigantes” .

O Projeto teve início em 2009, na região de Itabaiana, com apenas um agricultor familiar do Assentamento da Fazenda Campos de Salgado de São Félix por iniciativa da empresária Francisca Gomes Vieira. A ideia inicial foi estimular a agricultura familiar e consequentemente, o surgimento dos pequenos negócios e estímulo ao consumo com práticas sustentáveis, gerando emprego e renda. 

A partir do trabalho de conscientização dos agricultores sobre a importância desta cultura como fonte de renda, novos produtores rurais demonstraram interesse. Dois anos depois, já eram colhidas 50 toneladas de algodão orgânico na região, todo comercializado para a exportação, divididas entre três empresas compradoras.

Tendo como marca a “responsabilidade social”, o projeto engloba atualmente oito municípios na região do semiárido do Estado. Com mais de 600 hectares de área plantada, o projeto envolve cerca de 300 famílias de agricultores de assentamentos rurais e comunidades quilombolas organizados em cooperativas.

O modelo de produção dos campos de algodão tornou-se referência em estudos de caso com temas relacionados a Arranjos Produtivos Locais (APL) e sustentabilidade, já que o cultivo é feito mediante contrato de compra garantida pelos empresários com cooperativas de agricultores que incluem comunidades quilombolas. Somente no Ingá, são 54 cooperados de 44 famílias.

Com os ventos econômicos soprando a favor, parceiros como o Sebrae, a Empresa de Pesquisa, Extensão Rural e Regularização Fundiária (Empaer) e a Embrapa se tornaram peças imprescindíveis para estimular os produtores e impulsionar os negócios. Eles oferecem assessoria técnica para agricultura inovadora e agroecológica, e apresentam as melhores formas de lidar com o bicudo.

Nos últimos anos, tem acontecido um evento para marcar o lançamento oficial da safra, geralmente no mês de setembro.

Somente na safra do ano passado, foram produzidos 6.275 kg do algodão, para 25 produtores das três regiões acompanhadas pela Empaer em Itabaiana, Itaporanga e Serra Branca. E a pretensão dos empresários e parceiros do projeto é ampliar em 20% a produção este ano, conforme garantiu Ricardo Farias, que é o assessor técnico estadual de Agroecologia, vinculado à Empaer.

“Essas regiões abrangem mais de 60 municípios. Para este ano, a gente estima que a produção e o número de produtores aumentem em 20%. Algumas sementes ainda estão sendo distribuídas e na colheita a gente tem uma noção exata do crescimento” explicou Ricardo Farias.

Ele enfatizou a revolução que o algodão orgânico tem causado no campo, tendo sido fundamental para melhorar a vida dos agricultores, além de incentivar o surgimento dos pequenos negócios. Segundo ele, a presença de empresas têxtil na cidade, estimulando o cultivo e produção em larga escala do algodão, mudou a realidade local.

“As pequenas empresas têm ajudado muito pois são elas que compram o produto” , frisou.

Mentora do Projeto, a empresária Francisca Vieira não esconde o orgulho pelo sucesso e disse que a presença das empresas do setor é crucial para a moda ética e sustentável, uma vez que a produção de roupas demanda tanto malhas quanto tecidos de qualidade. Todos ganham. Ninguém reclama.

“O Projeto Algodão Paraíba envolve todas as empresas que usam o algodão orgânico ou agroecológico desde que a empresa pague o preço justo para os agricultores. Essa é a condição para poder usar a marca do projeto” afirmou.

Para ela é preciso criar as condições para que todos saiam lucrando de forma justa. As peças possuem detalhes artesanais feitos em arranjos traçados por artesãs. Muitas das mulheres também são trabalhadoras rurais e garantem a renda com a atividade na entressafra do algodão.

“É preciso pensar que a gente tem os pilares da sustentabilidade que é o ambientalmente correto, o socialmente justo e o economicamente viável. Mas tem que ser viável para a empresa e para quem vende o produto para ela. Tem que ser economicamente viável para eles também. E tem um outro aspecto que também é importante que é a cultura. Por isso que a gente trabalha sempre com o artesanato, que é a forma que temos de preservar a nossa cultura e agregar valor às nossas peças” disse.

