quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Quando a ciência encontra Deus

Células-tronco, origem da vida e outros temas fizeram parte de encontro que reuniu no Vaticano religiosos e cientistas latino-americanos - entre eles brasileiros 

É uma demonstração de que, apesar das divergências, a Igreja Católica está aberta a ouvir o que diz a comunidade científica mundial sobre assuntos importantes da atualidade

Quando a ciência encontra Deus
Mesmo para um ateu como Stevens, ser convidado a falar de ciência dentro do Vaticano é um momento distinto. Historicamente, a relação entre a comunidade científica e os religiosos foi pautada por divergências, algumas permanentes e, outras, superadas, porém responsáveis por grandes cicatrizes. O caso mais emblemático foi o da condenação do astrônomo italiano Galileu Galilei e sua reabilitação somente séculos depois (leia box). Participar de um encontro no qual o objetivo é ouvir, no caso da Igreja, e ser ouvido, no caso dos pesquisadores, é sem dúvida uma ocasião única na carreira de qualquer pesquisador. “Fiquei surpreso. Nunca me imaginei falando no Vaticano”, diz. “Foi uma experiência curiosa.”
O cientista foi convidado a falar sobre seu trabalho mostrando como o vírus zika afeta células precursoras do sistema nervoso. A pesquisa, que teve a participação da UFRJ, do Instituto D´Or e da Unicamp (SP), foi publicada na Science, uma das mais respeitadas revistas científicas do mundo. Para chegar a essa conclusão, o grupo usou células-tronco pluripotentes induzidas, estruturas obtidas por meio da reprogramação de células adultas, retiradas da pele, por exemplo, e manipuladas geneticamente de forma a chegarem a um estado semelhante ao de uma célula embrionária (ainda sem especialização). Além dele, mais três brasileiros falaram durante o encontro, que durou dois dias: o físico Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências, o também físico Vanderlei Bagnato, da Universidade Federal de São Carlos, e o engenheiro agrônomo Elibio Rech, da Embrapa.
O tema do encontro, que reuniu cientistas da América Latina, foi biologia celular e genética, assunto dos mais relevantes na agenda científica atual. Entre as discussões, houve uma sobre a origem da vida, um dos pontos sobre os quais Igreja e ciência divergem. Quem o levou à plateia foi o bioquímico chileno Rafael Vicuña. Na audiência estava o arcebispo argentino Marcelo Sorondo, chanceler da academia. Assim como Vicuña, todos os outros cientistas falaram livremente, sem pressão ou interrupção mesmo quando apresentaram visões diferentes das defendidas pela Igreja. “Eu me senti como se estivesse em uma reunião científica normal. Não houve qualquer tipo de intervenção religiosa”, conta Stevens.
O respeito ao que diz a ciência faz parte dos princípios da academia católica. Mas a postura do Papa Francisco de sintonia com os tempos atuais tem servido de estímulo ao debate livre. Pontos de atrito continuam existindo, é verdade. Em sua mensagem aos pesquisadores, Francisco lembrou o Papa João Paulo II e sua recomendação, por exemplo, de que não deveria haver o que chamou de manipulação genética indiscriminada. No entanto, o Papa pontuou: “A criatividade humana não pode ser suprimida. Se um artista não pode ser impedido de usar sua criatividade, também não podem aqueles que possuem talentos particulares para os progressos na ciência de usá-los para servir aos outros”, escreveu Francisco.
Galileu e o brasileiro
Foi com o forte empenho do brasileiro Carlos Chagas Filho que a Igreja Católica promoveu um dos seus mais importantes gestos de conciliação com a ciência. Presidente da Academia entre 1972 e 1988, o cientista trabalhou para que o Vaticano reabilitasse o astrônomo Galileu Galilei, condenado em 1633 pela Inquisição a viver recluso em casa até o fim da vida. Galileu defendia a ideia de que era a Terra que girava em torno do Sol, tese contrária à da Igreja à época, mas que a ciência provou ser verdadeira. Obrigado também a abjurar publicamente, o astrônomo teve sua reabilitação feita pela Igreja em 1992, quando a instituição admitiu que ele estava certo.
FÉ E RAZÃO
O que é a Pontificia Accademia delle Scienze (PAS)
Tem origem na Accademia dei Lincei, fundada em Roma em 1603 como a primeira academia exclusivamente científica do mundo
Galileu Galilei foi integrado como membro em 1610
Depois de acabar com a morte de seu fundador (Federico Cesi), foi restabelecida pelo Papa Pio IX em 1847
FORUM LIVRE
Integrada por 16 cientistas (oito mulheres e oito homens), eleitos e depois nomeados pelo Papa
Entre seus objetivos está o de estimular o debate entre fé e razão, garantindo liberdade de visões
Temas relevantes, como aquecimento global e saúde e pobreza, estão na pauta
As reuniões, que contam com o apoio do Papa Francisco, ocorrem na Casina Pio IV.
As reuniões, que contam com o apoio do Papa Francisco, ocorrem na Casina Pio IV
Istoé

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