Em entrevista exclusiva Chico César fala de política, agronegócio e amor
Em turnê pelo Brasil com o novo álbum “Estado de Poesia”, Chico César fala sobre a conexão com a Paraíba que o levou ao desenvolvimento do disco de inéditas após hiato de seis anos
{arquivo}O disco "Estado de Poesia" está sendo cotado entre os melhores
do ano de 2015. O álbum faz parte de várias listas especializadas.
Chico César é um artista incomum no cenário brasileiro ultimamente. Isso
se configura também pela sua própria trajetória nos últimos anos.
Depois de Francisco, Frevo y Forró, em 2008, Chico César saiu de São
Paulo, cidade onde morou durante 25 anos, e voltou a sua terra natal,
Paraíba, para trabalhar como gestor público de Cultura no município de
João Pessoa e depois no Governo do Estado. Foram seis anos que deixaram
Chico César no “Estado de Poesia” e que se transformou em disco. No
Governo, Chico ficou longe da música, mas a música não ficou longe dele.
Em conexão com a Paraíba as composições foram chegando e chegou também o
amor. Este foi um fato decisivo para atingir o “Estado de Poesia”,
conta o músico. Bárbara Santos, a mulher paraibana por quem Chico se
apaixonou, hoje é sua esposa. Os dois se casaram em João Pessoa no mês
de outubro.
Paraibano feito é, o disco conta com a participação dos artistas da
terra Escurinho, Seu Pereira e Luizinho Calixto. Mas também é
abrasileirado com a voz do baiano Lazzo Matumbi, na faixa “Negão”.
Estado de Poesia, como qualquer outra obra de Chico César, é um álbum de
amor, com declarações apaixonadas e inspiradas. Mas, assim como
qualquer outra obra de Chico César, contém também faixas de grande
relevância social.
Revista NORDESTE: Por que “Estado de Poesia”?
Chico César: Bem, é como me encontro - pela conexão de
meu estado interior com o estado geopolítico onde nasci: a Paraíba. Por
ter regressado a viver aí durante seis anos depois de 25 anos vivendo
em São Paulo. Na Paraíba nasci, fui criança, adolescente, estudante,
jovem. Aí me formei em Jornalismo e antes pude trabalhar no Lunik, a
loja de discos e livros de Catolé do Rocha. Aí viveram meus pais quase
até o fim da vida. E foi bom voltar a viver perto deles, reencontrando
um imaginário e uma subjetividade que se traduziram nessas canções do
disco "Estado de Poesia" e noutras ainda inéditas. Foi bom ficar um
tempo sem fazer um disco de inéditas para fortalecer uma certa
musculatura do compositor. E há, claro, o fator decisivo de eu ter
conhecido Bárbara Santos e por ela me apaixonar. Muitas dessas canções
fiz pra ela, movido por esse amor. Mesmo as que não fiz para ela,
anteriores, ganharam maior motivação e sentido. E assim, creio eu, dão
bastante unidade ao disco em si.
NORDESTE: Você explicou que o disco é dividido em lados A e B. A
primeira parte sobre coisas internas e sobre o amor. Como foi essa
experiência?
César: Na verdade, eu percebi depois de pronto que o
disco ficou meio que assim, dividido. Agora posso dizer, sombreado ou
iluminado pela experiência amorosa e a reivindicação política. No começo
do disco prevalecendo as canções que falam mais do afeto e a partir da
sétima música acentuando-se um olhar mais social, dos pleitos coletivos.
Mas tudo pra mim é amor. Pra mim é um disco com canções de amor entre
pessoas e das pessoas por uma vida melhor de ser vivida por todos. É
tudo amor mesmo.
NORDESTE: Você tem uma música favorita no álbum?
César: Não tenho, não posso dizer que tenha pois não
tenho mesmo. Adoro, por exemplo, "Caracajus" pelo tema e por ser uma
canção de amor que desafia a forma. A letra impõe-se e sustenta a
canção, que através da melodia e da harmonia vai para lugares bem
inusitados em se tratando do que costumamos chamar "canção de amor".
Outra que se impõe em seus 11 minutos de duração é "Reis do
Agronegócio", pela beleza do poema de Carlos Rennó e a urgência do tema.
Mas gosto de todas, sem exceção. E ainda é cedo para manifestar
preferências. Na verdade, como autor posso dizer, o apego pelas canções
vai mudando. Às vezes gostamos mais dessa, depois gostamos mais daquela.
Vai variando.