Francisca garantiu que todas as empresas que trabalham com a moda sustentável têm em comum, a preocupação com o meio ambiente. As empresas do segmento procuram desenvolver metodologias e processos inovadores, que reduzam a degradação da natureza.

Analista técnico do Sebrae/PB, Jucieux Palmeira destacou o êxito do projeto e ressaltou que o algodão colorido orgânico se tornou uma marca e identidade da Paraíba presente em diversas feiras nacionais e internacionais. Ele lembrou que o produto, ecologicamente correto e voltado para a sustentabilidade, está agregado diretamente ao setor de artesanato sendo de grande importância econômica, social cultural. E que tem um valor diferenciado muito grande.

Jucieux Palmeira ainda ressaltou que o Sebrae tem atuado nesse processo sendo um parceiro importante para alavancar o setor. O órgão, segundo ele, tem realizado atividades que valorizam principalmente os microempreendedores e pequenos produtores do campo, que precisam de capacitação.

“O Sebrae tem focado no pequeno e médio produtor que está ali no campo, bem como, o pequeno empresário que está desenvolvendo os seus negócios. As capacitações tem sido realizadas em vários locais. Recentemente em uma capacitação em Monteiro, eu pude constatar a riqueza do trabalho que está sendo desenvolvido com o algodão colorido” destacou Jucieux Palmeira.

O analista técnico observou que as capacitações feitas pelo Sebrae, vão desde o campo, com os pequenos produtores até o consumidor final que compra a peça pronta. 

Da terra do algodão para a indústria da moda

No Ingá, no Agreste paraibano, o algodão colorido orgânico tem mudado a vida e a realidade dos agricultores. Conhecida por abrigar a pedra enigmática Itacoatiara, a cidade vive uma euforia graças ao incentivo dos pequenos empreendedores e principalmente dos parceiros que tem estimulado a retomada do produto agora de forma orgânica. Na cidade, que um dia já foi considerada a terra do algodão, o produto aos poucos está voltando a fomentar a economia local.

O plantio feito numa região de escassez de água tem brotado de forma abundante. E surpreendido as expectativas dos agricultores. Muitos deles tiveram a oportunidade de ganhar uma renda antes inimaginável e pela primeira vez abriram uma conta bancária.

A retomada da produção em escala industrial, permitiu aos agricultores o acesso ao crédito, e com isso, eles passaram a construir uma nova história de forma unida e organizada. Com o dinheiro da primeira safra, muitos pagaram as dívidas, reformaram casas e compraram motos e até carro.

O presidente da Cooperativa dos Agricultores Familiares do Município de Ingá e Região (Itacoop), Severino Vicente da Silva, o seu Biu, enfatizou que o algodão cultivado na região tem abastecido as pequenas e grandes empresas do setor têxtil, e se expandido para o mercado do Rio Grande do Norte e do Ceará. Homem simples, ele é um dos mais empolgados com o projeto, que tem a missão de estimular os agricultores a voltar a acreditar no potencial do algodão.

Atualmente 38 agricultores plantam e colhem o algodão agroecológico e outras culturas na cidade. Na safra de 2023 eles colheram 41 toneladas de algodão em 57 hectares. O agricultor que menos lucrou, faturou R$ 8 mil reais. Nenhum deles plantou menos de 1 hectare.

“A primeira safra foi boa. Melhorou muito a qualidade de vida deles. É meio de plantio que impacta na saúde deles. Das outras culturas eles se alimentam. Com o algodão colorido orgânico deixa um dinheirinho, e tiram uma renda para poder fazer investimentos. Muitos deles puderam reformar a casa. Teve agricultor que comprou uma moto. Tudo isso é expectativa de vida para eles “, enfatizou a engenheira agrônoma Natália Keli de Lima Araújo, gestora da Itacoop.

Como para atender o mercado nacional e internacional é preciso escalar, o que vai além da expansão do cultivo no campo, os produtores ganharam, há dois anos, um importante equipamento. A usina de beneficiamento do algodão orgânico é considerada a maior do Nordeste, com capacidade de atender a Estados vizinhos e beneficiamento de quatro mil quilos de pluma por hora.

