Facções criminosas miram influência em eleições nas cinco regiões do país
As
autoridades estaduais e federais brasileiras têm indícios de que as
facções criminosas que atuam no país já agem para tentar influenciar o
processo eleitoral em pelo menos nove estados, espalhados pelas cinco
regiões do Brasil, segundo documentos e relatos obtidos pelo UOL.
Essa
relação pode ser ainda maior porque, na grande maioria dos casos, as
investigações sobre as tentativas das facções de se infiltrarem no mundo
político são conduzidas sob enorme sigilo.
De acordo com o
coordenador-geral de Defesa Institucional da Polícia Federal, Thiago
Borelli, o temor de que as facções influenciem as eleições nunca foi tão
grande. “Nossa preocupação é maior neste ano. Infelizmente, em que pese
os esforços para reprimir a criminalidade, a gente percebe que houve um
crescimento no poder das facções no país”, diz Borelli.
O delegado acrescenta que as três principais preocupações das autoridades em relação à ação das facções nas eleições são: financiamento
ilegal de candidatos ou partidos, candidaturas de integrantes de
facções ou de pessoas ligadas a elas, e ainda a capacidade de coagir
eleitores a votar em candidatos apoiados por essas organizações.
Confira abaixo um panorama do risco de influência das facções criminosas nas eleições de cada uma das cinco regiões do país.
Sudeste: lar das maiores facções coleciona suspeitos
Investigadores
de São Paulo e Rio de Janeiro revelaram que pelo menos 20 candidatos
(dez em cada estado) são investigados por suas supostas ligações com
facções criminosas como o CV (Comando Vermelho) e o PCC (Primeiro Comando da Capital).
O
tema é tratado com sigilo pela maioria das pessoas envolvidas nos
casos. Em São Paulo, a polícia tenta identificar os objetivos da ligação
entre os candidatos com criminosos.
Um dos casos que chamou a
atenção dos investigadores foi a candidatura de um filiado ao PTC,
partido do senador e ex-presidente Fernando Collor de Mello. Segundo
promotores, ele é irmão de um rapper que mantém ligações com o PCC. Os
nomes da dupla foram mantidos sob sigilo para não prejudicar as
investigações.
Enquanto essas suspeitas ainda são investigadas, o
MP e a Justiça de SP afirmam que já há pelo menos um caso concreto de
ligação entre o PCC e a política em território paulista: Ney Santos (PRB), eleito prefeito de Embu das Artes em 2016.
Santos
teve duas passagens criminais pela polícia antes de virar prefeito. Em
1999, ele foi preso por receptação e formação de quadrilha. Em 2003, por
roubo a banco. Em 2005, foi solto por falta de elementos probatórios,
sem nunca ter sido condenado criminalmente.
Em 2009, ele se filiou
ao PSC e, três anos depois, foi eleito vereador. Em 2016, foi acusado
pelo Ministério Público de integrar o PCC e de ter cometido os crimes de
lavagem de dinheiro e associação ao tráfico de drogas. Mas, em outubro
daquele ano, acabou eleito prefeito da cidade.
Santos só assumiu a gestão municipal porque conseguiu uma liminar expedida
pelo ministro Marco Aurélio Mello, do STF (Supremo Tribunal Federal).
Em 2018, porém, ele foi declarado inelegível e afastado do cargo, a
partir de uma ação por abuso de poder econômico.
A reportagem
pediu entrevistas com o assessor de Ney Santos, mas ele não retornou.
Uma desembargadora de São Paulo confirma: ainda há processos tramitando
contra o ex-prefeito.
Justiça eleitoral barra candidatura de funkeiro investigado no Rio
No Rio, a situação ganha contornos ainda mais complexos porque, além da atuação de facções como o CV, as milícias representam uma ameaça já conhecida. As autoridades acompanham candidatos suspeitos de colaborarem de alguma maneira com facções e milícias.
