De acordo com
os descobridores dos fósseis, que publicaram na última quarta-feira (7)
suas conclusões na revista científica Nature, a anatomia desses humanos
primitivos combina traços mais primitivos e outros que só apareceriam
mais tarde na nossa espécie (Homo sapiens) e em seus parentes do fim da
Era do Gelo.
O estudo é
assinado por uma equipe de peso, encabeçada por Jean-Jacques Hublin,
ligado ao Collège de France, em Paris, e ao Instituto Max Planck de
Antropologia Evolucionista, na Alemanha. Hublin também foi o responsável
por identificar o que os pesquisadores consideram como mais antigos
fósseis do H. sapiens propriamente ditos, com 300 mil anos, igualmente
em solo marroquino. Abderrahim Mohib, do Instituto Nacional de Ciências
da Arqueologia e do Patrimônio, no Marrocos, é o outro coordenador do
trabalho.
Os fósseis
descritos no artigo desta semana na Nature vêm das vizinhanças da cidade
de Casablanca (a mesma celebrizada pelo filme clássico de Hollywood),
de uma caverna conhecida em francês como "Grotte à Hominidés" ("Gruta
dos Hominídeos", ou seja, dos ancestrais da humanidade).
Escavações no
local acontecem desde o fim dos anos 1960, mas a nova publicação reúne
dados obtidos pelos paleoantropólogos dos anos 1990 em diante, quando a
caverna foi explorada de forma sistemática, com a obtenção de
instrumentos de pedra, restos de fauna antiga (principalmente mamíferos)
e de membros do gênero Homo.
A abertura na
rocha tinha sido formada por influência marinha, num momento em que o
nível dos oceanos estava mais alto, e depois foi sendo preenchida por
uma sucessão de sedimentos trazidos pelas marés, pelo vento e também de
origem continental. Os fósseis de ancestrais humanos incluem três
mandíbulas, dentes isolados, vértebras e o pedaço de um fêmur -este
último com marcas que indicam que ele chegou a ser roído por um
carnívoro de grande porte, provavelmente uma hiena.
Uma série de
métodos de datação indica que os ossos do gênero Homo correspondem ao
começo da fase geológica conhecida como Pleistoceno Médio. Entre esses
métodos, o que equipe avalia como mais preciso naquele contexto é o que
leva em conta mudanças na orientação do campo magnético da Terra,
indicando que os fósseis teriam cerca de 770 mil anos de idade.
Se a data
estiver correta, ela é significativa por estar próxima das estimativas
do momento de divergência entre as diferentes linhagens do nosso gênero,
feitas a partir dos dados de DNA.
Como já
dispomos de versões bastante completas do genoma (conjunto do material
genético) dos neandertais e dos denisovanos, bem como, é claro, do
genoma humano moderno, essas informações podem ser usadas para tentar
estimar quando, grosso modo, os membros ancestrais de cada uma dessas
espécies pararam de se reproduzir entre si e adquiriram tendências
reprodutivas próprias, formando linhagens relativamente separadas.
Ao mesmo
tempo, a datação de 770 mil anos está dentro da margem de erro da idade
de outro fóssil muito importante, encontrado na Espanha e batizado com o
nome científico Homo antecessor (as datas estimadas para ele ficam
entre 950 mil e 770 mil anos).
As idades
semelhantes dos fósseis podem ser significativas, considerando a
proximidade e as conexões entre o território marroquino e a Espanha, do
outro lado do estreito de Gibraltar, que separa a Europa da África (não
por acaso, foi por ali que invasores do norte da África chegaram
diversas vezes ao território europeu na Idade Média, e o inverso
aconteceu a partir do século 15).
No entanto, a
análise comparativa dos ossos ancestrais indica, para os autores do
novo estudo, que o Homo antecessor espanhol já está mais próximo das
linhagens de neandertais e denisovanos. Já os fósseis de Marrocos
manteriam características mais mistas, incluindo traços associados a
membros africanos mais antigos do gênero Homo e outras que aparecem no
H. sapiens, bem como em neandertais e denisovanos.
"Os fósseis
da 'Grotte à Hominidés' podem ser os melhores candidatos que temos na
busca por populações africanas que estão perto da raiz dessa
ancestralidade compartilhada, reforçando, assim, a visão de que a nossa
espécie tem uma origem africana profunda", resumiu Hublin em comunicado
oficial.
Ainda é cedo
para confirmar essa visão, porém, alerta o especialista espanhol Antonio
Rosas, do Museu Nacional de História Natural de Madri, que comentou a
pesquisa a pedido da Nature.
"Nem os
fósseis atribuídos à espécie H. antecessor nem os encontrados no
Marrocos podem ser vistos como o próprio ancestral comum do H. sapiens e
do grupo neandertal-denisovano", avalia ele. "Em vez disso, podem ser
considerados membros de linhagens proximamente aparentadas, perto da
bifurcação ancestral."
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