Dados das pesquisas Ibope dos primeiros seis meses do governo Jair Bolsonaro
A avaliação negativa do presidente entre as classes mais pobres vem crescendo
© Isac Nóbrega/PR (Foto de arquivo)
A avaliação
positiva do governo e a popularidade do presidente Jair Bolsonaro
diminuíram de forma constante nos primeiros seis meses do ano. Ao fim
deste período, é possível dizer que o bolsonarista mais fiel se
notabiliza por duas características marcantes: ele carrega o sotaque do
Sul do País e está na faixa dos que possuem renda mais alta.
Dados das pesquisas divulgadas pelo Ibope desde janeiro
mostram que Bolsonaro continua "mito" mais para os que ganham acima de
cinco salários mínimos, cujo apoio chegou a crescer no mês de junho.
Também na contramão da tendência de queda da avaliação positiva da atual
gestão estão os moradores da região Sul, a única que registrou aumento
no apoio a Bolsonaro na mais recente pesquisa, divulgada na semana
passada em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Por
outro lado, os habitantes do Nordeste e de menor renda foram os que
mais desembarcaram do apoio ao presidente na primeira metade do ano. Em
relação ao penúltimo levantamento do Ibope, em abril, três a cada dez
nordestinos que apoiavam Bolsonaro pularam do barco. Hoje, apenas 17%
dos moradores da região, reduto do PT, consideram a gestão boa ou ótima.
No
Sul, por outro lado, a avaliação melhorou de abril para junho: hoje com
52% de aprovação ao presidente, oito pontos a mais em relação ao
levantamento anterior, a região é a única onde ele tem como apoiadores
mais da metade da população.
É o caso da administradora de
empresas Marilea Martins, de 58 anos. Moradora de Curitiba, no Paraná,
ela afirma que Bolsonaro "herdou uma estrutura corroída pela corrupção
do PT" e precisa de apoio da população para governar. "As ações que ele
está propondo para melhorar o País enfrentam a resistência do Congresso,
corrupto e acostumado ao toma lá, dá cá."
Marilea também se
enquadra em outro aspecto: ao fazer um recorte por renda, também fica
claro quem sustenta o apoio a Bolsonaro - que, na média geral, é
avaliado como bom ou ótimo por 32% da população, mesmo número dos que o
avaliam como ruim ou péssimo e como regular. Quase metade dos que ganham
mais de cinco salários mínimos dão apoio ao presidente. Marilea se
considera uma típica integrante da classe média curitibana e está na
faixa entre cinco e dez salários mínimos.
Os dados por renda
acabam refletindo nos que têm como base a formação escolar dos
entrevistados. Bolsonaro também apresentou queda acentuada entre os que
estudaram apenas até a 4.ª série do ensino fundamental, com seis pontos a
menos da pesquisa de abril para a divulgada na semana passada -
enquanto as outras faixas desse segmento não oscilaram tanto.
Apesar
de os índices de bom ou ótimo, ruim ou péssimo e regular estarem no
mesmo patamar, Bolsonaro é o presidente mais mal avaliado em início de
primeiro mandato desde Fernando Collor. O presidente também vai mal em
outros dois pontos da pesquisa: a aprovação ao modo de governar o País e
a confiança na sua figura.
Mais da metade da população - 51% dos
entrevistados - não confia no presidente, enquanto 46% confiam. Quanto
ao modo de governar, os números são menos distantes entre si: 48%
desaprovam a maneira como Bolsonaro se comporta à frente do Palácio do
Planalto, ante 46% que o endossam.
"O apoio ao governo está bem
próximo do tamanho dos grupos mais identificados com uma visão mais
conservadora em termos morais (evangélicos sobretudo)", afirmou o
cientista político Marco Antônio Teixeira, que vê o desemprego e a queda
na renda, somados a fatores mais específicos, como os principais
motivos para a constante queda de popularidade do presidente.
A
diferença mais acentuada se dá no segmento por região. No Nordeste a
avaliação do governo como bom ou ótimo já era menor que a média nacional
em abril e os números despencaram na mais recente pesquisa (mais
informações nesta página).
No
item renda, os que ganham até 1 salário e veem o governo com bons olhos
ficam em apenas 21% dos entrevistados. A diferença entre os setores
cresceu na pesquisa deste mês.
Outro pilar de sustentação do
bolsonarismo, por sua vez, sofreu um baque na pesquisa de junho. Os
municípios do interior e os com menos de 50 mil habitantes registraram
queda maior do que capitais e cidades periféricas. Antes havia uma
diferença clara entre os tipos de município; agora não há mais.
A
contadora Angélica Bernardes, de 49 anos, moradora de São Leopoldo (RS),
mantém o apoio a Bolsonaro porque considera que valores morais e éticos
estão se perdendo. "Eu vejo que as pessoas já estão cansadas nesse país
de falta de valores, princípios, educação, respeito. Infelizmente
perdemos tudo isso no Brasil. É muita libertinagem. Não sou homofóbica,
nem racista, eu só quero respeito", afirmou a contadora, que apoia a
política de armas do atual presidente.
