Ex-cortadora de cana fatura R$ 50 milhões ao ano com bolos
Nascida em Bandeirante, no Paraná, já aos 9 anos começou
a trabalhar – e trabalhava como gente grande. Com a morte do pai,
Cleusa, seus 9 irmãos e a mãe, Lázara, passaram a trabalhar na roça. O
caminho encontrado para que não faltasse comida em casa foi o corte de
cana-de-açúcar. "Eu acabei assumindo a liderança da família com a morte
do meu pai", conta a empresária.
Ao
contrário das outras crianças, que ganhavam meia diária, Cleusa recebia
a diária inteira – por volta de R$ 50 – graças à sua grande força e
disposição. Capinou plantações de milho, soja, cana de açúcar, entre
outros, sempre em companhia dos seus irmãos, que trabalhavam sempre
juntos, na mesma lavoura.
Crescida, buscou um outro
destino, para oferecer à sua família alguma alternativa. Chegou a
trabalhar como empregada doméstica e diarista. “Eu não conseguia mais
ver minha mãe, naquela idade, trabalhando como boia-fria”, conta Cleusa,
terceira de uma família de dez irmãos. “Partia meu coração ver minha
mãe aos 50 anos levantando às quatro horas da manhã para ir para a
roça.”
Hoje, ao ver a Sodiê faturando R$ 50 milhões ao
ano, Cleusa não tem dúvidas do valor de sua dedicação. “Até hoje eu olho
todos os negócios da empresa, vejo que valeram a pena todas as noites
em claro e todo o esforço”, afirma. Mas é nos olhos da mãe que ela vê a
verdadeira recompensa. “Quando vejo que hoje ela tem a casinha dela, não
trabalha e vive bem, uma velhice com tranqüilidade, aí sim eu fico com a
sensação que estou em um sonho.”
Toda energia adicional foi necessária. No começo,
os bolos saiam da cozinha de casa mesmo, no horário em que Cleusa não
estava trabalhando na fábrica de auto-falantes que a empregava durante o
dia. Chegava já cansada do trabalho, mas ao ver Diego, seu primeiro
filho, encontrava forças para continuar em frente. “Ele me esperava
chegar, ficava sentado na mesa enquanto eu cozinhava e às vezes até
dormia debruçado na mesa. Sempre foi meu parceirão”, conta.
Depois
de dois anos, a confeiteira resolveu ouvir o conselho de seus clientes e
investir em um negócio próprio. “Eu resistia muito a essa ideia, tinha
muito medo e nunca entendi nada de negócios”, desabafa. “Pensar nisso
era um desconforto enorme.”
O ponto de partida foi dado com quase R$ 3 mil que um de seus irmãos, Mauro, recebeu como rescisão contratual graças a uma demissão inesperada. “Todo mundo dizia que eu deveria abrir um negócio e me dedicar só aos bolos, quando veio esse dinheiro para o meu irmão, ele ofereceu entrar no negócio comigo”, conta. Até hoje, Mauro trabalha com a irmã, na parte administrativa da empresa. Outros três têm lojas da marca e um trabalha na produção de doces. Até a mãe da empresária, hoje aos 67 anos, ajuda na confecção das balas vendidas na rede. Os outros irmãos não se envolveram com a Sodiê.
Grandes famílias, difíceis negócios
A
empresa cresceu ao longo desses 17 anos e a gestão essencialmente
familiar já estava precisando de um apoio externo. “Foi um caminho
natural até a necessidade de profissionalização”, diz Cleusa. A saída
encontrada foi contratar uma equipe de consultores que administrasse com
ela essa fase de transição.

Divulgação
Cleusa e Ana Maria Braga: apresentadora é inspiração de dona Lázara, mãe da empreendedora
A empresária conta que a decisão não foi das mais
simples, principalmente porque enfrentou uma forte resistência da
família. “A empresa já estava estruturada e meus irmãos já eram donos de
lojas quando trouxemos o processo de profissionalização e a abertura de
franquias”, conta. “Já havia uma estrutura criada e montada, então
precisamos mexer em tudo para adotar uma gestão ainda mais
transparente.”
À frente do negócio ficaram o filho Diego
e Cleusa. As decisões são tomadas entre eles dois e comunicadas a
todos, para evitar que os debates de negócios contaminem a relação
familiar. “É bem difícil conciliar a empresa com a relação entre a
gente. Precisamos optar por centralizar as decisões porque se fôssemos
debater tudo o tempo todo, não tomaríamos decisões nunca.”
Um
passo de cada vez, Cleusa preferiu um avanço gradual a uma explosão.
Após a consultoria, decidiram abrir o negócio para franquias. Hoje, seis
anos depois, são mais de 140 lojas e um futuro bastante promissor.
Sucessão
Com
dois filhos – Diego do primeiro casamento e Sofia, 4 anos, do segundo
–, Cleusa encontrou no mais velho o seu sucessor no comando da Sodiê.
Ele, que tanto acompanhou as madrugadas da mãe na cozinha, deverá
assumir os negócios nos próximos anos. “Em alguns aspectos da gestão,
ele já é até melhor que eu”, diz Cleusa.
A empreendedora
diz não ter grandes problemas no treinamento do filho. “Ele é muito
tranqüilo, mas não tem outro jeito de aprender como as coisas funcionam.
É só no dia a dia mesmo.” No próximo ano, ele começa a graduação em
administração de empresas.
Cleusa conta que sempre sonhou com o
curso superior. Em 1998, chegou a terminar os estudos que tinha sido
abandonado. O sonho da faculdade ficou para trás. “Não dava para cuidar
da empresa, das crianças e ainda estudar. Tive de fazer uma escolha e
hoje sei que tomei a melhor decisão para aquele momento.”
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