BUENOS AIRES - Nelson Mandela, símbolo da reconciliação sul-africana,
parece ter falhado na união de uma só família: aquela que leva seu
sobrenome. Há muitos anos, a família Mandela - composta de seis filhos,
17 netos, 12 bisnetos, duas ex-mulheres e vários sobrinhos - disputa por
poder, herança, nome, fortuna e legado através de ações judiciais e
brigas públicas.
Em sua autobiografia, “Longa caminhada até a
liberdade”, o homem que derrotou o apartheid reconhece que seu
compromisso com o povo o levou a descuidar daqueles que estavam mais
próximos.
“Um homem envolvido na luta era um um homem sem vida familiar”, escreveu.
Mas
Madiba, como era chamado em seu país, provavelmente nunca imaginou as
cenas de mesquinharia que seus descendentes seriam capazes de provocar.
Uma saga de brigas, acusações e inveja que levou Desmond Tutu, também
ganhador do prêmio Nobel da Paz, a pedir respeito a seu amigo.
“Podemos,
por favor, não pensar em nós mesmos? Isso é como estar cuspindo na cara
de Madiba”, disse o arcebispo da Igreja Anglicana ao tentar apaziguar
uma disputa.
O último e mais marcante capítulo da novela aconteceu
em junho deste ano, quando a justiça ordenou transferir os corpos de
três filhos do ex-presidente a Qunu, cidade natal de Mandela. Mandla,
neto e atual representante do clã, havia retirado os corpos para
enterrá-los em Mvezo.
Mandla, membro governante do Congresso
Nacional Africano (CNA) no parlamento, havia feito essa mudança com o
propósito de poder sepultar rapidamente seu avô em sua cidade. Ele tomou
a decisão sem consultar os outros familiares, nem mesmo a filha mais
velha de Mandela, Makaziwe, que deseja que seu pai seja enterrado em
Qunu, a 700 quilômetros de Johannesburgo. Ela foi a responsável por
reunir outros 16 familiares para reaver os corpos ao local onde haviam
sido sepultados. Nesta sexta-feira, o presidente sul-africano, Jacob Zuma, anunciou que o funeral ocorrerá no dia 15, em Qunu, cidade onde Mandela nasceu.
Mandla
demonstrou sua insatisfação na remoção dos corpos debatendo
publicamente todas as divergências da família: acusou um dos irmãos de
semear a mentira de que é fruto de uma relação extraconjugal, e ainda
disse que um outro irmão engravidou a mulher com quem Mandla era casado,
o obrigando a repudiar o recém-nascido.
O episódio irritou os
sul-africanos, que encheram as redes sociais de mensagens em protestos. A
mais replicada no Twitter foi: “Talvez Mandla seja um Mandela, mas está
longe de ser Nelson”.
Desde abril, 17 membros da família,
liderados por Makaziwe, iniciaram uma ação na Justiça para conquistar o
direito de controle das empresas fundadas por seu pai. Tratam-se da
Harmonieux Investement Holdings e da Magnifique Investment Holdings, que
geram mais de US$ 1 milhão por ano.
Esta é apenas uma das brigas
judiciais em torno da herança de Mandela, que arrecadou muito dinheiro
graças às vendas de seus livros e memórias, além de aquarelas e desenhos
feitos por ele na prisão de Robben Island, onde ficou 18 dos 27 anos
que passou encarcerado. Grande parte dessa fortuna foi doada por Mandela
a instituições de caridade.
Em qualquer negócio familiar, o nome
de Mandela sempre é usado de alguma maneira para despertar interesse da
população. As netas Zaziwe Dlamini-Manaway e Swati Dlamini criaram uma
grife de roupas cujo slogan é “Um toque de magia de Madiba para a
roupa”, o que acabou causando uma repercussão negativa para elas por
banalizarem seu legado. As duas ainda participaram de um reality show
chamado “Ser Mandela”, que abordava uma vida de festas badaladas,
regadas a champagne francês, em Nova York. Um estilo de vida bem
diferente do avô.
Com a morte de Mandela, os sul-africanos já
esperam por mais capítulos de brigas, conflitos e uma novela de horror
protagonizada pela família.
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