Este também é o motivo do
apoio manifestado pelo comissário da Polícia Civil do Rio Grande do Sul,
Ricardo de Souza Salamon, de 51 anos. "Essa falácia de calibres
restritos e permitidos era mais uma jabuticaba. Temos é que endurecer a
legislação para quem comete crime armado e com arma ilegal", disse.
"Permitir que o cidadão se defenda é dever do Estado. Mais perigoso é
deixar, como ocorre hoje, que um criminoso quase sempre reincidente,
seja colocado prematuramente em liberdade e coloque toda sociedade em
risco", afirmou Salamon, que trabalha há 27 anos na corporação.
Pautas econômicas e de costumes têm marcha desigual após 6 meses
O
balanço dos seis primeiros meses do governo Bolsonaro mostra um avanço
em pautas econômicas como a reforma da Previdência, defendida como
fundamental para o reequilíbrio das contas públicas e para a retomada do
crescimento econômico. Bem diferente é a situação da chamada "pauta
conservadora", que serviu de base para a campanha do então candidato do
PSL. Propostas como o Escola Sem Partido, a flexibilização da posse e
porte de armas e o combate às políticas de gênero têm enfrentado
resistência e derrotas no Congresso.
"O Congresso apoia a
modernização econômica, mas a agenda conservadora se mostrou inviável.
Os parlamentares a rejeitam", resume o pesquisador Fernando Schüler, do
Insper. Ao analisar o desempenho do governo, Schüler faz outra
observação: o governo tem perdido o "protagonismo" na condução mesmo da
agenda econômica, que tem andado mais por iniciativa do Legislativo. "O
Congresso está comandando a agenda econômica, é uma situação inusitada. O
governo perde protagonismo mas, se funcionar e gerar resultados, vai
colher frutos e será reconhecido."
Desde a posse, Jair Bolsonaro
tem repetido que precisa combater o que ele chama de "velha política",
que seria baseada na troca de cargos por votos. Essa ofensiva contra os
políticos também é usada por grupos bolsonaristas nas redes sociais e em
protestos de rua, ao responsabilizarem o Congresso pelo atraso na
aprovação das reformas. Os parlamentares negam o "toma lá, dá cá" e
acusam o Executivo de querer passar por cima dos demais Poderes.
Como
resultado desse impasse, Bolsonaro ainda não conseguiu assegurar uma
base de apoio forte o suficiente para garantir que seus projetos sejam
aprovados. Foi o caso do primeiro decreto de armas, derrubado na
Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Destino parecido teve a
medida provisória que transferiu para o Ministério da Agricultura a
demarcação de terras indígenas, devolvido pelo Senado ao Executivo.
A
questão da demarcação será avaliada em agosto pelos ministros do
Supremo Tribunal Federal, onde o governo também já amargou derrotas. A
Corte aprovou a criminalização da homofobia - criticada por Bolsonaro - e
impediu a extinção indiscriminada dos conselhos federais públicos.
"Seria ruim se o governo aprovasse pautas na base do toma lá, dá cá.
Isso foi rejeitado nas urnas, mas fica o desafio: como dar
governabilidade e conduzir reformas?", afirmou Schüler.
Previdência
Apresentada
em 20 de fevereiro, a reforma da Previdência foi aprovada em comissão
especial e segue agora para apreciação no plenário da Casa nas próximas
semanas. Ainda não há garantia de que vai atingir a economia de R$ 1,3
trilhão em dez anos almejada pelo Ministério da Economia, mas o consenso
em torno da necessidade da reforma aponta para algum alívio nas contas
públicas.
Até lá, o governo tem sido cobrado a adotar medidas de
curto prazo que estimulem a economia. Pesquisador da Universidade de
Harvard, Hussein Kalout diz que é preciso resolver três problemas:
renda, crédito e emprego. "Sem isso, a economia entrará em processo de
inércia e haverá impactos sobre a sociedade, o empresariado e o
mercado", avaliou. Kalout citou ainda a necessidade de abertura
comercial, redução tarifária, a desburocratização da administração
pública e a qualificação profissional.
Na
sexta-feira, o governo comemorou acordo para formar uma área de
livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE). O tratado prevê
que, no prazo de até uma década, 90% do que o Brasil exporta entrará na
UE sem tarifas. Hoje somente 2,4% dos produtos têm alíquota zero. O
acordo também facilitará a entrada de produtos europeus no Brasil.
"Outros países não vão querer ficar de fora do mercado do Mercosul.
Aumenta nossa inserção no mundo", diz Pedro Camargo Neto, ex-presidente
da Sociedade Rural Brasileira.
