Vivemos mesmo uma era de relacionamentos amorosos diferentes
Alessandra vive um conflito: por ser do século passado acredita que o amor começa com conquistas, sedução, romance. Hoje, no entanto, isso não rola; daí sentir-se obrigada a rever seus conceitos.
| Marcia Neder *
"Alemão esquece a noiva a caminho da lua de mel."
Meu amigo Avimar compartilha a notícia já mandando a sugestão: "Acho que
daria uma boa crônica". Notícia lida e conferida, comecei a refletir
sobre as relações amorosas hoje. Homens comentam que há muitas mulheres
disponíveis. Mulheres reclamam que está difícil encontrar homens.
Alessandra
define: suas amigas estão encontrando nos gringos o romance que, com os
nativos, não têm conseguido escrever. Ela própria vive um conflito: por
ser do século passado acredita que o amor começa com conquistas,
sedução, romance. Hoje, no entanto, isso não rola; daí sentir-se
obrigada a rever seus conceitos.
Volto ao noivo alemão, alegoria
desses tempos de desencontro. O sujeito capricha na apresentação, no
prefácio e nos primeiros capítulos do romance, oferece à dama os
sacrifícios de praxe e vai pra conclusão com esse the end
mixuruca? Fim da festa, os pombinhos entram no carro. Partem em lua de
mel, aquela noite que deveria adoçar, melar a vida até que a morte nos
separe.
Melou. Hans – vamos chamar o noivo assim – esqueceu
sua Brunilda no meio do caminho. Como? Parou o carro na estrada para
abastecer, deu partida, engatou a primeira e se fue. Só notou muito
tempo depois.
Nessas paradas aí de esquecimento
geralmente não tem inocente. Chama-se ato falho: um ato criado pela
invasão do primata, do homem das cavernas que tomou de usucapião nossas
terras psíquicas aboletando-se em nosso inconsciente. Arremessada para o
espaço virtual, a cara-metade virou gasolina presa na bomba, amor
líquido, o único amor que Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, acha que
hoje somos capazes de viver.
Agora vem o melhor da história. O
Avimar mostrou a notícia já sugerindo a interpretação: a piada que
acompanha a apresentação feita por Durkheim do seu famoso estudo sobre o
suicídio. O casamento protege do suicídio, concluiu o sociólogo. Como
sempre tem malandro para fazer piada com assunto sagrado, o cara na
plateia pediu licença e contestou a conclusão científica: “Mas
professor, o suicídio protege do casamento!”.
Hans deve ter ouvido
os gritos cartesianos do seu brucutu interior, “penso, logo sou
solteiro”, e se mandou. Contrariar o espírito do tempo que Bauman diz
ser o “túmulo para os relacionamentos”?
Quem sabe Hans não queria
só uma conexão, mais fácil de desfazer? Basta um clique no deletar, o
ignorar de um e-mail, um bloquear no Facebook ou no Skype e pronto: sem
drama, sangue ou tragédia grega lá vai a delícia errar pelo espaço
virtual.
E você pode suicidar quem quiser. Juliana conta algumas
dessas maneiras: “Ele colocou uma foto de perfil sozinho no Facebook,
não quer demonstrar que é comprometido. Ele curte as fotos e posts das
amigas dele e nunca as minhas."
Se Bauman tem razão eu
não sei. Porque não é só no espaço virtual que a pessoa pode se recusar a
estar disponível ou online quando o outro precisa: pode ser nas redes
sociais, mas também no telefone ou mesmo em casa. Quantos já não se
escafederam de uma visita?
Nany conta a frase ouvida um
sem-número de vezes: “Ele prefere sair com os amigos dele do que
comigo." E Ana Paula: “Por que você não presta atenção no que eu falo?”.
Então
bloquear a lindinha não é magia existente só no reino virtual. Está aí o
indeciso Hans esquecendo sua Brunilda para não me deixar mentir.

Thinkstock/Getty Images
"Menino aprende desde que nasce que sua virilidade está em quantas ele pegou, comeu ou ficou"
De qualquer maneira vivemos mesmo uma era de
relacionamentos amorosos diferentes. Seja isso amor líquido ou, como
prefiro dizer, amor nécessaire, aquela bolsinha de toalete que a gente
saca quando precisa, espécie de rascunho do amor, aliança desenhada a
lápis, fácil de apagar.
Sei lá qual era a aliança trocada por Hans
e sua Brunilda – do caso só li o que o site publicou. O que sei é que o
episódio é uma excelente metáfora dos relacionamentos amorosos hoje,
tipo homens em fuga diante das “investidas” ou “ataques” das mulheres,
como escuto por aí.
Freud disse: “A anatomia é o destino”. Frase
que continua a ser criticada até os dias atuais. Eu mesma já gastei
muita tecla para discordar. Foi o alvo da contra-frase não menos famosa
da Simone de Beauvoir: "Não se nasce mulher, torna-se uma".
O
quadro atual anda me fazendo pensar que um esquecimento ronda essas
discussões, como se as relações amorosas fossem tão somente uma questão
de direitos, ou de matemática no um a um. Quer dizer, ou “só” anatomia
ou zero anatomia.
O iG fez uma enquete entre os leitores do Quem seduz quem?,
escrito por mim há um mês. A pergunta feita é: quem deve cantar quem? A
maioria dos votos foi para o “Tanto faz. Às vezes o homem é mais tímido
e a mulher mais atirada”.
Ora ora, muito bem em tese e de
direito. Mas de fato, se o membro viril é parte importante da
brincadeira e não é livre para agir, então estamos diante de limites à
iniciativa feminina.
Como escreveu um entendido do assunto, o
homem, jornalista e cronista Xico Sá. "O pânico de broxar regra a vida
do homem." E desse pânico descenderia sua afamada pressa e desprezo
pelas preliminares.
O menino aprende desde que nasce que sua
virilidade está em quantas ele pegou, comeu ou ficou – na eficiência da
máquina, que ele muitas vezes confunde com carro.
Pois bem: quando
a Secretaria de Políticas para Mulheres tentou censurar aquela campanha
publicitária com a Gisele Bündchen, argumentou que ela eternizaria a
mulher como “objeto sexual do marido”.
Se a mulher é o “objeto
sexual do marido”, então o homem imaginado para essa mulher não é um
esfomeado de quem se espera ereção permanente e infalível?
Mais uma vez tenho que concluir que todo homem carrega o fardo de uma Salomé insaciável.
*
Marcia Neder é psicanalista, doutora e pós-doutora em psicologia
clínica, escritora, autora de "Déspotas Mirins. O poder nas novas
famílias", entre outros.

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