Em entrevista concedida ao UOL,
o general e secretário de Segurança do Rio, Richard Nunes, afirmou que
algumas candidaturas suspeitas já foram identificadas e que a intenção é
impedir que políticos vinculados a esses grupos criminosos cheguem a
ser diplomados.
Uma reportagem publicada pelo jornal “O Globo”, no último dia 9, revelou que as autoridades mapearam 300 pontos sob influência do tráfico ou de milícias que funcionariam como “currais eleitorais”.
Em
algumas dessas áreas, apenas candidatos autorizados pelo chefe do
tráfico ou da milícia podem fazer campanhas. Muitas vezes, segundo a
reportagem, o poder paralelo cobra taxas para que candidatos possam
fazer suas campanhas nessas regiões.
Além de controlar o acesso de
candidatos, facções criminosas estariam tentando infiltrar pessoas
ligadas a elas entre os possíveis eleitos. Um dos candidatos já
investigado por suas supostas ligações com o CV foi o funkeiro Fabiano
Baptista Ramos, conhecido como MC Tikão (SD-RJ), que pretendia disputar
uma vaga na Câmara dos Deputados.
Nas últimas semanas, ele foi
flagrado fazendo um show para um público em que havia homens com fuzis
em mãos. A Polícia Civil investiga se o local era um ponto de encontro
dos chefes do CV.
CANTOR PRESO POR LIGAÇÃO COM TRÁFICO TEVE CANDIDATURA INDEFERIDA
Durante
a apresentação, o funkeiro pediu a liberdade de traficantes e cantou a
música “Faixa de Gaza”, em que cita nomes de criminosos e exalta a
facção. Além disso, ele também foi flagrado fazendo as letras C e V com
as mãos durante o show.
À polícia, o candidato disse que estava
embriagado ao longo da apresentação e que não viu pessoas armadas no
local. Mesmo assim, ele foi indiciado por apologia ao crime.
A
exaltação do CV em suas músicas, porém, não é a única ligação entre
Tikão e o CV investigada pela Polícia Civil do Rio. Em 2017, ele foi preso por suspeita de ajudar na fuga do traficante Rogério Avelino, o Rogério 157, um dos chefes do tráfico na favela da Rocinha.
À
época, Tikão negou envolvimento na fuga de 157. Em abril deste ano, ele
se filiou ao Solidariedade. No último dia 13, a Justiça eleitoral
indeferiu a sua candidatura a deputado federal.
Norte: guerra de facções faz PM pedir apoio de tropas federais
Na região Norte, o Amazonas é o berço daquela que é considerada a terceira mais poderosa facção criminosa do país: a FDN (Família do Norte). Durante
vários anos, o grupo comandou, sozinho, uma das principais rotas de
escoamento da cocaína produzida pela Colômbia e pelo Peru: o rio
Solimões. Hoje, tem rivais.
Com a prisão dos seus principais
chefes, a FDN passou também a controlar os presídios do estado. Em 2017,
a organização ordenou, segundo investigações da Polícia Civil, o massacre nas cadeias amazonenses que resultou na morte de 56 detentos.
Documento obtido pelo UOL mostra que o temor em relação a essa guerra fez com que a PM reconhecesse que não teria condições de garantir a segurança do pleito sozinha e pedisse o apoio de tropas federais.
Arte/UOL
No
último dia 10, o TSE aprovou o envio de tropas federais para 25
municípios do estado, entre eles Manaus, epicentro do comando da FDN, e
Tabatinga, principal porta de entrada da droga colombiana e peruana na
Amazônia.
Traficante condenado ganha cargo público e vira cabo eleitoral
No
Amazonas, além dos potenciais conflitos entre facções, outra
preocupação é a atuação de traficantes nas campanhas eleitorais. No mês
passado, os juízes do TRE do estado ordenaram que um homem apagasse
postagens em uma rede social consideradas ofensivas ao senador e
candidato a governador Omar Aziz (PMN).