A aquisição do equipamento pela Cooperativa foi viabilizada graças a parceria com as indústrias Dalila Têxtil (SC) e da Companhia Industrial Cataguases (MG), que viram no Ingá a possibilidade de não precisar mais importar algodão orgânico da Ásia. A máquina ajudou a valorizar o algodão. Isso porque, o quilo do projeto na rama custa R$ 5,00, mas quando é vendido a pluma, após passar pela máquina de beneficiamento, tem valor elevado e custa até R$ 17 reais.

O resultado está no seu sorriso, no campo florido e no bolso um pouco mais cheio dos agricultores. 

O algodão na vida de “dona Nenê” 

O sorriso estampado no rosto é espontâneo. Traduz felicidade. A simplicidade é refletida nas poucas palavras que ela fala. A timidez é aparente. Maria do Socorro da Silva Nascimento, mais conhecida como Dona Nenê, teve a sua vida transformada há pouco tempo, quando conheceu a Natural Cotton Color, a Empaer, a Embrapa, o Sebrae e passou a cultivar o algodão colorido orgânico. Uma guinada na vida. Ela é uma das agricultoras que está plantando o algodão colorido no Ingá. E lucrou bem.

Mesmo com toda essa transformação, a agricultora ainda está na lista das muitas mulheres do campo “presas” a uma cultura do passado e que desconhece a própria idade. Quando questionada sobre a faixa etária, disse que não sabia, e que apenas o seu marido, o agricultor Everaldo Inácio de Lima, tinha conhecimento exato da data.

Dona Nenê, como é conhecida na cidade do Ingá, tem 54 anos e como muita nordestina, trabalha duro.

Mulher forte, está acostuma acordar às 4h e segue de carroça com o marido até a lavoura. Até pouco tempo ela não tinha sequer o CPF e teve que tirar o documento para abrir conta em banco e receber o primeiro salário pela própria produção. Só agora ela conquistou certa autonomia cívica.

Nascida e criada no município com pouco mais de 18 mil habitantes, Dona Nenê, assim como a maior parte das agricultoras na região, começou cedo a trabalhar com os pais no roçado e não foi alfabetizada, integrando as estimativas de 11 milhões de brasileiros analfabetos no país segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE).

De poucas palavras, meio acanhada, ela conta que divide os cerca de quatro hectares de plantação com o marido, “mas o dinheiro é a conta e o lucro do roçado”, é dele também. As novas perspectivas no campo, possibilitadas pelo algodão agroecológico, têm atraído mulheres em busca de autonomia de volta para a agricultura. Dona Nenê foi uma delas. 

O canto da Asa Branca

Um pássaro. Uma história de resistência e muitas memórias. Poucas músicas retratam tão bem a história de luta do povo nordestino como Asa Branca. A música composta por Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, e que se tornou hino do Nordeste, definitivamente passou a fazer parte da vida de dona Maria do Socorro recentemente. A música, que retrata o drama da seca, e o êxodo rural, embalou o desfile de moda, cujos tecidos foram produzidos a partir do trabalho realizado pelas mãos de Dona Maria do Socorro.

Vivendo maior parte do tempo na roça, Maria do Socorro nunca havia assistido a um desfile de moda pessoalmente, principalmente de grifes famosas e com modelos internacionalmente conhecidos. Fazer parte desse mundo seria algo impensável.

O algodão orgânico ajudou a realizar esse sonho. Pelo menos em um dia, a roça da agricultora se tornou uma passarela. E o “rancho” onde ela costuma fazer a comida, café e descansar da labuta no campo, se tornou uma espécie de “camarim” improvisado. Dona Nenê foi a responsável pelo pela plantação que compôs o cenário do desfile de moda no chamado Dia da Colheita organizado pela Natural Cotton Color e pelos parceiros do projeto Algodão Colorido da Paraíba

No rancho de pau a pique entre as plantações, dona Nenê organizou todo o desfile e viveu um dia de sonhos e glamour que ela não esquece. O desfile organizado no rancho simples da roça, teve a assinatura da empreendedora e produtora de mora Elis Janoville, que vive na França. A coleção foi uma homenagem ao pássaro símbolo do nordestino.