NORDESTE: Como está sendo a recepção do público?
César: Já fizemos shows em São Paulo, Salvador,
Fortaleza, Belém do Pará, Foz do Iguaçu, Palmas, Boa Vista, Maceió, João
Pessoa... Tem sido excepcional a receptividade por parte do público em
todos os lugares por onde passamos. Sinto que é como se as pessoas
estivessem mesmo esperando um leque de canções novas de minha lavra e as
canções explodissem no peito delas e voltassem iluminadas pra nós que
estamos no palco, pra mim e os músicos. É mágico isso. Creio que a
internet tem sido de grande ajuda para fazer chegar as canções às
pessoas antes que nós cheguemos aonde elas moram com o show. É incrível
ouvi-las cantando várias músicas de cor a plenos pulmões. O rádio perdeu
um pouco esse papel. E o bom disso é que as escolhas são muito
pessoais, menos verticalizadas. Em João Pessoa, particularmente, foi
muito emocionante pois as canções nasceram aí e voltaram pra casa. As
pessoas se reconhecem nelas, celebram-se ao cantar comigo.
NORDESTE: A faixa “Negão”, com participação de Lazzo Matumbi,
aborda a negação de um preconceito que, na verdade, ainda é presente. A
questão racial está sempre presente nos seus discos, o que tem de
diferente nesta faixa?
César: Ah, é natural em mim e no meu trabalho a
presença desse tema. Penso que ele sempre estará pois a sociedade não
muda do dia pra noite. E nesse quesito está demorando a beça.
Infelizmente, as manifestações racistas até tem se radicalizado em nosso
tempo, com agressão a crianças e idosos a caminho de seus cultos de
religiosidade de matriz africana, as redes sociais amplificando o
preconceito contra negros artistas, jornalistas ou atletas com
visibilidade, a ação seletiva das polícias do país inteiro na matança
contra jovens negros pobres. É uma pena que seja assim. Sei que,
infelizmente, ainda farei muitas canções que se juntarão ao leque onde
já estão "Mama África", "Tambores", "Dança", "Mand'ela", "Filá",
"Respeitem meus cabelos, brancos". Convidei Lazzo para cantar comigo por
sentir que a barra que os negros da Bahia enfrentam não é muito
diferente do que enfrentamos no resto do Brasil, na Paraíba inclusive,
apesar dos negros baianos apresentarem uma auto-estima acima da média. E
sou admirador confesso da voz dele, para mim um dos nossos que mais
traz a África brasileira em seu canto.
NORDESTE: “Reis do Agronegócio”, com letra impactante do Carlos
Rennó, é uma faixa que quase ficou de fora do álbum. O que te fez
incluí-la de última hora e porque ela é relevante?
César: O disco estava já mixado. Todas as outras
canções tinham sido pré-produzidas na Paraíba, no SG Estúdio, de nosso
amigo Sergio Gallo, onde nos encontrávamos nas noites pessoenses eu
(guitarra), Helinho Medeiros (teclados e sanfona), Xisto Medeiros
(baixo) e Gledson Meira (bateria). Depois, ao ter o projeto selecionado
pela edital nacional da Natura Musical, fomos a Alambari (interior de
São Paulo) gravar o disco num hotel fazenda: a Gargolândia, do
compositor Rafael Altério. Havia ali uma unidade e até aquele momento a
única letra do disco que não era minha era a de "Quero Viver", do poeta
piauiense Torquato Neto, que se matou no começo dos anos 70. De todo
modo é uma poesia que celebra a vida. Quando Carlos Rennó me deu o poema
"Reis do Agronegócio" eu já estava de volta morando em São Paulo e
realmente não pensava em fazer a música para pôr nesse disco. E queria
fazê-la sem pressa, como de fato fiz. Fiz rápido mas fiz sem pressa. Foi
no tempo dela. De cara pensei em dois caminhos. O primeiro, inspirado
na vereda sertânica aberta por Elomar Figueira de Melo. Experimentei
esse viés mas senti que talvez limitasse a capacidade de comunicação da
canção -- que eu imaginava que teria de ser assimilada por um número
maior de pessoas, que pudesse ser tocada na rua, em ambientes abertos.
