“Saída do Acordo do Clima de Paris torna Estados Unidos um país isolado na questão climática”
Segundo Suzana Kahn, do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), decisão americana pode levar à união de demais nações para combater emissões
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| Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anuncia decisão de retirar o país dos acordos climáticos de Paris durante discurso na Casa Branca, em Washington - 01/06/2017 - (Brendan Smialowski/AFP) |
O anúncio feito pelo presidente americano Donald Trump sobre a saída dos Estados Unidos do Acordo do Clima de Paris,
nesta quinta-feira, faz do país uma nação isolada em questões
climáticas. Segundo Suzana Kahn, presidente do comitê científico do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), decisão pode levar as quase 200 nações que assinaram o Acordo
a se unir e ganhar uma força considerável para combater as emissões de
carbono. China e União Europeia poderão despontar como importantes
lideranças políticas no tema.
“A repercussão do anúncio foi politicamente desastrosa.
Comunicados feitos por diversas nações, incluindo a China, maior
poluidora mundial e atual líder na busca por energia limpa, sinalizam
que os países não irão abandonar o Acordo e devem continuar
comprometidas com a redução das emissões até o fim deste século. Os
Estados Unidos são o segundo maior poluidor do globo — contudo, não é o
único e, se todos os países estiverem unidos para combater os
combustíveis fósseis, terão muita força e o impacto será considerável. A
sensação que temos, após o anúncio, é que os americanos ficarão
isolados. Resta saber qual o movimento dos demais países nos próximos
dias”, afirmou Suzana, que é professora do Instituto Alberto Luiz
Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Impacto ambiental
O comprometimento das nações signatárias do Acordo de Paris é
um esforço coletivo para limitar o aumento das temperaturas mundiais em
menos de 2°C, idealmente, em 1,5°C, até o fim deste século. O desafio
dos países, portanto, é balancear as emissões de carbono, principalmente
as provenientes da queima de combustíveis fósseis que têm mais
influência no clima, para não ultrapassar o limite. De acordo com a
especialista, Estados Unidos e China, sendo os maiores poluidores
mundiais, têm papel importante para o equilíbrio mundial das
temperaturas.
“É um problema que os Estados Unidos não tenham interesse
político em reduzir as emissões, o que pode atrasar ainda mais a redução
das temperaturas e tornar ainda mais cara a adaptação a um mundo mais
quente e com eventos extremos, como secas e enchentes”, afirma Suzana.
“Contudo, os objetivos do acordo se estendem por décadas e vão muito
além de um mandato presidencial. É possível que haja um atraso, mas não
um retrocesso.”
Além das emissões, outro ponto previsto pelo Acordo de Paris
é a criação de um fundo anual de 100 bilhões de dólares, financiado
pelos países ricos, a partir de 2020, para manter o aquecimento global
em níveis reduzidos. Esse fundo deve ajudar os países mais pobres que
sofrem as consequências das mudanças climáticas e a saída de uma das
nações mais ricas do planeta do fundo deve minar parte dos recursos.
“A curto prazo, teremos menos dinheiro para auxiliar os
países mais vulneráveis, como pequenas ilhas e regiões muito pobres, que
sofrem o impacto direto das mudanças climáticas. Esses países devem
sofrer com a atual decisão americana”, afirma a professora.
Há impacto para o Brasil?
O Brasil não é uma das regiões que tem necessidade dos
recursos do fundo, contudo, por termos uma ampla costa litorânea e
grandes cidades de urbanização caótica, o país é bastante sensível a
pequenas mudanças nas temperaturas. Se elas não forem contidas, o
impacto para os brasileiros deve ser sentido nos próximos anos.
“Uma pequena elevação nos termômetros leva a enchentes,
secas e alagamentos que são catastróficos para nossas cidades. A
população deve sofrer danos ainda maiores nos próximos anos se as
temperaturas não se equilibrarem. Além disso, grande parte de nossa
economia é baseada em recursos agrícolas, um setor que é fortemente
atingido pelas mudanças climáticas. Sem uma redução de temperaturas
podemos esperar secas intensas nas regiões Norte e Nordeste”, diz a
especialista.
O Acordo do Clima de Paris
O acordo, firmado em 2015 na capital francesa por quase 200 países,
pretende limitar o aquecimento global e em grande parte se baseia no
corte do dióxido de carbono e outras emissões resultantes da queima de
combustíveis fósseis. Segundo o pacto, os Estados Unidos se
comprometeriam a reduzir suas emissões em 26% a 28% dos níveis de 2005
até 2025.
Veja

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