O internauta em questão
era Carlos Condera Nascimento Filho, 35, um traficante de drogas
condenado em julho deste ano e apontado pela Polícia Civil como um dos
principais distribuidores de drogas nas zonas norte e leste de Manaus.
Em
2013, ele foi preso pela PM. Com ele, os policiais encontraram
aproximadamente 600 gramas de cocaína. Condera foi denunciado por
tráfico de drogas, mas foi solto em outubro de 2013, graças a um habeas
corpus.
Em maio de 2015, Condera foi preso novamente. Ele apareceu
em conversas telefônicas interceptadas, com autorização da Justiça,
comandando a distribuição de drogas e o recolhimento de dinheiro em
bocas de fumo de Manaus.
Em um relatório produzido pela Polícia
Civil, Condera, cujo apelido é “Garotinho”, é apontado como o principal
“cabeça” de uma organização criminosa especializada na distribuição de
drogas em Manaus. Ele foi solto novamente em fevereiro de 2016, mas
continuou respondendo ao processo iniciado em 2013 por tráfico de
drogas.
Arte/UOL
De chefe do tráfico a funcionário público
A
sorte de Condera começou a mudar a partir de outubro de 2017. Amazonino
Mendes (PDT) assumiu o governo após vencer as eleições suplementares
realizadas naquele ano.
Dois meses depois, em dezembro de 2017,
Carlos Condera foi nomeado como assessor na Sejusc (Secretaria de Estado
de Justiça e Direitos Humanos). No cargo, tinha direito a um salário
bruto de R$ 4.200.
Em fevereiro deste ano, Condera, que sempre
teve uma vida política agitada, finalmente se filiou a um partido
político. Escolheu o Solidariedade, partido presidido no Amazonas pelo
ex-vice-governador Bosco Saraiva, que comandou a SSP (Secretaria de
Segurança Pública) no início do governo de Amazonino Mendes com a missão
de conter o avanço da FDN. Saraiva é candidato a deputado federal.
Arte/UOL
Em
junho deste ano, cinco anos após sua primeira prisão, Carlos Condera
foi condenado por tráfico de drogas. Sua pena foi fixada em dois anos de
reclusão, mas, como o processo prescreveu, sua punição foi extinta. Em
agosto deste ano, Condera pediu exoneração.
Nas redes sociais, ele posta vídeos e fotos em apoio à reeleição de Amazonino Mendes e à eleição de Bosco Saraiva.
A reportagem do UOL tentou
fazer contato direto com Carlos Condera e Bosco Saraiva para comentar
essa reportagem. Nenhum dos três atendeu às ligações.
O UOL enviou
perguntas tanto ao governo do estado do Amazonas como ao comando da
campanha à reeleição de Amazonino Mendes. Por meio de nota, o governo do
estado disse repudiar “qualquer tentativa de ligação do nome do
governador Amazonino Mendes com o tráfico de drogas”.
A nota
prossegue, dizendo que “o governador sempre combateu o narcotráfico em
seus quatro mandatos e que Carlos Condera não tem participação oficial
em sua campanha à reeleição”. O texto termina afirmando que “não havia
impedimento legal contra a contratação de Carlos Condera”.
Por
telefone, o advogado de Condera, Emerson Siqueira Faria, disse que seu
cliente é inocente e que não pode falar sobre as interceptações
telefônicas feitas pela polícia, por se tratar de uma investigação ainda
em curso.
Guerra de facções preocupa eleitores e autoridades no Acre
O Acre faz
fronteira com dois importantes produtores de cocaína: Bolívia e Peru.
Sua localização estratégica fez com que o estado virasse alvo da disputa entre o PCC, o Comando Vermelho e uma facção local conhecida como Bonde dos 13.
Em documentos obtidos pelo UOL, juízes eleitorais do estado fazem relatos desesperados sobre o temor em relação à atuação das facções nas eleições.