Optei então pelo segundo caminho: o da canção folk universalizado por
Bob Dylan e seguido aqui por vates (palavra celta que se refere a
profetas e bardos) como Braulio Tavares, Zé Ramalho, Raul Seixas,
Belchior, Zé Geraldo. E logo que musiquei a primeira estrofe senti o
impacto que "aquilo" poderia ter. Agarrei-me a esse fio que logo foi se
tornando um barbante bastante grosso e forte. Música pronta, ali pelo
começo de abril, fomos cantá-la em um encontro de sem-teto em São Paulo
em homenagem a meu irmão Luiz Gonzaga da Silva Gegê, um de seus líderes,
e logo depois fomos a Brasília cantá-la em um acampamento indígena. Ali
deu-se a mágica: os índios do Brasil inteiro ali reunidos e
representados me pediram para ir com eles no dia seguinte ao Congresso
Nacional. Que eu cantasse a música em seu dia 19 de abril e através dela
dissesse tudo o que eles queriam dizer aos deputados. Foi incrível
aquele momento, logo eternizado em gravações feitas com celulares que se
espalharam pela internet. Depois disso tornou-se inevitável abrir o
disco para pôr a música. Terminei por gravá-la sozinho com a guitarra e o
pianista Zé Godói, que gravou órgão, pois os músicos da banda estavam
todos na Paraíba, onde vivem e são professores no curso de música da
Universidade Federal da Paraíba. A força da canção se impôs. O mais
incrível é que em todos os lugares que vou com o show tem sempre uma
pessoa ou mais que canta de cor e a audiência sempre se manifesta no
meio da música com palavras ou aplausos. Fico muito feliz de ter ouvido
minha intuição aí e aberto o disco. Talvez se estivesse fazendo o disco
por uma gravadora e não pela Natura Musical eu não conseguisse. Ia
parecer loucura, capricho de artista...
NORDESTE: Seu primeiro sucesso, Mama África, teve um clipe
dirigido por Anna Muylaert, que hoje tem um filme no cinema (Que Horas
Ela Volta). Como foi trabalhar com ela e gravar o vídeo na sua cidade
natal?
César: Anna Muylaert é brilhante e tem muitas
qualidades inegáveis. Entre elas está o seu amor pelo Brasil e ainda
enxergá-lo e representá-lo sem clichês e sem preconceito, até
generosamente nos alertando sobre eles. Isso já está no clipe de Mama
África, uma obra de arte que tem sido estudada nas escolas de
audiovisual por todo o país. E explode agora, esse amor pelo Brasil
profundo, em "Que Horas Ela Volta". Fui a estréia aqui em São Paulo, no
Auditório do Ibirapuera, e chorei e ri, me alegrei e me revoltei como
muitos presentes. Saí enfim otimista de ver que existe um filme
mostrando que o Brasil mudou pra melhor nos últimos quinze anos, que um
estudante de escola pública do interior do Nordeste pode competir com um
aluno de escola particular do Sudeste. E ganhar, por saber que tem
direito àquela vaga e por ter se preparado, por ter encontrado condições
para se preparar no percurso. Acho lindo isso. Ah, trabalhar com Anna
foi fantástico. Já éramos amigos e ali selamos para sempre nossa
identificação. Foi maravilhoso irmos juntos a Catolé naquele momento,
quase 20 anos atrás, com uma equipe enorme, toda a minha banda juntos
também e lá encontrar minha família, os catoleenses conterrâneos meus, o
chão sertanejo bonito que me deu origem e o céu - o inigualável céu do
sertão, que está no clipe.
NORDESTE: Como você vê o atual cenário musical brasileiro? Que
nomes você destaca na nova geração de músicos paraibanos e brasileiros
em geral?
César: Acho maravilhoso o espoucar cotidiano da cena
musical brasileira. Todos os dias um artista novo ou um velho artista se
faz mostrar neste país. Seja um Dani Black jovenzinho de São Paulo ou
uma senhora paraense como Dona Onete. É lindo demais isso. E a internet
ajuda a gente a se conhecer. Na Paraíba não é diferente, temos uma cena
brilhante e pródiga em talentos de todas as idades. O bonito de agora é
que é tudo como se fosse da mesma geração: é roqueiro se juntando com
zabumbeiro das antigas, é coquista junto com DJ, grupo de cordas
eruditas dialogando com gente de música eletrônica. É bonito, o
tempo-espaço dilatando pra caber todo mundo. Não é a toa que convidei
Escurinho, Seu Pereira e Luizinho Calixto para se juntarem a nós a esse
"Estado de Poesia".
Pedro Callado (Revista NORDESTE)
Pedro Callado (Revista NORDESTE)
Nenhum comentário:
Postar um comentário