Com 54 mortes em seis meses Rocinha vive guerra mais violenta dos últimos quatro anos
| Tiroteios são constantes na comunidade que conta com cerca de 100 mil habitantes - (Foto: Arquivo) |
A Rocinha vive nos últimos seis meses seu período mais
violento desde que as estatísticas criminais da área passaram a ser
concentradas na 11ª DP, instalada na favela em dezembro de 2013. De
janeiro de 2014 para cá, 91 pessoas foram assassinadas, segundo os
registros dessa delegacia. Desse total, 54 — 60% — foram mortes
violentas ocorridas de setembro do ano passado, quando teve início mais
uma guerra do tráfico, até ontem. Atualmente, as facções pararam de se
enfrentar, e os confrontos, agora, se dão principalmente com a polícia.
Moradores da Rocinha acusam agentes do Batalhão de Choque da Polícia
Militar, que faz ação continuada na comunidade, pelas mortes de oito
jovens na saída de um baile funk, no último dia 23, e de Davidson Farias
de Sousa, na quinta-feira.
Dados do aplicativo Fogo Cruzado revelam que, de janeiro até
ontem, o Rio teve 280 horas de tiroteios. De acordo com os números, a
Praça Seca, na Zona Oeste da cidade, é a que mais sofre, com 67 horas e
56 minutos de disparos envolvendo milicianos, traficantes e policiais.
Foi no local que bandidos de uma milícia foram flagrados pelo
helicóptero da TV GLOBO há três dias participando de um confronto à luz
do dia.
Em segundo lugar no levantamento ficou a Rocinha, do outro lado da
cidade, na Zona Sul, com 44 horas e 22 minutos de disparos, somados
todos os registros feitos no aplicativo, uma plataforma colaborativa que
reúne informações de cidadãos, da polícia e da imprensa. Os números
foram divulgados ontem pelo RJ-TV.
Apenas este ano, 28 pessoas morreram nos confrontos praticamente
diários na Rocinha, que, segundo o Censo das Favelas, produzido em 2010
pelo governo do estado, soma 100 mil habitantes — o número do IBGE (70
mil moradores) é desacreditado pelos próprios recenseadores do órgão que
atuam na região.
Pode-se dizer que é o período mais sangrento da história da Rocinha.
Em outro período muito violento, em 2004, quando traficantes do Vidigal
disputavam as bocas de fumo da favela vizinha, 12 pessoas chegaram a ser
mortas num espaço de duas semanas. Agora, o mesmo número de vítimas foi
alcançado nos últimos oito dias. Se foram assassinadas 28 pessoas nos
primeiros três meses deste ano, em 2004 morreram 27 em oito meses. No
sábado passado, morreram oito pessoas, a maioria jovens, em confrontos
com a polícia. Os moradores alegam que os policiais do Batalhão de
Choque chegaram atirando na saída de um baile funk.
Estou com medo de sair de casa desde a semana passada. Eu estava no
baile da Roupa Suja no sábado (dia 23) quando o Batalhão de Choque
chegou cantando pneu e atirando bombas de efeito moral. Todos que
correram para aquele beco foram mortos pela polícia — afirma um
adolescente de 16 anos.
A professora da rede pública e líder comunitária Adriana Pirozzi
reclama do abandono da favela por parte do poder público. Segundo ela,
as operações policiais não respeitam o horário escolar e momentos em que
a comunidade está cheia de moradores nas ruas, na ida ou na volta do
trabalho, como aconteceu na quinta-feira, quando Davidson foi morto.
O Globo
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