Já vivendo a expectativa para o desfile deste ano, que deve acontecer em setembro, ela confessa que gosta de ver o desfile de moda em volta de sua plantação e se orgulha de ter feito parte daquele universo mágico.

“É uma alegria muito grande saber que o algodão das roupas vem da mão da gente, disse orgulhosa.

A coleção “Asa Branca”, preparada pela empresária Francisca Gomes Vieira, com apoio de parceiros como o Sebrae e o Senai, produzida com o algodão plantado por Dona Nenê e os demais agricultores, foi a mesma apresentada em Milão, na Itália.

Agricultora desde criança, há quatro anos ela faz o cultivo orgânico consorciado com jerimum, fava, milho e feijão. O resultado está no seu sorriso, no campo florido e no bolso um pouco mais cheio.

Para ela tudo é novo. Mesmo morando a cerca de 1 hora de João Pessoa, não conhece o mar e agora sonha em tomar um banho de praia.

A simplicidade também é marca do agricultor Everaldo Inácio de Lima. Graças ao algodão colorido, o agricultor, esposo de Maria do Socorro, pode realizar alguns sonhos como reformar a casa, comprar um “carrinho” e pagar as dívidas.

“Voltar a plantar algodão e agora com muitas pessoas ajudando tem sido uma experiência muito boa e transformada” disse. 

Dona Nenê e todos os agricultores envolvidos no projeto, já preparam a terra para o plantio deste ano, e esperam uma safra recorde. E um novo desfile na cidade. 

Uma experiência transformadora

Quem vê as roupas penduradas nos cabides das lojas ou expostas nas vitrines de shoppings não tem noção do trabalho que dá para produzi-las. O mercado da moda não só acompanha e dita tendências culturais e sociais, como também engloba diversos modelos de negócios, movimentando economicamente uma vasta e diversa cadeia produtiva. Que o diga a empresária e designer de moda, Gecilda Pereira de Souza.

Ela lidera o Grupo Via Terra Natural, de Campina Grande, que incentiva o plantio do algodão colorido. Faz toda a produção desde a plantação até o produto final. A empresa de pequeno porte é outro exemplo de como o algodão colorido proporcionou novas oportunidades. A Via Terra Natural surgiu há 15 anos, e há três, atraído pela moda sustentável, Gecilda Pereira resolveu apostar no cultivo do algodão colorido.

O projeto movimenta toda uma cadeia desde o plantio do algodão no campo, passando pela produção dos tecidos na pequena fábrica de tecelagem da empresa, até a venda de roupas e acessórios.

“Eu estou há 15 anos no mercado do algodão colorido. A gente começou com algumas peças e há três anos, sentimos a necessidade de fazer a plantação. Hoje estamos com esse trabalho de plantar, colher, fazer o tecido a malha e o produto final” explicou.

O projeto contempla famílias agricultoras dos municípios de Gurjão, Juazeirinho, Parari, Olivedos e Santo André, no Cariri e Seridó paraibano. Conforme a empresária compradora do produto, Gecilda Pereira de Souza, somente no ano passado, os agricultores cultivaram mais de 03 toneladas do algodão, sendo que só os plantadores de Juazeirinho fecharam a safra contabilizando 1,5 toneladas. Ela ressaltou que discutiu antecipadamente o compromisso da compra do produto a preços preestabelecidos.

A empresa começou com a fabricação de sandálias ecológicas, e depois com a chegada do algodão colorido ampliou a produção, e hoje fabrica mais de 30 itens, desde camisetas, vestidos e toda linha infantil e adulto.

Para realizar o trabalho, ela buscou as parcerias com a Embrapa, que deu a assessoria técnica, o Senai e o Sebrae. Antes de “mergulhar” no projeto, a empresária buscou formação, tendo começado como artesã e posteriormente, feito o curso de design de moda.

“Os parceiros têm sido importantes. O Sebrae deu todo o subsídio nos auxiliando nesse aspecto. Depois levamos as plumas para o Senai, que faz a tecelagem “, contou.

