Arte: Carlos Lyra
Arte: Carlos Lyra

O endividamento deixou de ser um problema restrito às famílias de baixa renda e passou a atingir brasileiros de diferentes classes sociais. Mas, por trás dos números, existe um cenário ainda mais preocupante: jovens e trabalhadores com menor poder aquisitivo estão entre os grupos mais vulneráveis ao superendividamento, enquanto o cartão de crédito se consolida como o principal instrumento de uma dívida que cresce junto com as dificuldades de fechar as contas no fim do mês.

Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mostram que 81,6% das famílias brasileiras tinham algum tipo de dívida a vencer em outubro de 2026. Entre os consumidores endividados, 48,8% acumulavam débitos em atraso há mais de 90 dias. Outro dado chama atenção: 19,3% das famílias comprometiam mais da metade da renda mensal com o pagamento de dívidas.

O levantamento considera compromissos financeiros como cartão de crédito, cheque especial, carnês, crédito consignado, empréstimos pessoais e financiamentos. A pesquisa é realizada mensalmente nas capitais brasileiras e no Distrito Federal, com aproximadamente 18 mil consumidores.

Baixa renda concentra o maior risco

Embora o endividamento esteja presente em todas as classes sociais, as famílias com menor renda enfrentam as maiores dificuldades para manter os pagamentos em dia. Em setembro de 2026, o percentual de endividados entre aqueles que recebiam até três salários mínimos chegou a 84,6%. Na faixa de três a cinco salários mínimos, o índice foi de 83,3%.

Entre as famílias com renda de cinco a dez salários mínimos, o endividamento alcançou 79,3% em outubro, enquanto entre aquelas que recebiam acima de dez salários mínimos o percentual ficou em 71,5%.

A diferença fica ainda mais evidente quando o assunto é a capacidade de quitar os compromissos financeiros. Segundo dados do Banco Central, dos 15,8 milhões de brasileiros classificados como endividados de risco em dezembro de 2024, 11,6 milhões tinham renda de até dois salários mínimos, o equivalente a 73% do total.

O cenário demonstra que, embora pessoas de diferentes rendas contraiam dívidas, a população mais pobre tem menos margem financeira para absorver imprevistos, enfrentar juros e reorganizar o orçamento.

Jovens entram na zona de maior vulnerabilidade

A idade também aparece como um fator importante para compreender a nova geração de endividados. De acordo com o Banco Central, brasileiros com até 30 anos apresentam os maiores níveis de risco de superendividamento entre os grupos etários analisados.

A expansão do acesso ao crédito entre os jovens, especialmente por meio de cartões e empréstimos pessoais, ampliou as possibilidades de consumo, mas também trouxe novos desafios financeiros. A facilidade para contratar crédito nem sempre vem acompanhada de planejamento ou conhecimento sobre os custos envolvidos nas operações.

Na outra ponta, os brasileiros acima dos 50 anos apresentam uma composição diferente das dívidas, com maior participação do crédito consignado. A modalidade tem presença significativa nesse grupo em razão do acesso facilitado por vínculos empregatícios, aposentadorias e benefícios.

Cartão de crédito: o principal vilão do orçamento

Se existe um protagonista na nova geração de endividados, ele é o cartão de crédito. Em 2026, 84,9% das famílias endividadas declararam possuir compromissos nessa modalidade, contra 78,4% em 2019, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

O crescimento não se limita ao cartão. O crédito pessoal também ganhou espaço, passando de 8,3% para 12,6% das famílias endividadas no período. Já os carnês representam 16% dos compromissos financeiros, enquanto o financiamento da casa aparece em 9,7% e o crédito consignado em 6,6%.

Outro indicador que revela a dimensão do problema está no uso das modalidades de cartão que envolvem cobrança de juros. Entre 2020 e 2024, o número de brasileiros que utilizaram o rotativo ou o parcelamento da fatura saltou de 34 milhões para 52,8 milhões.

No mesmo intervalo, a quantidade de pessoas que recorreram ao crédito pessoal não consignado aumentou de 13,3 milhões para 41,7 milhões.

Os números indicam uma mudança no comportamento financeiro: parte expressiva dos brasileiros tem recorrido ao crédito não apenas para adquirir bens de maior valor, mas também para manter despesas cotidianas e complementar a renda quando o dinheiro não é suficiente para chegar ao fim do mês.

Uma dívida que acompanha o brasileiro por anos

O problema também está na duração dos compromissos financeiros. Em setembro de 2026, 33,8% das famílias brasileiras acumulavam dívidas há mais de um ano, sinalizando que uma parcela dos consumidores convive com parcelas e obrigações financeiras por períodos prolongados.

O retrato da nova geração de endividados mostra, portanto, um fenômeno que vai além da falta de controle sobre os gastos. A combinação entre renda insuficiente, facilidade de acesso ao crédito, juros e despesas recorrentes cria um ciclo no qual muitos brasileiros precisam contrair novas dívidas para conseguir pagar as antigas.

Com o cartão de crédito na liderança, os jovens entre os grupos mais vulneráveis e as famílias de baixa renda concentrando a maior parte dos casos de endividamento de risco, o desafio brasileiro já não é apenas consumir menos, mas recuperar a capacidade de organizar o orçamento sem depender constantemente de dinheiro emprestado.

Blog JURU EM DESTAQUE com Polêmica Paraíba - Adriany Santos