Em
um trecho, um juiz eleitoral do município de Sena Madureira relata que a
diretora de uma escola onde funciona uma seção eleitoral foi procurada
por moradores da região para que uma nova seção eleitoral fosse criada
no local.
O
temor era de que, se uma nova seção não fosse fosse criada, eleitores
que fazem parte de uma determinada facção teriam que se deslocar a áreas
controladas por grupos rivais para votar, o que poderia gerar
conflitos.
Em outro trecho do documento, autoridades do Acre
levantam até a hipótese de que facções poderiam estar forçando eleitores
a votarem para determinados candidatos.
Em gravações, traficantes detalham plano de entrar na política
Um
promotor do MP-AC (Ministério Público do Acre), que conversou com a
reportagem sob a condição de anonimato, revelou que intercepções
telefônicas realizadas com autorização da Justiça mostraram que membros da facção Bonde dos 13 conversavam, em 2017, sobre um plano para estender seu poder à política local.
“Uma
das estratégias envolvia a utilização de candidaturas de pessoas
ligadas à facção, mas que tivessem o nome limpo. Assim, evitariam que as
candidaturas fossem impugnadas”, disse o promotor.
“Quando você
tem organizações criminosas que congregam milhares de integrantes, é
lógico que elas vão tentar influenciar na eleição”, acrescentou.
No
último dia 10, a pedido do TRE-AC (Tribunal Regional Eleitoral do
Acre), o TSE autorizou o envio de tropas federais para 11 municípios do
estado.
Nordeste: restrições a comícios e criminosos infiltrados
A
região Nordeste viu seus índices de violência aumentarem na medida em
que as facções criminosas avançaram sobre a região em uma disputa
sangrenta por mercado e pontos de escoamento de drogas para o exterior.
Há indícios também de que facções estejam tentando coagir eleitores a não votarem em determinados candidatos.
No
Ceará, por exemplo, um “salve” (comunicado) atribuído ao Comando
Vermelho determinou que não seriam permitidos comícios de um grupo de
candidatos, entre eles, Jair Bolsonaro (PSL), nas áreas controladas pelo
grupo. A mensagem fez com que o estado solicitasse apoio de tropas
federais durante as eleições.
“Essas facções estão se ramificando
no Brasil e, claro, elas querem se fortalecer. E só há uma forma de
fazer isso, que é através do aparelhamento do Estado”, afirmou o
procurador-geral de Justiça do Ceará, Plácido Rios.
Gravações revelam atuação de criminosos no Rio Grande do Norte
No
Rio Grande do Norte, a situação parece ser ainda mais crítica. Se, no
Ceará, traficantes tentam impedir a realização de campanhas em áreas sob
sua influência, no estado vizinho, os traficantes querem infiltrar criminosos na política local.
Interceptações
telefônicas feitas pelo MP-RN (Ministério Público do Rio Grande do
Norte) com autorização da Justiça, em 2016, captaram conversas entre
dois suspeitos de integrarem a facção Sindicato do Crime, uma das mais
fortes do estado.
Alan Marcos Zico Fonseca, conhecido como Alan
Bigodinho, sugere a Raimundo Kleber Benicio da Costa, o “Cego de Santa
Cruz”, que a organização deveria infiltrar alguém na política. O colega
dá risada e diz que isso estava sendo providenciado.
Ele conta
que, durante as eleições daquele ano, foi procurado por um candidato a
vereador do município de Santa Cruz (a 117 quilômetros de Natal) pedindo
autorização para ingressar em uma área controlada pela facção para
“comprar votos”:
CONVERSAS MOSTRAM PLANO DE PRESOS PARA ENTRAR NA POLÍTICA NO RIO GRANDE DO NORTE
Allan Bigodinho: Sabe o que era para nós ter feito? Era pra ter infiltrado um pessoal nosso nessa política aí.