Atualmente o Grupo Via Terra Natural, envolve 80 agricultores, 15 artesãos que trabalham nos ateliês, atuando no cultivo e fabricação dos produtos ecologicamente corretos.

“Hoje são quase 100 pessoas envolvidas no projeto atuando com essa pegada ecológica. O grande diferencial do projeto é movimentar toda uma cadeia produtiva e gerar emprego e renda” disse.

A loja, instalada na Vila do Artesão em Campina Grande, é referência na venda de produtos que remetem à expressão da cultura nordestina enraizada com os costumes e tradições regionais.

Com orgulho indisfarçável Gecilda Pereira de Souza disse que o algodão colorido mudou a sua vida e a de muitos agricultores do projeto, visto que ajudou a realizar sonhos. Muitos deles, segundo ela, compraram casas, móveis e eletrodomésticos com o dinheiro oriundo da venda do produto.

“Foi uma revolução no campo e na vida das pessoas. Eu mesma vivo do algodão colorido e da moda sustentável que é a minha principal fonte de renda”, enfatizou.

A empresária e artesã Amália Monteiro também depende do algodão colorido para tirar o seu sustento. Há quase duas décadas ela vive da venda de roupas fabricadas com o algodão orgânico. Ela também tem uma loja na Vila do Artesão, e todos os anos participa do Salão de Artesanato da Paraíba. 

No coração da Embrapa

Sonho, ousadia, criatividade, pesquisa e tecnologia. Um projeto arrojado que transcende o tempo e as fronteiras do Estado. Nos últimos 24 anos, diversos negócios surgiram na Paraíba a partir do uso do algodão colorido. O produto virou peça de luxo. Caro. As lojas exibem as peças luxuosas com forte simbologia regional, fabricadas principalmente pelos microempreendedores. Quem vê toda essa riqueza e glamour do mundo da moda, não tem noção de como tudo começou.

O cultivo do algodão colorido começou de forma experimental na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Algodão na cidade de Campina Grande. A Embrapa desenvolveu a primeira cultivar de algodão com o objetivo de oferecer alternativas de renda para os agricultores do Semiárido, além de contribuir para a preservação ambiental e impulsionar a indústria têxtil.

Com a qualidade e singularidade dessa nova matéria prima, surgiu uma grande oportunidade de mercado para artesãos e trabalhadores manuais já que os resultados teriam produtos com valor agregado. Um horizonte de possibilidades se descortinou quando os empresários perceberam o forte apelo ecológico do algodão, produzido sem agrotóxicos, e que já nasce com uma cor natural, sem necessidade de acrescentar produtos químicos e tintas para seu tingimento. Atualmente, a fibra colorida possui valor de mercado de 30 a 50% superior às fibras de algodão branco normal.

O PB Agora visitou as dependências da Embrapa Algodão e conheceu de perto toda a tecnologia que resulta na produção de vestuários que abastecem o mercado. Antes de conhecer o laboratório da empresa, o pesquisador e diretor da empresa, Francisco José Tavares refez o caminho de todo o processo de criação do algodão colorido.

Ele lembrou que para desenvolver a pesquisa, a Embrapa liderada pelo pesquisador e melhorista Luiz Paulo de Carvalho, cruzou as espécies coloridas até chegar a um produto que possuíssem resistência e comprimento da fibra adequados ao processo industrial. Como resultado, houve a retomada da cotonicultura na região do semiárido no Nordeste, já desaparecida depois do bicudo-do-algodoeiro, praga que dizimou as plantações.

“A Embrapa fez o melhoramento da fibra. O algodão já nasce colorido é uma variedade aprimorada geneticamente com fios mais resistentes” observou o pesquisador Francisco Farias.

No laboratório da empresa tudo é milimetricamente calculado. Temperatura adequada e luz ideal são levadas em conta para o êxito das pesquisas que resultam na abertura de negócios e descortina horizontes no mundo da moda.

“Tem uma série de fatores que precisam ser observados durante a pesquisa” revelou o pesquisador.

