Protestos: Dilma é alvo principal, mas divide hostilidade com outros políticos
“Pede
para sair”, “Perda Total” e “A culpa é das estrelas” foram os adesivos
mais comuns usados pelos manifestantes que ocuparam parte da Esplanada
dos Ministérios para protestar contra a presidente Dilma Rousseff (PT).
Os adesivos adornavam as camisetas da seleção brasileira de futebol e
davam uma nova roupagem ao uniforme da Confederação Brasileira de
Futebol que nos tempos atuais é usada como ferramenta de protesto.
Em Brasília, embora tenham sido o alvo preferencial, Dilma e o PT não
foram os únicos a ser hostilizados pelos manifestantes. O presidente da
Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o vice-presidente, Michel
Temer (PMDB), e o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Dias
Toffoli, e o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, também
foram lembrados.
Além do leque diverso de xingamentos, a manifestação esteve longe de ser
uma massa homogênea com uma pauta comum. Alguns não tiveram vergonha de
defender um golpe militar para depor a presidente. O discurso foi
camuflado sob a roupagem de “intervenção militar constitucional”. Não
foi defendido pela maioria e seus partidários acabaram, por diversas
vezes, discutindo com outros manifestantes. A maioria defendeu a tese de
impeachment baseado em dois eixos principais: Dilma estaria mentindo
sobre o que de fato saberia sobre a corrupção na Petrobrás e a
presidente teria mentido durante a campanha, prometendo uma plataforma
contrária ao que estaria aplicando neste segundo mandato.
“(O Impeachment) é um pedido legítimo, mas não acho que isso vá de fato
acontecer”, afirmou o servidor público Leonardo Martins, 36 anos. Ele
veio ao protesto junto com a família e diz que se pudesse sintetizar seu
protesto faria com contra o Foro de São Paulo, organização que reúne
governos e partidos de esquerda. “Eles tentam tomar o poder e prevalecer
no poder contra a própria moral”, afirma. Ele critica a corrupção e
reconhece que o problema não é novo. “Acho que tinha antes, mas o PT
levou isso a níveis nunca vistos. E se fosse o PSDB que estivesse no
poder agora, estaria aqui do mesmo jeito”, declara ele.
Impechament x intervenção militar
O grupo mais radical, que pedia “intervenção militar constitucional”
acabou tendo seu argumento rejeitado por diversos manifestantes que
sinalizavam negativamente ao discurso. Houve troca de insultos e
enquanto os radicais acusavam os que não aceitavam suas teses de
“petistas infiltrados” os segundo grupo os classificava de oportunistas.
Embora tenham batido boca em diversos momentos da passeata pela
Esplanada, não houve agressão.
Esse grupo mais radical gritava, do alto de um dos três carros de som
presentes à manifestação palavras de baixo calão contra políticos
diversos. Dilma e o PT eram os alvos mais frequentes, mas muitos outros
políticos foram lembrados, como Cunha, Renan Calheiros (PMDB-RN) e
Temer. Esse segmento rejeita a tese de impeachment pregando a ruptura
com o sistema e os modelos atuais. Indignado, o engenheiro Sergio
Pimentel, 60 anos, foi um dos que peitou os radicais. “Isso é um bando
de oportunistas querendo intervenção militar. O Brasil já passou por
essa m… Forças Armadas no Brasil não protege nada, só mama nas tetas da
nação, como os políticos”, criticou ele.
“Isso é um movimento da sociedade. Não tem partido, não tem político.
Político que se vende presidente que mente… temos de mudar isso. Aí vêm
esses oportunistas aqui pedindo intervenção militar e se dizendo parte
do movimento. Não são e não tem nenhuma legitimidade de estar aqui”,
acrescenta Pimentel, que diz defender um processo de impeachment contra a
presidente, mas com o amplo direito a defesa dela durante esse
processo.
Rogério Figueiredo da Silva, servidor público, 41 anos, trouxe os filhos
para o protesto e também criticou o radicalismo. “Intervenção militar
nunca”, diz ele. “Acho que são jovens malucos que não sabem o que estão
pedindo. É melhor o PT no poder do que intervenção militar, ainda que eu
seja totalmente avesso ao PT, sou anti-PT”, declara Silva. Ele conta
que esteve na última manifestação com a mulher e os dois filhos.
Perguntado sobre o tamanho da passeata deste domingo em relação ao
anterior, disse achar que a de agora foi menor. “Acho que marcaram muito
em cima uma manifestação da outra, mas acho que a indignação é a mesma
de antes”, avalia.
Urnas adulteradas
Toffoli foi acusado pelos manifestantes de manipular a eleição para
manter Dilma no poder. Muito pediam sua cabeça, junto com a da
presidente. Os radicais o acusaram diversas vezes de ter manipulado a
eleição e adulterado urnas. Toffoli foi lembrado em diversos cartazes de
manifestantes que pediam sua saída. Edgar era um deles. Servidor
público, não quis dar seu sobrenome, mas criticou o presidente do TSE.
“Não concordo com o a ascensão dele e nem com a forma como é feita a
contagem dos votos. Acho que tem manipulação. Além disso, ele deveria
ser impedido de estar na posição que está já que já foi advogado do PT”,
afirmou ele, que disse ser contrário a intervenção militar.
Gilmar Mendes foi cobrado por um pequeno grupo a respeito do pedido de
vistas da Ação Direta de Inconstitucionalidade que trata da doação de
empresas em campanhas eleitorais. Matematicamente, este julgamento já
está definido e significará o fim das doações de empresas para
candidatos, mas enquanto Mendes não liberar o pedido de vistas, o
julgamento não poderá ser concluído. “É um avanço barrar as doações de
empresas, só que o Gilmar (Mendes) sumiu com a Adi. Queremos que ele
devolva. Acho que o fim das doações de empresas não resolve tudo, mas é
um duro golpe na corrupção. Não acabaria, mas sagraria os corruptos”,
defende Lucas Barros, 38 anos, empregado público.
Barros criticou os pedidos de intervenção militar e também a tese de
impeachment. “Acho que as pessoas estão meio atordoadas com o que tem
acontecido e estão perdendo o nexo com a realidade”, disse ele. “Não
concordo com impeachment de maneira nenhuma”, resumiu ele, que
perguntado sobre intervenção militar ironizou a ideia. “Eles assinam
acordos sociais com bala de fuzil”, afirmou. Por volta do meio-dia, a
manifestação, que começou às 9h, começou a perder fôlego, com grande
parte do público presente em frente ao Congresso Nacional, deixando o
local.
IG
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