Cego de Santa Cruz: (risos)
Mas está tendo. Tem um lá na Santa [município de Santa Cruz]. Quem
ligou pra mim foi Edu. Ligaram pra mim, tá ligado? Os meus vaqueiros é
que foram lá, entendeu? Os vereador (sic) que pediram pra subir lá, pra
comprar votos, entendeu?
Allan Bigodinho: Demorou…
Cego de Santa Cruz: Aí
disse que, se ele ganhar, ele disse que fortalece lá a quebrada. Ele
disse: “pode deixar que, se eu ganhar, eu tô lá por vocês”.
O
candidato em questão não chegou a ser identificado pelos
investigadores. “Não conseguimos identificar de quem é que eles estavam
falando”, afirma uma fonte ouvida pelo UOL. “Não sabemos, por exemplo, se essa pessoa foi ou não eleita.”
Voto perigoso
“A
gente teme que possa haver conflitos violentos se eleitores
identificados como de uma determinada facção forem votar em áreas
controladas por grupos rivais. Isso é muito grave e pode colocar em
risco a vida de outras pessoas”, afirma a mesma fonte, que disse
também que ainda não foram encontrados indícios claros de que as
facções que atuam no estado estejam tentando infiltrar criminosos na
política neste pleito.
Um relatório produzido pelo MP-RN indica
que 33 dos 167 municípios do estado estão sob influência de facções como
Sindicato do Crime e PCC. O TSE autorizou o envio de tropas federais
para 97 municípios potiguares. Ainda não se sabe a quantidade de
militares que será deslocada.
A reportagem tentou contato por
telefone com os advogados de Alan e Raimundo com base no CNA
(Cadastro Nacional dos Advogados) mantido pela OAB (Ordem dos Advogados
do Brasil), mas até a última atualização desta reportagem, as ligações
não haviam sido atendidas.
Centro-Oeste: compra de votos de brasileiros no Paraguai
No
Centro-Oeste, um dos estados que inspiram maior preocupação é Mato
Grosso do Sul, que faz fronteira com a Bolívia e o Paraguai, grandes
produtores de cocaína e maconha. A facção predominante na região é o
PCC.
A tentativa de influência do narcotráfico na política é
assunto tratado com receio por juízes e promotores responsáveis pelas
eleições. A maioria deles evita falar sobre o tema publicamente. “Não dá para falar sobre esse tipo de assunto por telefone. A gente vive numa situação muito complicada aqui”, disse um promotor procurado pela reportagem.
“A
nossa preocupação com isso é enorme. Nós temos a maior facção do Brasil
atuando aqui. Não temos como subestimar isso”, afirmou o
procurador-geral de Justiça de Mato Grosso do Sul, Paulo Passos.
Passos
afirma que as equipes de inteligência do MP-MS (Ministério Público de
Mato Grosso do Sul) estão fazendo um mapeamento das candidaturas
possivelmente vinculadas a facções, mas, como os casos ainda tramitam em
sigilo, mais informações não poderiam ser divulgadas.
Uma fonte que falou ao UOL sob
a condição de anonimato e que mora em Ponta Porã, na fronteira entre o
Brasil e o Paraguai, diz que uma das principais preocupações das
autoridades locais é com uma prática antiga naquela região: a compra de
votos de eleitores brasileiros que moram do outro lado da divisa.
“Muitos eleitores brasileiros moram em Pedro Juan Caballero [no Paraguai]. É muito comum que os candidatos comprem esses votos e transportem esses eleitores no dia da votação de um país para o outro. A
questão é: de onde vem esse dinheiro?”, afirma a fonte, que aponta o
tráfico de drogas como uma das principais fontes de renda na região.
O
temor em relação à compra de votos em solo paraguaio foi reportado ao
TRE-MS (Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul) por juízes
eleitorais que atuam na região, como mostra um documento obtido pelo UOL.

Sul: polícia investiga "mesadas" de facções a políticos
A reportagem do UOL conseguiu
apurar que, pelo menos no Rio Grande do Sul e no Paraná, existem
investigações em curso apurando a tentativa de infiltração de criminosos
nas eleições deste ano.