A Embrapa já lançou seis variedades de algodão colorido em tonalidades que vão do verde-claro aos marrons claro, escuro e avermelhado. Hoje, estão disponíveis para o mercado o algodão nas variedades marrom, verde, rubi, safira, topázio e jade.

A cultivar mais adotada pelos produtores é a BRS Rubi, por sua tonalidade mais escura, que é mais demandada pela indústria têxtil.

“Em termos de produtividade a jade ela é bem mais produtiva e com boas características para satisfazer a indústria têxtil. Entretanto, a rubi é muito procurada por causa da cor da cultivares. Vale salientar que o algodão já nasceu colorido. O que a Embrapa fez foi melhorar a qualidade da fibra dele, com cores mais intensa”, detalhou. 

A primeira cultivar foi a BRS 200 de fibra marrom claro, lançada no ano 2000. Em seguida, foram lançadas as cultivares BRS Verde, em 2003, BRS Rubi e BRS Safira, em 2005, de fibra marrom avermelhada. Em 2010 foi lançada a BRS Topázio, de coloração marrom claro. Mais recente, foi lançada outra variedade, chamada de BRS Jade, de fibra mais clara que a BRS Safira, porém mais produtiva e com maior qualidade de fibra.

A produção de algodão na Paraíba não é novidade. Nos anos 1930, o estado era o segundo maior exportador do mundo. Do século 18 até a década de 1980 a atividade movimentou a economia regional até que a praga do bicudo arruinou plantas e famílias.

Com números positivos, uma das preocupações da Embrapa é garantir o uso das tecnologias para evitar um novo ataque de pragas, principalmente o bicudo, que poderia comprometer a produção e se refletir no mercado têxtil.

Hoje, o Brasil voltou a liderar o ranking de maior exportador do produto, graças ao uso das tecnologias no campo.

Segundo o pesquisador Francisco José Tavares, os materiais desenvolvidos pela Embrapa conseguem até 3 mil quilos por hectare, desde que seja plantado em condições ideais, na época certa e utilizando o adubo orgânico, e que as práticas culturais sejam feitas, principalmente no controle de pragas”, observou.

“Nós temos ensinado os produtores a usar tecnologias de controle desenvolvidas pela Embrapa para evitar um ataque intenso das pragas. Os produtores são orientados a como utilizar de forma ecologicamente correta essas tecnologias” ressaltou Francisco Tavares.

Como forma de estimular o plantio do algodão, a Embrapa Algodão está realizando um projeto de inovação social para desenvolver um sistema de produção de cultivo do algodoeiro com culturas alimentares no Sertão paraibano.

Iniciada em 2021, a iniciativa terá duração de quatro anos e tem como parceiras a Associação dos Pequenos Produtores de Serrinha, de Bom Sucesso (PB), e a Santa Luzia Redes e Decoração (São Bento, PB), além da Empresa Paraibana de Pesquisa, Extensão Rural e Regularização Fundiária (Empaer), a Organização das Cooperativas do Brasil (OCB) e o Sebrae.

“O projeto está ancorado em três eixos básicos que são, aprimoramento das tecnologias agrícolas, capacitação dos agricultores e avaliação socioeconômica do sistema de produção”, diz o pesquisador Francisco Farias, que coordena o projeto. 

A percussora

Uma das precursoras do uso do algodão colorido na Paraíba, foi a empresária Maysa Gadelha. Presidente da CopNatural e do Instituto Casaca de Couro. Ela conversou com o PB Agora e destacou a força do algodão colorido paraibano e a contribuição para o surgimento de dezenas de empresas do setor têxtil.

“Nós fomos os pioneiros da divulgação do algodão colorido na Paraíba. Nós que fomos na Embrapa no ano 2000 que nos cedeu essa tecnologia que já estava pronta. Nós estruturamos a cadeia produtiva, estimulando o plantio do agricultor familiar e certificando o algodão como orgânico “, contou.

Maysa Gadelha participou de feiras no exterior e garantiu clientes em 11 países e hoje, 24 anos depois, a moda sustentável paraibana tem mercado garantido em mais de 80 países.