A mudança de governo também deixou
marcas na imagem externa do Brasil, após forte atuação do que os
bolsonaristas chamam de "ala ideológica". Alvo de protestos nos Estados
Unidos, Chile, Suíça e Argentina, o governo tem sido contrário a pautas
que o Brasil defendia anteriormente, como o multilateralismo. Outra
característica foi a aproximação com os EUA e com governos de
extrema-direita da Hungria, Polônia e com setores na Itália.
Para
Oliver Stuenkel, coordenador do programa de pós-graduação de Relações
Internacionais da FGV, a política externa perdeu a previsibilidade. "É
um produto de brigas entre as facções do governo. Os países estão
estabelecendo diálogos paralelos com as facções para antecipar qual
grupo pode ganhar as batalhas", afirmou, exemplificando com interesses
de militares, de liberais e da ala "ideológica".
Como exemplo,
Oliver citou as críticas do chanceler Ernesto Araújo à integração
regional da Europa e ao globalismo. "Depois disso, Bolsonaro vai para a
Argentina e mostra interesse em promover um debate sobre uma moeda
comum, pesadelo para qualquer contrário ao globalismo."
O
ex-embaixador Rubens Ricupero diz que o País perdeu energia prejudicando
a relação com a China ou com declarações polêmicas com os países
árabes, quando cogitou transferir a embaixada em Israel. "O prestígio
internacional do Brasil está hoje perto de zero."
Agenda do governo não engrena na Câmara
Com
uma articulação política reconhecidamente falha e uma relação ora
turbulenta ora amistosa com o presidente da Câmara dos Deputados,
Rodrigo Maia (DEM-RJ), o governo do presidente Jair Bolsonaro aprovou,
nestes primeiros seis meses de gestão, pautas de seu interesse na Casa
num ritmo comparado a espasmos pontuais entremeados por paralisações. É o
que apontam dados do Basômetro, ferramenta do Estado que monitora a
relação entre o Executivo e o Legislativo.
O ritmo de votações
orientadas pelo governo pode ser visto nos gráficos desta página,
referentes aos primeiros semestres de todos os presidentes desde 2003.
Cada barra indica um dia de votação no qual o governo orientou votação
na Câmara - o tamanho delas indica a quantidade de votações naquele dia.
Quanto maior for a barra verde, mais votos foram favoráveis ao governo -
a rosa são os votos contrários.
Na
comparação com as gestões anteriores, o governo Bolsonaro é o que
registra os maiores espaços temporais entre as votações orientadas na
Câmara desde 2003. Não foram incluídos na contagem as votações em que o
governo se absteve de orientar a base aliada. No início deste mês, o
Estado informou que uma em cada três propostas que tramitaram na Câmara
este ano não foram orientadas pelo Palácio do Planalto. É a maior "taxa
de omissão" desde 2003, primeiro ano do governo Luiz Inácio Lula da
Silva.
Os espaços em branco no gráfico coincidem com os períodos
em que houve ruídos nas relações entre o governo Bolsonaro e Rodrigo
Maia, responsável por determinar a pauta de votação da Câmara. Entre 26
de março e 7 de maio, por exemplo, passaram-se 42 dias sem que o governo
orientasse os deputados em votações. O período coincide com um
estremecimento na relação entre Maia e o clã Bolsonaro.
O estopim
foi a publicação de uma mensagem, no dia 21 daquele mês, do vereador do
Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (PSC), filho "02" do presidente", no
Twitter. Carlos ironizou Maia por sua relação de parentesco com o
ex-ministro Moreira Franco, que havia sido preso naquele dia -
presidente da Câmara é casado com a enteada do ex-ministro.
Durante
a longa lacuna no plenário da Câmara, no entanto, Bolsonaro teve uma
vitória na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que aprovou a
admissibilidade da reforma da Previdência, a principal pauta do governo.
Deputados consideraram, no entanto, que a aprovação não foi por causa
de Bolsonaro, mas apesar dele. No dia seguinte, Maia disse que o governo
precisa "fazer política" e "assumir a importância da aprovação da
reforma."
Em maio, o governo conseguiu aprovar pautas de menor
relevância, como a transferência da Junta Comercial do Distrito Federal,
que estava sob controle da União, para o governo estadual. E sofreu
derrotas significativas, como o retorno do Conselho de Controle de
Atividades Financeiras (Coaf) para o ministério da Economia -
contrariando os interesses do ministro da Justiça, Sérgio Moro.
No dia 28, dois dias depois das manifestações de rua am apoio a
Bolsonaro, nas quais o Legislativo e o Judiciário foram alvo, os chefes
dos três Poderes se reuniram para e firmaram um "pacto". Apesar da
postura reticente de Maia em aderir ao pacto, a reunião refletiu no
"humor" da Câmara, com a aprovação de pautas de interesse do governo. O
ritmo, no entanto, voltou a cair no início de junho, a partir da
divulgação das supostas trocas de mensagens entre Moro e o procurador da
República Deltan Dallagnol.
Política ao Minuto com informações do jornal O Estado de S. Paulo
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