“A presença do crime organizado na política já é um fato consolidado. Já
existem, inclusive, afastamentos determinados pelo Poder Judiciário de
agentes políticos com envolvimento com o crime organizado”. A afirmação é
do desembargador José Laurindo de Souza Netto, professor e supervisor
pedagógico na Escola da Magistratura do Paraná.
Segundo o
desembargador, há casos sendo investigados em que políticos receberiam
“mesada” de facções e outros políticos que atuariam junto à população
carcerária, pedindo votos de familiares prometendo ajuda.
Souza
Netto aponta que há interceptações telefônicas feitas com autorização da
Justiça que demonstram o interesse das facções em atuar nos bastidores
da política.
“Há gravações em que líderes do PCC falavam sobre a
intenção da facção de se infiltrar na política. Inclusive aqui no
Paraná, onde é um fato consolidado”, acrescenta o desembargador.
No
Rio Grande do Sul, entre as sete facções regionais, muitas são aliadas
ou inimigas das duas maiores do país, PCC e CV. E essas menores também
têm poder de fogo, segundo investigações.
O Sul do país convive com a ameaça do PCC, muito forte no Paraná, e com os conflitos entre grupos de traficantes regionais,
segundo o FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública). Ao todo, dez
facções criminosas espalhadas por Paraná, Rio Grande do Sul e Santa
Catarina disputam entre si o domínio do tráfico.
No Rio Grande do
Sul, fontes apontaram que há pelo menos um caso em andamento que apura o
envolvimento entre traficantes e políticos. A investigação ocorre em
uma cidade da região metropolitana de Porto Alegre.
“Essa
investigação é referente a um advogado que faria uma ponte entre o crime
organizado e a Câmara Municipal de uma determinada cidade”, disse à
reportagem o delegado Emerson Wendt, chefe da Polícia Civil gaúcha, que,
por motivos de sigilo, não pode fornecer mais detalhes sobre o caso.
Por que as facções querem o poder político?
Para
os pesquisadores Bruno Paes Manso (USP) e Julita Lemgruber
(Universidade Cândido Mendes), a busca por poder político é uma forma de
esses grupos manipularem recursos do estado para beneficiar as
atividades ilícitas praticadas por elas.
“Toda organização criminosa vai tentar
se aproximar do estado para continuar operando. Durante muito tempo,
isso aconteceu a partir do suborno, do chamado arrego a policiais,
fiscais, etc. Agora, essas facções estão com muito mais dinheiro em
caixa. Essa disponibilidade de recursos dá muito mais poder e permite
que eles tentem ingressar na vida política para ter ainda mais acesso ao estado”, avalia Paes Manso.
“Uma
coisa é você ter acesso ao policial. Outra coisa é ter acesso ao mundo
político. É uma outra instância de poder. A gente percebia isso com
relação às milícias no Rio. Imagina o que é ter um miliciano político
impondo a sua vontade sobre a polícia numa determinada área. É muito
mais grave”, concorda Julita Lemgruber.
O procurador-geral de
Justiça de Mato Grosso do Sul, Paulo Passos, lembra que ocupar espaços
no mundo político também permitiria aos criminosos controlar ou
influenciar a formulação de leis e políticas públicas.
“Ao final, é
na política que são definidas as leis e a forma como o estado vai
implementar suas políticas de segurança, por exemplo. Ter controle sobre
essa esfera de poder é importante”, afirma.
Bruno Paes Manso diz
que ainda é cedo para dizer que o Brasil está no nível do que estudiosos
chamam de “narco-estado”, nações com instituições gravemente afetadas
pelo poder do narcotráfico, mas diz que o avanço das facções criminosas
na vida política do Brasil liga o sinal de alerta. “É preciso repensar a
forma como se dá o combate a essas facções”, opina.
Fonte: UOL - Publicado por: Amara Alcântara





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