Um dos desafios enfrentados por Maysa foi mostrar aos produtores da agricultura familiar que era possível plantar o algodão colorido de forma orgânica, e posteriormente, abrir um mercado para acolher as peças do produto que não existia.

Ela destacou que a partir do momento que conseguiu registrar o algodão colorido da Paraíba no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) como indicação geográfica, deu a sensação de pertencimento ao estado, o que gerou empreendedorismo e incentivou toda uma cadeia produtiva, impulsionando o desenvolvimento regional.

No começo a Natural Fashion que depois se tornou CopNatural fabricava mais de 150 itens, aproveitando todas as tipologias existentes no artesanato paraibano, desde a renascença, labirinto, bordado, croché, tudo agregado aos produtos, alavancando com isso, todos os setores.

O aproveitamento de resíduos, com a fabricação de bonecas e enfeites, também marcou o início dos trabalhos que transformaram a Paraíba como sendo a terra do algodão colorido no mundo.

“Hoje nós temos várias empresas instaladas na Paraíba e vários artesãos que trabalham com esse produto. Temos uma identidade dentro do Estado. Muito nos orgulha muito ter sido os pioneiros e quem planejou esse futuro para o algodão colorido” observou.

A primeira produção do algodão colorido do Estado foi plantada em uma propriedade em São João do Rio do Peixe, no Sertão do Estado, e depois se estendeu para Patos, Ingá, Remígio e outras cidades. O primeiro plantio das quatro cores orgânicas, foi feito no município de Bom Sucesso.

Economia de água e saúde de qualidade. Maysa Gadelha destacou a importância do produto para o planeta. Isso porque a produção economiza 87,55% no consumo de água na produção do tecido quando comparada com a de uma confecção convencional.

“As roupas feitas de algodão orgânico são sempre recomendadas às pessoas que têm alergia a tecidos sintéticos. São peças que podem ser usadas também por pessoas alérgicas a corantes, já que sua coloração é natural, a pluma já nasce colorida” explicou. 

O algodão orgânico 

Nos últimos anos Maysa Gadelha passou a trabalhar com o algodão branco orgânico, sem o uso de veneno. A produção envolve 512 agricultores espalhados em 98 municípios da Paraíba e do Rio Grande do Norte. A CopNatural comercializa a pluma do algodão para a empresa Norfil, com sede em João Pessoa.

O processo é simples, conforme explicou Maysa. O agricultor planta, a Cop Natural compra o produto; o Instituto Casaca de Couro, localizado na cidade de Pirpirituba, faz o descaroçamento e a empresa compra.

O Instituto funciona em um local que abrigou uma usina de algodão que estava abandonada há 32 anos. Hoje, após ser reativado, só se processa algodão orgânico. A produtividade, segundo ela, depende de um conjunto de fatores como clima, o trato dado à terra.

“Tem agricultores que numa safra compra uma casa. E tem agricultores, que não tem tanto capricho e colhem menos. 

Os agricultores têm ocupação durante cinco meses no ano e renda média de R$ 900,00 por mês, por hectare, nessa cultura.

A Usina de Beneficiamento de Algodão Antônio Inácio da Silva, a antiga Usina Boa Viagem, em Pirpirituba, município do Brejo paraibano, onde o algodão orgânico será descaroçado livre de contaminação por organismos geneticamente modificados, de forma segura.

A produtividade, conforme explicou Maysa, depende de uma série de fatores, como o clima, da assistência técnica e do trato dado à área plantada.

Em 2023 com 236 agricultores foram colhidas cerca de 300 toneladas de algodão, sendo que em 2022, a safra girou em torno das 200 toneladas, uma queda provocada pelas questões climáticas.

Entre o declínio nos anos 70 e o reerguimento a partir do ano 2000, o algodão colorido se tornou uma atividade viável e fonte de renda para muitos paraibanos de vários setores. Patrimônio cultural imaterial do Estado da Paraíba, o cultivo da planta tem ajudado a recuperar a economia do interior do estado, e favorecido o surgimento dos pequenos negócios impulsionando toda uma cadeia produtiva.

Severino Lopes
Blog JURU EM DESTAQUE com PB Agora

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